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Os dez melhores discos de 2017 (Nº 1)

Estes foram os dez melhores álbuns de 2017, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. Uma a uma aqui vão surgir ao longo dos próximos dias, em contagem decrescente. E no número 1 está…

Estes foram os dez discos mais votadas pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue, que escolhesse os seus álbuns favoritos do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez que agora apresentamos.

1. “Music For People In Trouble”, de Susanne Sundfor
Depois de várias experiências dentro do universo da canção pop – com exemplo maior no anterior Ten Love Songs, disco de 2015 que a lançou num abismo depressivo – Susanne Sundfor partiu de reflexões de viagens pelas quais notou um mundo de contrastes e ansiedades que a conduziram ao patamar emocional e temático que o novo álbum traduz. A guitarra foi tomada então como a sua maior aliada, mostrando Music For People In Trouble um ciclo de canções sobre o estado das coisas que fazem o nosso presente e que parecem desenhar inicialmente um espaço essencialmente acústico mas que, aos poucos, acolhem desenhos ambientais, vozes de tom cinematográfico que habitam momentos, flirts jazzy (que me fizeram lembrar climas da série original de Twin Peaks), que nos conduzem a um final imponente, embora introspetivo, nos cenicamente assombrosos The Golden Age e Mountaineers, este último em parceria vocal com John Grant numa das mais impressionantes manifestações de herança do universo fantasmático dos This Mortal Coil, mais até do que ecos do belíssimo A Night at Salle Pleyel, disco instrumental que Susanne Sundfor editou apenas numa limitada prensagem de 600 cópias em vinil em 2011 que ajuda mesmo assim a lançar alguns dos caminhos que agora ela mesma parece querer seguir… Music For People In Trouble é uma surpresa rara. Como poucas surpresas o podem ser. Começa por nos seduzir com desconcertante simplicidade (e Reincarnation não leva tempo a mostrar-nos como há aqui um domínio sobre a escrita e a interpretação). Mas pouco depois vai-nos arrebatando com as mudanças graduais de ambientes que, no fim, o disco agrega como um corpo coeso e consequente. – Nuno Galopim

2. “Live at Terminal 5”, The Knife
Apresentado como fim de ciclo para os The Knife, o álbum Shaking The Habitual (de 2013) teve depois expressão ao vivo num espetáculo que juntava à música uma dimensão performativa igualmente empolgante. O alinhamento, se bem que centrado nas canções desse álbum de 2013, abria mesmo assim espaço a episódios de outros discos. Ali reencontrámos Silent Shout, Bird (do álbum de estreia The Knife, de 2001) ou o icónico Pass This On, embora sob nova e mais intensa arquitetura rítmica. Pelo meio o poema Colective Body Possum, de Jess Arndt, explicitava todo um discurso e uma atitude em sintonia com as temáticas e pontos de vista levantados pelo disco. E que bom que é, agora, poder reencontrar o registo ao vivo da passagem desta digressão pelo Terminal 5, em Nova Iorque, num lançamento que inclui tanto o áudio como o vídeo, e que faz deste um daqueles raros discos ao vivo que valem mesmo a pena ser escutados (e vistos) vezes sem conta. – N.G.

3. “Ash”, das Ibeyi
Dois anos depois de um álbum de estreia que lhes valeu primeiras opiniões favoráveis, eis que as gémeas Naomi e Lisa Díaz apresentam em Ash uma interessante continuação de narrativa num disco que não é estranho ao que os dois anos que separam os álbuns deram de novo às manas Díaz: a estrada. Ash é, como elas mesmas o confessam, um disco mais talhado para o palco. Não necessariamente mais pop, uma vez que a música das Ibeyi continua a caminhar numa região demarcadamente sua, feita de encontros entre um gosto pelo trabalho vocal (que pisca o olho a harmonias e a coros), por heranças muito depuradas e assimiladas do R&B dou de heranças africanas e um interesse em trabalhar loops e outros elementos instrumentais em busca de paisagens que servem uma ideia de canção que chama inevitavelmente a atenção para a voz e o sentido das palavras. Mas há mais intensidade nas batidas, uma presença do autotune (como ferramenta de moldagem vocal) e mais pulso no convite ao movimento. O palco vai claramente agradecer… Das palavras, ora sampladas ora citadas, de Michelle Obama, Frida Khalo ou Claudia Rankine (autora de Citizen, livro que poeticamente aborda temáticas do racismo), à presença (sempre poderosa) de Me’Shell Ndgeocello ou da rapper espanhola Mala Rodriguez, Ash debate temas do presente, com uma incidência particular sobre questões identitárias e de género. Escute-se No Man Is Big Enough For My Arms, onde nos dizem que uma sociedade se mede pelo modo como trata as suas mulheres e raparigas, e fique aqui um aperitivo para descobrir um disco que sabe ser político com a consciência de que às ideias é importante juntar formas que as moldem a um pensamento artístico. – N.G.

4. “Planetarium”, de Sufjan Stevens, James McAlister, Bryce Dessner e Nico Muhly
Os argumentos e ingredientes são de dimensão astronómica. Um álbum que junta Sufjan Stevens, James McAlister, Bryce Dessner e Nico Muhly, em volta de um ciclo de canções e de peças instrumentais, envolvendo tanto eletrónicas como arranjos orquestrais (cruzando os universos da canção popular com os da música contemporânea), e tendo os planetas e outros corpos do sistema solar como objetos retratados fazem de Planetarium um dos mais ambiciosos projetos musicais do nosso tempo. O protagonismo de Sufjan Stevens nas faixas cantadas não esconde a proximidade que há entre estas composições e as visões formal e instrumentalmente desafiantes do grandioso The Age of Adz (2010), sendo Planetarium um álbum que na verdade está mais perto de ser uma sequela sua do que uma expressão mais evidente de momentos das discografias dos outros músicos aqui envolvidos. A complexidade dos arranjos orquestrais num momento imponente como o que se escuta em Mars e as texturas mais ambientais quando mergulhamos em Sun traduzem contudo uma clara manifestação da presença das ideias tanto de Nico Muhly como de Bryce Dessner. No fundo, e tal como entre os planetas entre os quais vivemos, a este sistema solar é convocada a forma como cada um recebe a luz e, depois, a reflete. – N.G.

5. “Alexander Search”, Alexander Search
Este é um disco com canções e também histórias lá por dentro… Mergulhando no plano da ficção, o “era uma vez” conta-nos a história de uma banda com raízes na África do Sul e com canções em língua inglesa. O autor das canções chamava-se, precisamente, Alexander Search… O passado não é um acaso no tempo verbal da frase anterior porque ele não está mais entre nós. Tendo morrido jovem, Alexander Search conhece uma segunda vida através do esforço de admiradores seus que, através de uma banda pop/rock eletrónica com o seu nome, dão agora corpo e voz às suas canções… Se olharmos para o elenco podemos começar a partir do mundo da ficção para a dimensão real que a criou. Cada um dos elementos da banda responde pelo nome de uma personagem: Benjamin Cymbra, o vocalista, é na verdade Salvador Sobral; Augustus Search é Júlio Resende, nos teclados e piano; Sgt. William Byng é André Nascimento, nas eletrónicas; Mr. Tagus, o baterista, é Joel Silva, bateria e Marvell K., na guitarra elétrica, é Daniel Neto… O disco é um exemplo de diálogo fértil entre vivências no jazz e as formas da canção pop/rock, com o valor acrescentado da dimensão poética que chega através de memórias da juventude de Fernando Pessoa… Música sem muros. Cheia de heranças. Mas com um ímpeto de aventura e prazer como poucas vezes acaba sob um alinhamento tão sólido e feliz. – Nuno Galopim

6. “Utopia”, Björk
Separado de Vulnicura (2015) por apenas dois anos, é impressionante o quão a expressão artística de Björk conseguiu metamorfosear-se e florescer: Utopia parte de arranjos para flautas e alcança um patamar de mestria no que toca à escrita e produção de canções. Orquestra, sopros, coro e as eletrónicas de Arca fazem deste um disco sem o qual não se pode falar sobre o que de melhor se fez este ano. Para quem segue o trabalho da artista islandesa há algum tempo, é particularmente feliz contemplar o rumo criativo que se seguiu a um dos momentos mais tensos da sua vida, cartografado em Vulnicura. Arisen My Senses, Utopia, Losss e Saint soam como mais nada na carreira de Björk, enquanto que The Gate e Blissing Me recordam o passado. Existe ainda muito por explorar, mas o tipo de som que Björk e Arca conseguiram com Utopia para além de futurista, traduz uma idiossincrasia digna de destaque numa carreira já longa. – André Lopes

7. “Take Me Apart”, Kelela
O habitat que Kelela vem a desenhar desde Cut 4 Me (2013), de permanente conjugação de voz, etérea e vulnerável, com um sonoplastia sintética, uma electrónica elegante e detalhada, musculada e de tons futuristas – não fosse Arca, um dos colaboradores principais, conferir novos perfumes de vanguarda – reconstrói a espinha dorsal R&B de Take Me Apart, primeiro longa duração da americana, à medida que revela as constantes catarses e os constrangimentos causados pela complexidade emocional de uma relação que teima em não terminar – metamorfósico, portanto. Um olhar sobre Take Me Apart densifica-se se atentarmos não só às texturas diarísticas da lírica, mas também à imagética do álbum e dos videoclips, num exercício mental de permanente arqueologia sociológica do que é ser mulher, negra e filha de pais imigrantes, num contexto social sinergicamente oposto. – Gonçalo Cota

8. “Plunge”, Fever Ray
Com os The Knife em pausa por termo indeterminado, o regresso de Fever Ray oito anos depois do disco de estreia mostra uma vontade muito pessoal de aprofundar algumas das linguísticas sonoras exploradas tanto em Shaking the Habitual (2013) como na controversa (ou antes mal compreendida) digressão que se seguiu. Em Plunge, encontramos Karin Dreijer que transforma as suas circunstâncias pessoais e pensamentos sobre as mesmas em 11 canções que acentuam o gosto pela desconstrução daquilo a que tendemos a chamar electropop, a partir de uma visão sempre noturna, mas que agora se encontra recetiva às extravagâncias de Wanna Sip ou aos delírios industriais de Falling. IDK About You, coproduzida pela Nídia da Príncipe Discos, oferece-nos o momento mais aceso ritmicamente do repertório de Fever Ray. Mesmo se o manifesto que acompanha o álbum não existisse, este último é explicitamente político como de resto a carreira de Karin junto dos The Knife tem sido especialmente desde Silent Shout (2006) – Plunge debruça-se sobre questões de género, dinâmicas interpessoais e a influência do patriarcado e do capitalismo na destruição do planeta. – André Lopes

9. “Masseduction”, de St. Vincent
Pop pode ser a palavra-chave deste novo episódio de uma carreira que parece pouco interessada em explorar modelos de repetição sobre si mesma. Se em St. Vincent (o álbum de 2014), sem abdicar das marcas de personalidade que antes já nela conhecíamos, aprofundou a exploração de uma demanda autoral juntando novos ingredientes (nomeadamente as eletrónicas), no disco de 2017 leva esse processo ainda mais longe, assimilando e integrando esses elementos numa forma de entender uma noção do que é a canção pop muito à sua maneira. Ou seja, angulosa, intensa, complexa nas formas, pessoal nas palavras, por vezes desconcertante, noutras profundamente frontal (como quando canta, no tema título, que ). Se é desta vez que fala de facto de si mesma ou, antes, se tem nas canções expressões de ficção, é coisa que um dia talvez venha a ter mais resposta. Para já há em Masseduction mais um magnífico conjunto de canções pop, que reforçam a caracterização da região demarcada da pop à la St. Vincent.- Nuno Galopim

10. “Async”, de Ryuichi Sakamoto
Ao cabo de oito anos de silêncio, habitados na verdade por uma batalha clínica contra um tumor na garganta, Ryuichi Sakamoto regressou em 2017 aos discos com Async uma obra-prima que propõe sugestões que habitam as periferias… do silêncio. Há algo de curioso em comum entre este disco – que podemos descrever como “ambient” – e um outro que, em meados dos anos 70, levou Brian Eno ao encontro desta mesma ideia: o silêncio em tempo de convalescença. Numa cama de hospital Eno escutou o que antes nunca ouvira, descobrindo nas periferias do quase nada o tudo que depois resolveu explorar. Também Async surge depois de um tempo habitado por silêncios. E entre o piano e os acontecimentos manipulados, é de silêncios que vivem os instantes que fazem a filigrana de acontecimentos que Sakamoto desenha neste seu magnífico disco de regresso. – N.G.

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