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Um inferno com o mar em volta

Texto: NUNO GALOPIM

No seu novo livro o francês Emmanuel Lepage leva-nos ao farol de Ar-Men, que vive isolado no meio do mar, a alguns quilómetros das costas da bretanha. Um documentário que o acompanha mostra como o visitou para preparar esta ficção em banda desenhada.

O percurso recente do autor de banda desenhada Emmanuel Lepage tem acentuado a sua paixão pelo mar. E do resgisto mais documental de La Lune est blanche (livro de 2014 que nos levou a uma expedição na Antártida) à mais evidente incursão pela ficção em Les Voyages d’Ulysse (2016) esse encantamento pelos oceanos tem refletido um aprofundar das suas próprias experiências de descoberta. O seu novo livro Ar-Men –
L’Enfer des Enfers
é um exemplo de como um sentido quase documental no retratar dos espaços e das vivências pode habitar e tornar mais realista uma narrativa de ficção.

Ar-Men não é mais senão o nome do mais solitário e distante dos vários faróis que, desde finais do século XIX, surgiram numa perigosa zona de recifes junto à ilha de Sein, nas costas da Bretanha. A sua construção foi um feito de perseverança de quem teve a obra em mãos, levando durante uma série de anos uma pequena equipa de homens a tentar desembarcar num pequeno rochedo frequentemente sovado pelo mar para, sem máquinas, escavar buracos capazes de acolher as fundações do farol. Só o podiam fazer nas marés mais baixas. Sempre vigilantes perante as vagas ao seu redor. E no primeiro ano de trabalhos (em 1867) só desembarcaram ali por sete vezes, somando um total de oito horas de trabalho. Oito horas úteis num único ano… Foram precisas campanhas ao longo de oito anos para poder deixar então o edifício levantar-se da rocha numa. E mais seis para o construir… Hoje ainda ali vive, com nada senão o mar em seu redor, o acesso fazendo-se por helicóptero.

Emmanuel Lepage fez questão de o visitar – assim como foi conhecer outros faróis franceses – para assim procurar garantir o realismo de quem habitou aquele lugar para poder criar uma ficção que não só recorda a sua construção como acrescenta, com personagens por si criadas, uma outra dimensão narrativa ao livro e na qual outras histórias se escondem.

Os olhares sobre o farol, o sentido de isolamento e de pequenez perante o oceano em volta, a presença constante das vagas e um céu sempre toldado e ameaçador surgem são o cenário para uma história que começou a ganhar forma nos desenhos e aguarelas que Lepage criou quando visitou Ar-Men. De resto, na primeira edição do livro é oferecido um DVD com Les Gerdiens de nos Côtes, um documentário de Herlé Jouon que narra não só a história deste farol mas também do processo de repérage que Lepage desenvolveu para fazer este livro.

“Ar-Men”, de Emmanuel Lepage, é uma edição de 96 páginas, em capa dura, da Futuropolis.

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