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O ’touch screen’ come a alma

Texto: JOSÉ RAPOSO

Chega hoje aos ecrãs nacionais “Loveless – Sem Amor”, a quinta longa metragem do realizador russo Andrey Zvyagintsev (o mesmo de “O Regresso”, “Elena” e “Leviatã”), vencedora do Prémio do Júri na ultima edição do Festival de Cannes.

A dada altura, naquela que é uma das sequências mais reveladoras de Loveless – Sem Amor, quinta longa metragem de Andrey Zvyagintsev (O Regresso, Leviatã), vencedora do Prémio do Júri na ultima edição do Festival de Cannes, a intimidade nua dum casal é perturbada pela amargura do passado fantasma: num monólogo francamente desarmante pela sua banal e superficial ligeireza, uma das protagonistas dá voz ao tema central que Zvyagintsev se propõe a analisar a partir da lente do seu cinema, um cinema manifestamente dado à metáfora e à alusão – a (des)ilusão de uma vida desencontrada com as expectativas.

O monólogo – com ares de ter sido decalcado de uma célebre sequência do Ingmar Bergman de Cenas da Vida Conjugal – é proferido por Zhenya (Maryana Spivak), deitada e abraçada ao seu novo amante num apartamento de luxo, e nele ficamos a saber aquilo que já nos parecia ser suficientemente explicito – o seu anterior casamento não foi um espaço de amor, e o filho desse relacionamento não foi propriamente querido. A sequência é reveladora, precisamente pela forma como Zvyagintsev se debruça sobre a vida interior daquela que é, sem sombra de dúvidas, uma das personagens mais desprovidas de compaixão de todo o seu cinema – o retrato que ao longo do filme se vai construindo aproxima-se mesmo da fronteira do insuportável quando o que está em causa é a efabulação de uma felicidade puramente material, sem a mínima capacidade para o mais pequeno vestígio de confronto interior, para lá das aparências de superfície.

Zhenya e o seu ex-marido Boris (Aleksey Rozin, que ao terceiro filme com Zvyagintsev se torna no seu mais regular ator) são o casal “caso de estudo” deste Loveless – Sem Amor, e ambos parecem expressar qualquer coisa de particularmente sintomático no que à Rússia contemporânea diz respeito. Sendo certo que esta tendência de Zvyagintsev em fazer dos seus personagens “bonecos” ilustrativos de ideias é um dos seus traços autorais mais (propositadamente) vincados, não deixa de se ficar com a sensação de que há nesse gesto uma certa hesitação – dificuldade, se quisermos – em confrontar o real na sua dimensão mais material e objetiva: para um realizador com um posicionamento tão enrugado nas circunstâncias particulares da organização política da sociedade do seu tempo, a mão pesada com que se dirige ao que de mais especifico há no mundo à sua volta constitui um dos limites mais pronunciados do seu pensamento cinematográfico.

Mas nada disto impede que Loveless – Sem Amor seja um filme relevante: por mais superficial que seja o olhar crítico lançado sobre Zhenya – penso sobretudo na forma como as redes digitais surgem enquanto sintoma de uma alienação esgotante e aniquilante – não deixa de se ficar com a impressão de que o mapa não anda muito distante do território. Dito de outro modo: mais do que colocar perguntas ou de pensar o cinema a partir de uma perspectiva inquietante e interrogativa, Zvyagintsev é um cartógrafo razoavelmente conseguido das relações de poder da contemporaneidade (russa, mas que também é a nossa). E mesmo se a atenção prestada aos efeitos da tecnologia nas relações humanas (se é que podemos pegar no problema a partir daqui) tem uma certa profundidade televisiva, não deixa de ser exemplar a forma como a violência grotesca e mutilante perante o corpo surge aqui num dos momentos mais marcantes de todo o filme – é justamente neste contraste entre o mundo etéreo do touch screen e a realidade material do mundo que Loveless – Sem Amor mais triunfa.

O súbito desaparecimento de Alyosha, o jovem filho do casal (com uma interpretação tocante a cargo de Matvey Novikov) acaba por se tornar no motor narrativo da máquina alegórica e alusiva de Zvyagintsev. O processo de buscas pela criança abre uma janela sobre um casamento em ruína, mostrando com um cinismo cruel e sem reservas o que de mais mesquinho há no final de um relacionamento, na mesma medida em que serve de obstáculo à reconstrução da vida amorosa e pessoal do casal. Mal-amado no seio familiar, pobre empecilho quando desaparece – eis uma imagem do abandono.

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