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Encontrar histórias entre as paredes de um edifício

Texto: NUNO GALOPIM

A paixão pela arquitetura é a primeira pedra na construção de “L’Aimant”, a primeira obra do jovem francês Lucas Harari. A sua formação na área da gravura sugere depois caminhos para uma identidade no traço que faz desta história passada nas termas de Vals, uma das maiores revelações da BD do último ano.

O edifício das termas de Vals, no cantão de Graubünden na Suíça, construído em quartzito da região e desenhado pelo arquiteto Peter Zumthor, é o grande protagonista de L’Aimant, uma das mais cativantes edições da banda desenhada francesa em 2017. É uma primeira obra, assinada por Lucas Harari, um jovem autor que chegou a passar por arquitetura (nota-se!) antes de optar por uma formação na área da gravura que concluiu em 2015. Começou a explorar técnicas tradicionais de gravura e as possibilidades em pequenas edições de fanzines e em trabalhos de ilustração para a imprensa. L’Aimant é a sua primeira obra de grande fôlego. E desde logo assegura-nos de que temos em cena uma figura cuja obra futura vai valer a pena acompanhar com atenção.

É de facto uma estreia brilhante. E se o entusiasmo pela arquitetura se reflete no modo como encara o edifício das termas como uma presença determinante no universo visual e na própria narrativa, o labor de demanda por uma identidade visual acaba (que decorre da sua história de vida e, sobretudo, da sua formação mas não esconde também uma filiação na “linha clara”) acaba por ter aqui clara expressão de um possível rumo achado logo à primeira vez.

A narrativa é lançada pela figura de um professor de arquitetura, citada pelo seu filho, o narrador que lemos na prancha de abertura. O narrador deixa-nos logo na segunda prancha para nos permitir acompanhar, com um ritmo em que a imagem nem sempre pede palavras, o encontro do velho professor (pai do narrador) com um antigo aluno. Chama-se Pierre, ao que parece era um estudante brilhante mas na hora de concluir o trabalho de investigação no fim do curso resolveu que não era aquele o caminho, pelo que estava agora a trabalhar num balcão de café… O objeto do seu trabalho eram as termas de Vals… E na verdade não as esqueceu, tanto que a elas ruma, acabando por mergulhar na tentativa de explicação de um estranho fenómeno de que se fala na região. Uma lenda que diz que, a cada cem anos a montanha se abre para “engolir” um estrangeiro… E que o edifício das termas está construído precisamente sobre o ponto em que essa abertura se manifesta…



Com a arquitetura por fio condutor do interesse da história e das imagens, um antigo estudante de arquitetura como “herói” (eventualmente uma projeção autobiográfica do autor) e uma aura de fantástico na trama, L’Aimant revela-se uma aventura que tanto deleita pelo traço e cor como cativa pelo tom com viço de thriller da narrativa… Terá (merecida) edição entre nós?

“L’Aimant”, de Lucas Harari, é uma edição de 148 páginas em capa dura da Sarbacane.

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