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Breve história do Paraíso

Texto: JOSÉ RAPOSO

Em conjunto com o “Eu Sou o Amor” e “Mergulho Profundo”, o novo “Chama-me Pelo Teu Nome” vem concluir um núcleo de filmes que o realizador italiano Luca Guadagnino tem vindo a designar como “trilogia do desejo”.

Um dos traços mais distintivos do percurso artístico de Luca Guadagnino está na forma como os personagens dos seus filmes se relacionam com o espaço. Presente de modo particularmente eloquente em Chama-me Pelo Teu Nome, essa relação vem também acentuar a expressão de uma atenção particular ao mundo: o abandono físico e apaixonado às possibilidades da vida enquanto realização de um romantismo pleno. Os interiores meio operáticos e opulentos de um filme como Eu Sou o Amor, até aqui a sua obra mais conseguida, dão lugar a uma ligação ao mundo natural pautada por uma pulsão erótica, à incandescência de um sensualismo idílico de um verão quente e interminável passado algures no norte de Itália dos inícios da década dos anos 1980, que aqui corresponde a uma espécie de encenação solar de um dos temas fundamentais do cinema de Guadagnino – o papel do desejo no grande drama das relações humanas. Recorde-se aliás que, em conjunto com o já citado Eu Sou o Amor e Mergulho Profundo, Chama-me Pelo Teu Nome vem justamente concluir um núcleo de filmes que o realizador tem vindo a designar como “trilogia do desejo” – sendo certo que são filmes com uma desenvoltura formal autónoma capaz de resistir a comparações totalizantes, a verdade é que esta vista panorâmica sobre o seu cinema contribui decididamente para o reconhecimento de Guadagnino enquanto figura destacada no cinema contemporâneo Europeu.

Os contornos narrativos de Chama-me Pelo Teu Nome, uma adaptação do romance homónimo de André Acimam a cargo de James Ivory – também ele realizador, nomeadamente do já algo esquecido Quarto com Vista Sobre a Cidade – e do próprio Guadagnino, não desenham tanto o esboço dos primeiros ensaios de um “coming of age” assolado pelo desassossego dos sentimentos, formando sobretudo um quadro da inquietude de uma vida vivida com a intensidade da própria arte: Elio (Timothée Chalamet), jovem com um talento um tanto prodigioso e precoce para a música, e Oliver (Armie Hammer), um aluno americano, assistente do Professor Perlman, pai de Elio e especialista em temas de cultura Greco-Romana (Michael Stuhlbarg), são o centro corpóreo de uma história em permanente diálogo com o prazer da fruição estética enquanto exercício de liberdade. Oliver é, por assim dizer, um intruso no paraíso pastoral da família Perlamn: a convite do professor vai passar o verão à casa de família onde os Perlman pontualmente se reúnem, sendo esse o ponto de partida para o seu relacionamento com o jovem músico.

A música acaba assim naturalmente por ter uma importância fulcral, não só como contraponto ao luxo que é cinematografia de Sayombhu Mukdeeprom (habitual colaborador de Apichatpong Weerasethakul), mas ainda como âncora de algumas das situações dramáticas de maior realce: particularmente memorável o breve recital de piano improvisado onde Elio exibe os seus dotes musicais perante um Oliver francamente encantado – brilharete de performance, e é ali precisamente naquela intimidade nua e assombrada pela sensualidade dos sentidos que a paixão entre os dois homens floresce. Como é hábito nos filmes de Guadagnino, o casting dos protagonistas deixa antever um processo meticuloso de seleção: se em obras anteriores a presença de Tilda Swinton tinha a aparência de ser a própria razão de ser dos filmes, em Chama-me Pelo Teu Nome Chalamet e Hammer formam uma espécie de dueto capaz de suster todo o filme num registo meio assombrado senão mesmo fascinante – eis o triunfo do ator enquanto corpo do amor.

É um dos filmes do ano.

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