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Mark E. Smith (1957-2018)

Texto: NUNO GALOPIM

Morreu, aos 60 anos, uma das figuras mais peculiares do pós-punk britânico, com uma obra que teve nos The Fall (que em 2017 editaram o seu 32º álbum de estúdio) o seu principal veículo de expressão.

Uma personalidade de arestas aguçadas, com ocasionais acessos de mau humor, uma voz pouco dado a diplomacia na hora de usar as palavras e um firme percurso sobretudo a bordo de uma banda que cruzou os tempos (apesar de terem sido 66 os músicos que ao longo dos anos foram entrando e saindo) fizeram de Mark E. Smith uma referência cuja identidade não tinha comparação com mais ninguém. Havia já notícias preocupantes sobre o seu estado de saúde. E no ano passado chegou a atuar ao vivo sentado numa carreira de rodas tendo depois sido cancelada, uma vez mais por razões de saúde, aquela que teria sido a sua primeira digressão americana em alguns anos. Ontem, e ainda com vagas indicações sobre as causas, chegou-nos a notícia da sua morte. Tinha 60 anos.

Natural de Broughton (Salford, no Lancashire, Reino Unido), onde nasceu em 1957, Mark foi, musicalmente falando, mais um dos filhos do mítico concerto dos Sex Pistols no Manchester Free Trade Hall em 1976. Tal como sucedeu com futuros elementos dos Buzzcocks, Joy Division e The Smiths que ali estavam, também ele regressou a casa com vontade de formar uma banda. E assim nasceram os The Fall (com nome diretamente inspirado por A Queda, de Albert Camus), com uma abordagem instrumental herdada do punk, simples e direta, uma postura vocal mais falada do que necessariamente cantada e uma agenda de temas aberta ao seu tempo, ao seu redor e às ideias que gostava de debater (dos livros que lia, à política, ao futebol), recorrendo muitas vezes à sátira e aos jogos de palavras. As primeiras gravações surgiram numa compilação de gravações no Electric Circus (uma sala de Manchester) em 1977, seguindo-se um primeiro EP em 1978 e um álbum de estreia – Live at the Witch Trials, em 1979. O radialista John Peel foi dos primeiros a manifestar o seu entusiasmo pelos The Fall, acabando por chamá-los 24 vezes para gravar sessões para a BBC. O segredo de tão longo e bom relacionamento, como a dada altura explicou Mark E. Smith, devia-se sobretudo ao facto de nunca terem realmente criado uma amizade.

As mudanças de formação que a banda foi conhecendo não desviaram nunca a condução do seu rumo, tendo sido sobretudo marcante a sucessão de álbuns editada na década de 80 na fase em que gravaram para a Beggars Banquet – que corresponde a The Wonderful and Frightening World Of… (1984), This Nation’s Saving Grace (1985), Bend Sinister (1986), The Frenz Experiment (1988), I Am Kurious Oranj (1988) – e, nos inícios dos noventas, para a Phonogram – com Extricate (1990) e Shitf-Work (1991) – sendo ainda importantes na sua discografia títulos entre Grotesque (After the Gramme) (1980) e Perverted by Language (1983) que alicerçaram a relação com o universo indie na aurora dos 80. Nos últimos anos, além de uma ainda regular edição de álbuns de estúdio, tendo o 32º, New Facts Emerge, surgido em 2017, a obra em disco dos The Fall conheceu a edição de várias gravações ao vivo. Para quem não conhece o seu universo um bom ponto de partida para a descoberta dos The Fall – e da figura de Mark E. Smith – pode ser a colectânea 45 84 89: A Sides, que a Beggars Banquet lançou em 1989 e em cujo alinhamento surgem alguns dos temas de maior referência do grupo, entre os quais estão versões de There’s a Ghost in My House (um clássico da Motown originalmente editado em 1967 por R Dean Taylor) e Victoria (dos Kinks) que, em 1987, lhes deu um respetivamente um número 30 e um 35 na tabela de singles britânica e, por isso, aquilo a que tecnicamente se pode chamar um “êxito”.

Além da obra nos The Fall assinou inúmeros episódios de colaboração com outros músicos (entre os quais Edwyn Collins, os Inspiral Carpets, Gorillaz e Coldcut) e chegou a editar, a solo, os álbuns The Post Nearly Man (1998) e Pander Panda Panzer (2002). Colaborou ocasionalmente com os universos da dança e do teatro, aceitou papéis como ator em cinema e na televisão e, em 1986, escreveu a pela Hey Luciani, sobre a figura do Papa João Paulo I.



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