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Zé Pedro: “Em 1977, depois de ver o festival punk, encontro o meu caminho”

Entrevista de NUNO GALOPIM

Em finais de 2008 conversei com o Zé Pedro sobre a sua descoberta da música, as primeiras vivências entre discos, bandas e concertos. Aqui ficam memórias que nos levam até ao momento da estreia dos Xutos & Pontapés, em janeiro de 1979.

Que memórias guardas dos dias em que a música começou a ter algum protagonismo na tua vida?
Lembro-me das festas de finalistas. E de convívios nos liceus. À falta de DJs, levavam bandas… A maior parte do tempo faziam covers. Cada banda estava mais ligada a esta ou aquela banda de referência. E depois tinham os seus originais. E alguns depois faziam a ponte para os originais, como os Chinchilas. Acho que a primeira banda de música portuguesa que vi foram os Beatnicks, na altura do Rui Pipas. Depois vêm cá os Vinnegar Joe, do Robert Palmer, e aquilo foi um estoiro! Foi no Monumental, num concerto à meia noite e meia! E mais à frente fizeram a primeira parte dos Blood Sweat and Tears em Cascais. E isso deu logo a ideia de dois vocalistas… Por essa altura apareceu uma companhia, a IF, dirigida por um americano [Kevin Hoidale] que tinha uma banda. Vinha dos Objectivo e formou os Albatroz.

Qual era a tua principal fonte para a descoberta de nova música?
Era a rádio! A descoberta do FM! Devorava o FM… Depois entre uns e outros conhecemos as coisas.

O “Em Órbita” é um programa com alguma importância nessa fase…
Passava alguma dessa música. Havia alguma atenção pelo que surgia de novo em Portugal. Depois também ia para a discoteca do Carmo. E havia já aquela tentação de pegar em coisas portuguesas…. Olhávamos para as capas para ver se interessavam…

Entre os teus primeiros discos já havia rock português?
Eu era puto, vivia nos Olivais, mas nessa altura andava já atrás das bandas. Já tínhamos os discos dos Petrus Castrus, o D. Sebastião do Quarteto 1111…

Já tocavas por essa altura?
Ainda não. Só me começo a interessar pelos instrumentos depois de ter ido ao festival punk [em 1977]… Entretanto comecei a comprar discos. E a Rock & Folk. Passei fases. Numa altura ouvi muito a orquestra do Duke Ellington, as big bands… Depois entrei muito pelos blues… O Rui Neves dava-me uma dicas daqui e dali. Depois há o aparecimento do festival de jazz de Cascais. Antes disso há uma peça de teatro no São Luiz, o Missa Leiga, onde a tocava a Heavy Band. E aquilo para mim foi fabuloso. A banda tocava num palco pequeno… Gostei mesmo. E daí ter começado a ir para os convívios à procura de bandas. Aquele foi o meu clic… Então aparece o primeiro festival de jazz de Cascais. E com a troca de programação a primeira coisa que aparece em cima do palco é o Miles Davis! Com calças à boca de sino, óculos, T-shirt curtinha… Com o Jack DeJohnette na bateria, o Keith Jarrett e o Chic Corea no piano, o Dave Holland no contrabaixo, o Stan Getz no sax… Foi fabuloso. Era o auge do jazz rock. Aquilo nunca mais me saiu da cabeça. Entrei então muito nas ondas do jazz. E ainda ouvi muito o rock alemão, que estava a nascer. Lembro-me de ouvir o primeiro álbum dos Tangerine Dream, com o Klaus Schulze ainda na bateria. E depois um baixo e um guitarristas. Havia parecenças enormes com o acid rock da Califórnia.

Todos os discos, bandas ou movimentos, acabam sempre por fazer pontes, citações, referências…
O Keith Richards diz que o rock’n’roll é uma passagem de testemunhos. E é verdade. Vamos sempre beber ideias a um lado ou outro, e não devemos ter vergonha disso. Se não copiarmos damos, antes, uma interpretação ao que ouvimos. Nos Xutos & Pontapés temos isso. Quando começámos o António Sérgio tinha o Rotação. Gravávamos o programa e passávamos as cassetes de uns para os outros. Aprendíamos muitos nas cassetes. Essa passagem de testemunhos é extremamente saborosa a nível criativo. A aproveitar uma ideia qualquer estamos afinal a criar uma coisa nova. E é por isso que o rock’n’roll não se esgota. Vamos buscar uma coisa ao Elvis ou ao Chuck Berry, depois junta-se um bocadinho de Stones e mais uma pincelada de Red Hot… Não é que seja preciso juntar isto tudo, Mas se isto estiver em funcionamento na nossa cabeça, durante a composição de uma música nova… Nos Xutos & Pontapés, quando aparece uma música lembro-me de assumir uma personalidade minha naquela música. Gosto de me identificar com alguém, de fazer um riff à isto ou aquilo. Ter essa imagem de um músico em mente (e às vezes pode nem ser um guitarrista, mas apenas uma atitude). Essa música, na minha cabeça, vai ao encontro de determinadas coisas… E tenho a impressão que, entre nós todos, e sem disso falarmos, temos um bocadinho dessas coisas. E é por isso que a coisa fica assim, um bocado elástica.

Antes de 1974 sentias que havia música que não chegava a Portugal?
Quando estamos num mundo em que a informação é aquela, devoramo-la toda! Tudo o que chegasse nós devorávamos, para saber o que era. E como chegava em pequenas quantidades, tinha tempo para devorar a novidade. Tempo para ouvir um disco todo, para o analisar, repetir. Era raro levantar a agulha de uma faixa para passar para a seguinte. Ou seja, ouvia-se o disco todo, pelo menos na primeira audição.

E como chegavam os discos?
Pela Discoteca do Carmo. E por mailing lists… A Cobb Records… Éramos cinco ou seis, e de 15 em 15 dias, entre semanadas e mais algum dinheiro dava para comprar um disco. Cada um ia escolhendo. Um comprava este, da vez seguinte outro comprava aquele… Íamos comprando as revistas e sabendo as novidades. Escolhíamos disco por uma notícia. Por exemplo, comprei os Ramones, que nem sabia o que eram, porque li uma noticia, com uma fotografia, que falava de uma banda em Nova Iorque que trabalha sobre três acordes e letras como “Now I wanna sniff some glue Now I wanna have somethin’ to do”… Na altura estava a ouvir o Santana e a Mahavishnu Orchestra, que era o oposto total… Mandei vir os Ramones e o Positive Vibration, do Bob Marley, que eram dois discos completamente… fora. E foi diferente!

O que muda com o 25 de Abril na tua relação com a música?
Tinha uns 16 ou 17 anos… Comecei a perceber o que era a política. O meu pai era oficial. Tínhamos estado no Ultramar, pelo que eu tinha a noção que havia uma guerra. À partida pensava que os bons éramos nós…

Pensavas que lá terias de ir parar?
Não pensava nisso. Mas acho que isso não me assustava muito, uma vez que sempre vivi em quartéis ou ao pé de quartéis. Tive um acesso direto àquilo que se estava a passar. Aliás, a minha experiência maior foi em Timor. E Timor era completamente pacífico em relação à guerra. Víamos o aparelho militar a funcionar. Andávamos de cidade para cidade, de vila para vila…
A seguir ao 25 de Abril tive uma vivência mais política. Não bem logo a 25 de Abril, mas no 1º de Maio… Foi uma coisa grandiosa. Abriram-se portas… No liceu envolvi-me com os ativistas, embora nunca tenha pertencido a nenhum partido… A nível de informação começam a acontecer muitas coisas. Primeiro foi o absorver da política. E o Che Guevara aí é uma personagem… E depois a busca da música tornou-se mais interessante. E mais fácil. Os programas de rádio, já os havia antes, mas passámos a dar-lhes mais atenção. E em 1977, depois de ver o festival punk, encontro o meu caminho.

O punk passa a leste da maioria dos portugueses. Como o descobres?
Primeiro pelas revistas… Acho que compro o álbum dos Ramones em 75 ou 76. E fico logo com as antenas no ar… Depois quando vejo o festival em Mont-de-Marsan num InterRail, as coisas fizeram todo o sentido para mim. Quando voltei espetei logo um alfinete na boca, rapei o cabelo… E juntei-me a mais uns na minha onda. Encontrava-mo-nos numa cervejaria, entre a Munique e a Trindade. Todos tínhamos uma banda. Como um bom punk… Não éramos muitos. Aí uns 15 ou 20. Mas havia uma grande troca de informação entre bandas. Um descobria os Stranglers, o outro os The Only Ones, os The Saints… E tudo isto acompanhado muito pelo [António] Sérgio.

Até que ponto António Sérgio é determinante nessa formação?
Era o programa certo na altura certa. Era o expoente máximo a divulgar música. Trazia muitas coisas em primeira mão. A primeira vez que ouvi os U2 foi no programa dele. Deu muita força a muita gente que ouvia música…

A vontade de ser músico nasce, assim, como consequência directa do punk…
Quando, mais tarde, os Xutos começaram a saltar para os concertos de província, a gente fazia muito os intervalos dos bailes… O pessoal não reagia muito… Mas também não se ia embora… Chegávamos aos sítios e éramos os punks… Quando aparecemos os UHF estavam na calha. Lembro-me de os ver no final do Verão de 78 no Brown’s, que tinha um DJ fabuloso. Era por trás da Avenida de Roma e foi lá que ouvi os Devo pela primeira vez… Depois havia os Aqui d’El Rock. Quando eu regressei do InterRail, em 1977, houve um festival no Restelo. Um festival da Música & Som, onde tocam os Faíscas. O cartaz tinha os Psico, os Arte & Ofício, e havia uma terceira banda… Antes já estava a acompanhar uma banda dos Olivais: os Ficha Tripla. Ia aos ensaios deles… Mais tarde conheci o Manuel Cardoso, dos Tantra. Ia ver bandas ao Cinema da Encarnação e depois ficava a conhecer a malta que tocava… Havia ali já o bichinho. Só faltava a definição do que ia fazer… Depois há os Faíscas, que foram uma pedrada no charco. Foram uma banda repentina, mas deixaram marcas. Aparece o primeiro single dos Aqui d’El Rock. Mas nós torcíamos o nariz, porque não sabiamos quem eles eram… Éramos um bocado elitistas (risos).

Foram o único disco editado e apresentado como sendo punk português naquela altura…
Foram. Mas aquilo não era bem punk… Também em Inglaterra havia bandas que nem se sabia bem porque eram punk… Tínhamos a ideia que mais uma atitude. E os Aqui d’El Rock não tinham grande atitude.

Como é que os futuros elementos dos Xutos & Pontapés se conhecem?
O Kalú vem de um anuncio de jornal… Eu entretanto tinha ficado muito amigo do Pedro [Ayres Magalhães] e dos Faíscas… Zangaram-se com o Ramalho, e ficaram sem baterista. O que se faz? Mete-se um anuncio no Música & Som, que saía sabe-se lá quando… Metemos o anuncio com o número de telefone da casa dos meus pais. Fizeram entretanto as pazes, o Ramalho voltou. E começaram a chover telefonemas lá para casa. E o Pedro diz-me para ir guardando os telefonemas, que ainda acabava a ter uma banda e podia precisar de um baterista… Chegaram nove ou dez telefonemas com bateristas para a banda punk, que em principio seriam os Faíscas. O Kalú telefonou duas vezes… E refilou. E quando fui escolher o baterista ficou aquele. Tinha ligado duas vezes, devia estar interessado…

Ias então formar uma banda…
Íamos formar uma banda. Isto na altura em que havia o Zodíaco, na Infante Santo. Era um bar underground e aberto à malta toda. Chegámos a ter data agendada. O baixista seria o Zé Leonel. Eu estava a dar uns primeiros passos na guitarra. O Kalú supostamente seria o que teria mais experiência, que vinha de uma banda de baile. E o cantor era o Paulo Borges, que depois vai formar os Minas e Armadilhas. Nessa altura começaram a aparecer os primeiros fanzines. E também a cena do Brown’s. Começam a abrir coisas no Bairo Alto. Há ali um circuito das tascas… Isto já em 80/81…

E voltando ao que acabariam por ser os Xutos…
O Tim vem de Almada. Havia a ligação porque os UHF tinham começado lá. O Zé Leonel, tinha passado para vocalista e faltava-nos um baixista. Eu ia fazendo as músicas. Já havia umas letras… A Morte Lenta é dessa altura. O Dados Viciados também… Eu gostava de quebrar as regras do quatro por quatro, às vezes só para ser diferente. O Zé Leonel tinha visto o Tim a tocar guitarra de caixa. E foi-lhe perguntar se ele gostava de tocar baixo. Foi tudo muito rápido. Marcamos o ensaio… O encontro com o Kalú foi na Trindade. Para o reconhecer ele disse que levava uma T-shirt do Lou Reed. O Tim conheço-o, estava sentado na Senófila.

E chega a noite da estreia… A 13 de Janeiro de 1979…
O Pedro Ayres decide acabar com os Faíscas, Tem uma conversa comigo. Diz-me que vai acabar com o grupo, e que aproveitávamos a festa, que ele já tinha outros projetos. Era o Corpo Diplomático… Diz-me que tínhamos de ir lá tocar e aproveitar a oportunidade… Que era eu que tinha de ficar a tomar conta do punk. Coisas de guerrilheiros (risos)… Eram as coisas que planeávamos, à volta de muito abssinto, misturado com cerveja. Tivemos até um contrato assinado pelos dois, em mortalhas, e com sangue! Conseguimos falar com o Tim. Marcámos um ensaio na Senófila. O Kalú estava na primeira semana na tropa. E como não havia telemóvel, fui para a porta do Ralis, para ver se o apanhava a sair… Tínhamos de ir ensaiar, que havia concerto à noite… Tinha passado o Natal e há já um tempo que não falávamos. Fazemos o ensaio, a correr, antes de jantar. Tínhamos a reserva na Senófila. Colamos ali umas quatro músicas… Fomos jantar. E só tocámos [já nos Alunos de Apolo] às duas da manhã… Foram para aí quatro músicas em seis minutos… Era eu que dava as saídas. Já chega… vai outra. Tocámos os Dados Viciados, outra que nunca chegámos a gravar. E acho que tocámos uma homenagem ao Bo Didley, que era o Bo Tás À Rasca, que também nunca gravámos… E mais uma que está esquecida… Devemos ter tocado aí um bocadinho de cada uma. Não tocamos nem metade das músicas! Ninguém assobiou nem ninguém bateu palmas… A festa estava animada. Os Faíscas tocaram o repertório deles. Nós tocámos tão rápido! Mas fomos festejar como sendo uma grande banda…

Já tinham o nome encontrado nessa noite. Como surgiu?
O Gimba também fazia parte desta trupe. À partida ele também teria uma hipotética banda comigo. Mas eram aquelas bandas de café, que nunca chegámos a tocar juntos… Há uma série de nomes em cima da mesa. E aparece um que é Beijinhos e Parabéns. E trocou-se logo para Xutos & Pontapés.

E a banda vai iniciando a sua história…
Entretanto o Zé Leonel sai. O Kalú tocava numa banda de baile onde tocava também o Francis, que acaba a entrar na banda. Depois vamos buscar outra vez o Zé Leonel e estamos os cinco a funcionar uns meses. Depois acabou mesmo por sair. Estávamos em sintonias diferentes… O Francis habituou-nos a, musicalmente, tornarmo-nos mais sólidos. Mas a certa altura já não tinha nada a ver comigo e entrámos num conflito grande. Mas enquanto ele lá esteve, foi extraordinário na maneira como elevou a fasquia musical dos Xutos. E eu tive de me esforçar…

Esta é a versão integral de uma entrevista que fiz com o Zé Pedro em finais de 2008 e que serviu de base a um artigo publicado no DN a 10 de Janeiro de 2009, para assinalar os 30 anos dos Xutos & Pontapés. Foi uma bela conversa, num jantar perto da Praça das Flores… Ficam as palavras e as memórias que convocam.

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