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A (re)construção de uma cantora

Texto: NUNO GALOPIM

Em “Barbara” somos desafiados a mergulhar numa narrativa que esbate as fronteiras entre o real e a ficção. Jeanne Balibar recria a figura da cantora num filme que tem outro filme lá dentro e no qual o realizador Mathieu Amalric mostra como é possível um cinema sobre música e os músicos distante da arrumação de um verbete de enciclopédia.

São geralmente mais frequentes as ocasiões em que a abordagem do cinema às histórias de vida dos músicos resultam em episódios de frustração do que aqueles em que saímos da sala escura com a sensação de ter vivido uma experiência realmente estimulante. Casos como aqueles em que Anton Corbijn evocou a figura de Ian Curtis e os Joy Division em Control, Steven Soderbergh recordou Liberace em Behind The Candelabra ou Todd Haynes abordou as várias faces de Bob Dylan numa perspetiva desconcertantemente fascinante em I’m Not There são exeções num universo de narrativas era-uma-vez habitualmente tão arrumadinhas e polidas que fazem inveja a quem edita uma página da Wikipedia… E tantos foram já assim corridos em narrativas com serviços mínimos de ideias: Ray Charles, Edith Piaf, Johnny Cash… Todos eles mereciam melhor… E a lista é vasta… E no momento em que chega às nossas salas o filme em que a (grande) Barbara (1930-1997) regressa ao cinema, não como atriz, mas agora como figura retratada, faça-se estrondoso aplauso já que Mathieu Amalric (que assina a realização) consegue aqui criar aquele que é um dos mais fascinantes exercícios de cinema sobre a ideia do biopic musical.

Mais do que uma mão-cheia de factos, figuras e lugares capazes de em hora e pouco de filme nos contar a história ou um episódio da vida de um músico, Amalric resolveu baralhar o jogo e pensar em Barbara não como objeto a retratar mas, antes, a fonte de inspiração para uma série de jogos de espelhos que frequentemente diluem as fronteiras entre a imagem de arquivo e o material agora filmado, os factos reais e a sua recriação e onde se confunde mesmo a própria representação da figura da cantora com a de uma atriz que tem a seu cargo vestir a pele de Barbarara num filme que se filma dentro do filme…

Barbara é na verdade a história da rodagem de um filme sobre Barbara. E no qual a uma atriz (Jeanne Balibar) é dado o desafio de construção de um retrato da cantora, acrescentando como ingrediente dramático o facto de o realizador (interpretado por Mathieu Amalric) ter conhecido a própria Barbara e dar por si algo perdido entre as memórias que a produção do filme já de si comporta e as situações que a rodagem vai depois colocando pela sua frente.

Balibar é assombrosa neste papel. As semelhanças físicas e as opções cénicas que frequentemente recriam quadros que recordamos de capas de discos, de imagens captadas ao vivo ou na televisão, assim como a presença de canções-chave da obra de Barbara, habitam uma narrativa que também esbate as fronteiras do universo no qual decorre a rodagem e os episódios que são, por sua vez, as cenas filmadas (ou seja, as memórias de vida assim revisitadas). E entre estas deambulações os fragmentos de informação vão juntando elementos que ajudam a desenhar a figura que se evoca. Melhor serviço a uma das mais interessantes figuras da canção francesa não poderia ter chegado pelo cinema, pelo qual a própria Barbara chegou a passar, como atriz, nos anos 70.

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