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Os dez melhores filmes de 2017 (Nº 1)

Estes foram os dez melhores filmes de 2017, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. Uma a uma aqui vão surgir ao longo dos próximos dias, em contagem decrescente. E no número 1 está…

Estes foram os dez filmes mais votadas pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue,que escolhesse os seus filmes favoritos do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez que agora apresentamos.

1. “Paterson”, de Jim Jarmusch
Adam Driver faz jus ao seu apelido no novo filme de Jim Jarmusch, onde é literalmente um condutor (driver), neste caso de autocarros. E o papel não podia assentar-lhe melhor, sendo o seu mais conseguido desempenho até à data. Uma interpretação plena de underacting, em consonância com a vida calma da sua personagem, cujos dias são feitos de uma rotina ritualista e obsessiva com pequenas variações. Uma rotina que, porém, tem as suas compensações, pois, apesar de ter o seu lado monótono e um tanto aborrecido, possui também o reverso da medalha, que neste caso é a bênção de tranquilidade que esse tipo de vida comporta, por oposição a uma mais aventurosa, arriscada e ansiogénica. Jim Jarmusch consegue tornar atraente e estimulante uma história que, se olharmos apenas à sinopse, parece chata e aborrecida. Mas o cineasta tem o dom sempre bastante apreciável de fazer muito com pouco e de tornar interessante o aparentemente monótono. Sobretudo através da atenção que dá aos pormenores, como se o próprio filme fosse para ser “lido” como se lê poesia, ou seja, saboreando cada palavra como se se tratasse de uma refeição frugal que apela ao nosso instinto de “austeridade” (uma palavra que parece causar hoje urticária à maioria das pessoas mas que corresponde a uma via existencial que, ainda assim, continua a provar ser a melhor para acrisolar o espírito). Por vezes, viver demasiado pode ser mesmo um pecado. – Nuno Carvalho

2. “Blade Runner 2049”, de Denis Villeneuve
Com o magnífico Arrival no currículo, o realizador Denis Villeneuve cimenta com Blade Runner 2049 um papel importante no panorama atual da ficção científica, voltando a apostar na construção de um filme que não tem pressa para nos apresentar as personagens, os lugares e a própria evolução da trama. Ainda bem… Além disso junta uma relação cuidada com o som (não apenas uma belíssima banda sonora evocativa da que Vangelis compôs em 1982 mas também um lado de design sonoro dos ambientes) e uma vontade em trabalhar a cenografia como tela que sabe nela encaixar as figuras que vemos e as ações que protagonizam. Diferente da Los Angeles de Blade Runner, esta que encontramos 29 anos depois é mais cheia de construções em altura (as ruas iluminadas a néones habitam o fundo de canyons de prédios) e está separada de um mar violento por um altíssimo muro. O clima é mais sombrio ainda. Há neve, névoa… O clima avariou de vez e ver uma árvore viva é coisa que ninguém imagina o que possa ser… Há lixeira do tamanho de cidades a caminho de San Diego (lembram as do mundo morto de Wall-e). Sinatra, Elvis e Marilyn vivem de novo, mas em hologramas, em casinos futuristas… O final tem sabor a sequela iminente… Será, como Dennis Villeneuve afirmou recentemente, coisa que dependerá do sucesso de Blade Runner 2049… Mas fica claro para onde aponta a trama, se houver luz verde para uma terceira “parte”. Afinal, e como se sugere em vários momentos, mesmo “artificiais” os replicants são em tudo muito parecidos com os seres humanos. Demasiado parecidos. – N.G.

3. “Call me by your name”, de Luca Guadagnino
Apesar de só ter estreia comercial em Portugal em janeiro, a quarta longa metragem de Luca Guadagnino deslumbrou quem a viu no circuito dos festivais em 2017. Este é um filme que consegue encapsular na perfeição um amor de verão, um primeiro amor, em tudo o que tem de perene e precioso. O tempo, o espaço e os personagens são delineados ao pormenor, servidos por actores em estado de graça e sublinhados por uma banda sonora adequadamente eclética. Verdadeiramente imperdível, inesquecível e incontornável, não é só um dos grandes filmes do ano, é uma obra-prima instantânea. – Daniel Barradas

4. “Aquarius”, de Kléber Mendonça Filho
Dificilmente o realizador brasileiro poderia ter feito um filme mais político do que Aquarius, embora não se trate de maneira nenhuma de uma história em forma de arenga panfletária ou primariamente ideológica. Bem pelo contrário, pois, ainda que tenha fundações solidamente políticas e evidentes preocupações sociais, esta história de uma escritora e ex-crítica de música viúva de 65 anos que começa a ser pressionada de forma cada vez mais insidiosa por uma empresa de construção para vender o seu apartamento – o único que resiste ocupado em todo o edifício (um condomínio dos anos 1940, no Recife, remetendo o título do filme para o nome deste) – é, antes de mais, um refinado e veríssimo retrato focado na resiliência e orgulho de uma mulher, Clara (numa interpretação incrivelmente convincente – passe o paradoxo! – e fortíssima de Sonia Braga, daquelas que estão muito acima de quaisquer Óscares ou outros prémios mediocremente politizados), que toma uma história pessoal e quotidiana como microcosmos que reverbera uma realidade social, política e económica de uma dimensão muito mais vasta e abrangente. Sonia Braga prova aqui, uma vez mais, que é uma belíssima atriz, uma verdadeira força da natureza, e Aquarius é todo ele construído em torno da sua personagem, uma mulher autónoma, correta, com um sentido de dignidade pessoal muito forte, mas também combativa e desafiante perante aquilo que se apresenta como o rosto de um progresso ameaçador. – Nuno Carvalho

5. “Manchester By The Sea”, de Kenneth Lonergan
Podia ser a história de um familiar nosso, de um vizinho ou alguém conhecido e coisa daquelas que se podia esgotar num breve comentário de rua ou café quando se diz, “olha, aconteceu isto”… Mas dos (aparentes) pequenos nadas de que são feitas as nossas vidas Kenneth Lonergan consegue ir mais fundo e construir um dos mais arrebatadores dramas familiares que o cinema americano nos deu a ver nos últimos tempos. O filme coloca-nos perante a história de uma família, no momento em que o protagonista (que trabalha como porteiro e faz-tudo de quatro prédios em Boston) é confrontado com a notícia da morte súbita do irmão, sendo obrigado a regressar a Manchester By The Sea onde o aguarda a inesperada revelação de que lhe caberá a custódia do sobrinho de 15 anos. A caudal aparentemente simples dos acontecimentos na verdade tem vários afluentes, cada qual trazendo aos poucos memórias que acabam por definir um quadro mais complexo. Entre elas há feridas e dores antigas, que os anos e a distância tentaram silenciar. A evolução narrativa deixa-nos depois a pensar se aquela máxima que diz que o tempo cura tudo será, de facto, verdade. – N.G.

6. “Moonlight”, de Barry Jenkins
Baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, do ator e dramaturgo americano Tarell Alvin McCraney, Moonlight é um tríptico que traça o percurso de um rapaz negro gay desde a infância até à idade adulta. Mas não é o típico filme que tenta lançar um olhar abrangente e panorâmico sobre algo como três décadas de vida, uma tarefa que quase sempre redunda em retratos superficiais e genéricos. Jenkins optou antes por seguir o método de se concentrar num momento ou conjunto de momentos sucintos da vida de Chiron e “dramatizá-los num nível quase granular ou microscópico”. Assim, em vez de uma sucessão de cenas para simular a passagem do tempo, temos em cada segmento um pequeno conjunto de cenas focadas num dado ponto ou episódio da vida do protagonista, evitando dessa forma o retrato prolixo, hiperinformativo e sobrecarregado de imagens. Neste sentido, Moonlight revela uma estratégia narrativa mais interessante do que, por exemplo, Boyhood: Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater, ao concentrar-se em episódios que funcionam como súmulas e amostras paradigmáticas de um “organismo” bem mais vasto. Chiron, que acompanhamos em três fases da vida (infância, adolescência e idade adulta), divididas por três segmentos, sofre uma transformação em direção a um relativo malogro existencial devido à discriminação e rejeição de que é vítima, que o empurram para uma solidão quase irredutível e para a trágica materialização de um certo estereótipo que a sociedade inconscientemente quer ver confirmado (o do marginal). Mas Chiron também é responsável por aquilo em que se transformou, por se ter tornado aquilo que de facto não é. – Nuno Carvalho

7. “Silêncio”, de Martin Scorsese
Foi após A Última Tentação de Cristo e a sua recepção conturbada que Scorsese se cruzou com o livro de Shusaku Endo. Foi um encontro fortuito do realizador que cresceu num ambiente devotamente católico, e tornou-se o seu projeto estimado, alimentado ao longo de décadas. Trata-se de mais uma abordagem, embora mais explícita, aos temas que perpassam toda a sua obra e às inquietações existenciais e espirituais do realizador. Tal como esperado, não se trata de um filme sereno. É uma obra angustiada, violenta e catártica como outras na sua filmografia, embora focada nas especificidades da fé cristã. Talvez haja ecos de uma dimensão autobiográfica na demanda do Padre Ferreira, certo é que encontramos novamente a aridez, a complexidade e a recusa em encontrar respostas fáceis, tal como acontecia no já citado A Última Tentação de Cristo. Um olhar multifacetado sobre a fé e a religião, com muito a dizer sobre o conflito entre a espiritualidade e a realidade material, entre os mistérios da fé e o lado mais pragmático que os confrontos religiosos e culturais encetam, Silêncio é um filme para ser experienciado em desconforto e admiração pela sabedoria e verve de um realizador que, após tantos filmes, ainda continua a saber dar murros no estômago. – D.S.

8. “Detroit”, de Kathryn Bigelow
Como recriar um conjunto de factos e assegurar um claro enquadramento no contexto em que ocorreram sem tropeçar na solução fácil e bem arrumadinha do registo do docudrama. É precisamente uma resposta a essa a que podemos encontrar em Detroit, filme que confirma Kathryn Bigelow, depois dos magníficos Estado de Guerra e 00.30 Hora Negra, como uma das grandes retratistas de histórias americanas nossas contemporâneas no cinema do nosso tempo. Entramos em Detroit com uma série de sequências que, entre imagens de arquivo e recriações encenadas, nos colocam naquele tempo e naquele lugar. Sem aparente presença de personagens, apenas de figurantes num cenário de violência e caos entre as ruas da cidade. É depois, ao chegar a um plano pessoal, que o filme ganha fulgor, desafiando-nos a refletir como como os factos são habitados por quem os protagoniza. E do ódio e brutalidade das agressões pelas forças da ordem ao desespero dos que esperam por justiça o filme respira um ofegante sentido de impotência que Bigelow nos serve de forma implacável e realista, usando de forma brilhante as tentativas de estar bem com “deus e o diabo” da personagem interpretada por John Boyega sem recorrer a um moralismo maniqueísta.- N.G.

9. “A Cidade Perdida de Z”, de James Gray
A sexta-longa metragem de James Gray trouxe, ao mesmo tempo, uma expansão de cenário e um maior impressionismo fílmico. A paisagem explorada é consideravelmente mais vasta que em filmes anteriores (concentrados em zonas específicas de Nova Iorque). A narrativa desta adaptação do livro de não-ficção de David Grann desenha-se num vaivém que abarca vários anos, entre os dois lados do Atlântico, entre a “civilização” e a “selva”, na senda de uma personagem maior que a vida e da sua conturbada e consumidora ambição. É um filme de aventuras com um travo clássico, mas de sensibilidade moderna, que sucede tanto na exploração dos males do velho mundo, como na excitação da descoberta de um novo mundo. As imagens de Gray continuam a ter uma textura e peso que escapa à maior parte dos filmes contemporâneos. As suas composições e montagem continuam a ser exemplares, mostrando um cineasta tão capaz de transmitir a magnificência da natureza como o bulício e seriedade das sociedades de geografia, ou a intimidade do espaço doméstico. Mais do que isso, Gray continua a ter o olhar maduro e compreensivo que se espera de um cineasta: dos estados psicológicos das personagens à complexidade das emoções nas suas interações, A Cidade Perdida de Z encontra a humanidade e intimidade numa história que facilmente se daria a efeitos mais espalhafatosos. Com uma reverência à natureza como já não se via no cinema americano desde O Novo Mundo, é uma obra em contracorrente, não apenas pela sua elegância, mas sobretudo pela sua dimensão espiritual. À medida que o protagonista se embrenha na sua obsessão, a psicologia vai dando lugar a uma faceta mais abstracta, até que a narrativa quase se dissolve numa sequência misteriosa, ao mesmo tempo transcendente e devastadora, que eleva finalmente a obra ao nível de parábola espiritual. – Diogo Seno

10. “Música a Música”, de Terrence Malick
Em Música a Música Terrence Malick dá-nos o mais linear e narrativo dos seus filmes mais recentes, tomando os espaços em volta da indústria discográfica (com epicentro em Austin, no Texas) como cenário para uma trama que cruza amor, tradições, sonhos e o seu confronto com a realidade. Não é um filme sobre música (e muito menos sobre o festival South by Southwest). É, como os demais filmes de Malick, um olhar sobre valores, ações e comportamentos. Que, desta vez, tem músicos e o mundo da música pop/rock como protagonistas e cenário… Os cameos e músicos convidados diluem de resto, as ideias de eventuais contrastes entre a ficção e a realidade. Como, por exemplo, perante as conversas muito pessoais de Patti Smith ou a presença, também como personagem, de Lykke Li. E entre a multidão de biopics com dieta de cinema que têm chegado aos ecrãs nos últimos anos, este na verdade respira o mundo da música com um outro fulgor de criatividade. – Nuno Galopim

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2 Comments on Os dez melhores filmes de 2017 (Nº 1)

  1. Ainda estou na saga para assistir os filmes desse ano! hahaha O único que vi dessa lista foi moonlight e me surpreendeu demais, espero conseguir ver os outros antes da leva de filmes de 2018 chegar.
    Amei a lista!

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  2. Top 5 Filmes 2017 by M4jor.
    No primeiro lugar absoluto “A Ghost Story” do David Lowery. Em segundo “Paterson” do Jim Jarmusch. Terceiro ” Blade Runner 2049 ” do Dennis Villeneuve e em quarto lugar “Loveless” do Andrey Zvyagintsev. No quinto lugar a fechar o top 5, “Moonlight” do Barry Jenkins. Depois esta lista.
    Vi muitos e bons filmes em 2017. O cinema é a minha grande paixão.

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