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Para (re)descobrir o tesouro perdido de Gary Numan

Texto: NUNO GALOPIM

Uma das primeiras boas reedições de 2018 chega no formato de duplo LP em vinil e recupera um disco algo esquecido de Gary Numan no qual colaboraram Mick Karn e Rob Dean dos Japan e Roger Taylor dos Queen. Um disco no qual resolveu fazer “algo completamente diferente” e que, 37 anos depois, merece ser reavaliado como um dos melhores do seu autor.

Em 1979 coube a Gary Numan a conquista do primeiro número um britânico para a pop eletrónica. Aconteceu com Are Friends Electric?, ainda o músico se apresentava como frontman dos Tubeway Army que, nesse momento, editavam o seu segundo álbum Replicas. Seis meses depois, ainda em 1979, apresentando-se a solo, Gary Numan dava continuidade aos espaços de exploração de uma pop sombria, intensa, teatral e dominada pelas eletrónicas de Replicas em The Pleasure Principle, representando Telekon (1980) o capítulo final definido por esse ciclo que muitas vezes lembra Numan como um dos paradigmas daquilo que por vezes se chama cold wave já que, entre canções como Are Friends Electric?, Cars, Down In The Park, We Are Glass, This Wreackage e I Die: You Die, inscreveu nesse par de anos um corpo de “clássicos” que juntaram o sucesso (de facto) à visão exploratória então lançada. Em 1981, com o movimento new romantic (com o qual mantinha distância apesar de algumas afinidades) a colocar em cena, com novos elementos, assimilações plasticamente mais festivas de alguns de alguns dos princípios fundadores que antes ensaiara, Gary Numan sentiu que era chegada a hora de procurar ideias num outro caminho… E, acompanhado por uma equipa de músicos entre os quais estavam o baixista Mick Karn (dos Japan), o guitarrista Rob Dean (que então saía dos Japan), o baterista Roger Taylor (dos Queen) ou o teclista Robert Mason (dos Motels), resolveu mergulhar em terrenos mais desafiantes, emergindo do estúdio com um álbum ao qual chamou Dance, mas que em nada se ajustou aos caminhos de uma noção de “música de dança” de então. Dividiu opiniões, assinalou uma quebra nas vendas (e no perfil de popularidade do músico). Mas, tal como aconteceria com Dazzle Ships dos OMD (que partilha com este álbum o desejo de experimentar, ousar em vez de continuar uma receita de sucesso garantido), a 37 anos de distância é, a par com Replicas (dos Tubeway Army), o disco mais interessante da obra de Gary Numan.

Dance é, de certa forma, um disco de experiência e ensaio em busca de possíveis novos caminhos para uma voz e um compositor. As eletrónicas mantém-se em jogo, embora sem o protagonismo maior que haviam vivido no ciclo definido pelos três álbuns anteriores. O baixo (com clara assinatura de Mick Karn) e a presença de metais sugerem afinidades com os caminhos que os Japan haviam trilhado no recente Gentleman Take Polaroids. Mas a mais evidente mudança face ao que Gary Numan havia mostrado antes, inclusivamente no par de registos ao vivo Live Ornaments ’79 e Live Ornaments ’80, à exuberância cénica das canções Dance contrapunha novos ambientes e detalhes. Ao abrir o disco com Slowcar To China, um tema de nove minutos que dá um mote para um lado A essencialmente ambiental que encerra com Cry The Clock Said, uma outra peça longa e minimalista, os desejos de procura eram materializados com surpresa. She’s Got Claws (o mais evidente flirt com os Japan) abre o lado B com aquele que foi o único single daqui extraído, seguindo-se uma sucessão de temas mais ritmados que os da face anterior, mantendo-se entre eles o mesmo sentido de inquietude e ousadia, que se manifesta em formas angulosas que mantém o clima sombrio sem contudo procurar o registo mais imponente dos discos anteriores.

Reencontrar Dance 37 anos depois é boa (re)descoberta e dá razão à pulsão inquieta que levou Gary Numan a querer não se repetir. Sem uma mão cheia de clássicos, sem êxitos maiores (apesar do número 6 conquistado, em parte por inércia, por She’s Got Claws no Reino Unido), este é um disco que se saboreia como aqueles tesouros perdidos que o tempo, mais adiante, reencontra. A nova edição apresenta-se no formato de álbum duplo, juntando ao alinhamento original (e com som remasterizado) os extras que surgiriam na edição em CD. Extras que passam por outtakes do álbum e os lados B de She’s Got Claws.

“Dance”, de Gary Numan, conhece nova edição pela Beggars Banquet no formato de 2LP

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