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Três álbuns para (re)ouvir antes do concerto dos OMD

Texto: NUNO GALOPIM

Para assinalar a atuação dos OMD na Aula Magna (dia 16, pelas 21.00), em Lisboa, ficam aqui memórias de três discos (dois mais antigos, um bem recente) que podem indicar caminhos sobre o que nos espera neste concerto.

A atuação dos Orchestral Manouevers in the Dark em Lisboa esta sexta-feira leva a Lisboa a banda num formato electro reduzido aos seus dois elementos de núcleo Andy McCluskey e Paul Humphreys.

Longe de querer antecipar o que será o alinhamento do concerto, vou deixar aqui memórias de alguns discos fulcrais na obra da banda, este trio definindo as bases daquilo que são os OMD em 2018 em que celebram 40 anos de atividade.

Quem quiser ler a entrevista que fiz com Paul Humphreys pode ler aqui.

Agora, vamos então aos discos… Ou seja, o TPC para preparar o concerto desta sexta-feira na Aula Magna, em Lisboa.

“Architecture & Morality”
(1981)

A banda, de Liverpool, representou uma das primeiras forças de primeira linha da primeira geração pop electrónica na Inglaterra de finais de 70. O seu single de estreia, Electricity (em 1979) foi o sexto editado pela Factory Records. Contudo, a carreira dos OMD (assim acabaram conhecidos) fez-se depois, essencialmente, na Dindisc, uma pequena editora sob distribuição da Virgin Records. Os seus dois primeiros álbuns, Orchestral Manouevers In The Dark e Organization, ambos editados em 1980, lançaram pistas e primeiros sinais de uma vida dupla, tranquilamente dividida entre gosto em criar hinos pop e a curiosidade pelas potencialidades das novas ferramentas ao serviço da música electrónica. E não houve álbuns tão capazes de expressar essa dupla vida como o magnífico Dazzle Ships, de 1983, e Architecture & Morality, de 1981..

Comecemos com Architecture & Morality. O título do álbum encerra, por si só, um programa de intenções, como que querendo mostrar como se concilia o que aparentava ser inconciliável. O rigor matemático da electrónica e a sede de descoberta, aleatória, da criação artística. Menos sombrios que contemporâneos como os Cabaret Voltaire ou John Foxx, menos efusivos que os Human League (reinventados em versão 2.0 para Dare!), A Flock Of Seagulls ou Depeche Mode), menos “teatrais” do que os Soft Cell ou Fad Gadget, os OMD pareciam viver numa terra de ninguém, não equidistante das linhas mestras da pop electrónica em erupção, mas orientados segundo um gosto peculiar que, no texto que acompanha a “collectors edition”, o jornalista Paul Morley descreve como o que poderia ser o futuro da Joy Division, “caso Love Will Tear Us Apart tivesse sido o começo e não o fim”. O álbum destaca-se dos muitos que essa geração pop então apresentou, propondo uma sugestão temática em torno de um ciclo de canções com uma figura (e sua simbologia) como protagonista: Joana d’Arc. Um fascínio pela mulher, a sua história, a relação com a fé e religião, traduz-se numa visão que não é de reflexão histórica, mas de recontextualização da sua imagem e heranças num futuro sem data. E mesmo aí, mais que um retrato concreto, optam por uma visão impressionista que, da história, herda sobretudo sugestões de uma vida armadilhada por um sentido de dever ditado mais pela emoção que pela razão.

Este não é o álbum de pop electrónica “típico” do seu tempo, sobretudo numa banda que gozava já de uma certa visibilidade mainstream, tendo já colhido primeiros êxitos, em 1980, com Messages e Enola Gay e que conseguiu depois levar os três singles extraídos de Architecture & Morality (sucessivamente Souvenir, Joan of Arc e Maid Of Orleans, ao top five britânico). Canções e instrumentais texturalmente ricos em figuras nascidas de uma exaustiva exploração das potencialidades domellotron e técnicas de estúdio empregando o uso de fitas (muito em voga na música concreta e junto de bandas de rock progressivo nos anos 70) fazem um álbum que traduz o seu tempo. Mas que, como poucos da sua geração, sobrevivem 37 anos depois, da primeira à última faixa. O melhor dos OMD, antes da sedução definitiva pelos “prazeres” mainstream, que os tomaram depois de 1984.

“Dazzle Ships”
(1983)

Foi, literalmente, como se os OMD tivessem resolvido aplicar a velha máxima: “e agora para algo completamente diferente”… Dois anos depois do sucesso colossal de Architecture & Morality o quarto álbum dos OMD ganhou forma não como um (expectável) episódio de evolução na continuidade mas, antes, como uma radical mudança de orientação rumo a espaços onde a experimentação ganhava claro protagonismo. Isso não implicou a ausência de canções pop no alinhamento de um disco que, na verdade, soube dosear bem os seus momentos de design mais atípico com outros nos quais a canção pop eletrónica emergia, se bem que enquadrada no contexto temático que o disco sugeria. Dois singles chegaram mesmo a ser extraídos do alinhamento de Dazzle Ships – em concreto Genetic Engineering e Telegraph – ambos tendo gerado novos episódios de algum sucesso.

Inspirado por um quadro de Edward Wadsworth – Dazzle-ships in Drydock at Liverpool, que se pode ver na National Gallery of Canada, em Ottawa (Canadá), e que ditou inclusivamente as linhas que Peter Saville levou ao próprio trabalho gráfico do disco – Dazzle Ships é um álbum no qual os OMD tanto expressam o seu desejo em acolher mais claramente uma dimensão experimental que era naturalmente associada à história da música eletrónica como representa o momento em que, mais do que nunca, dão voz a uma atitude política. Atitude que não passa por uma rendição da sua música aos códigos mais habituais da canção política, mas, antes, a uma construção temática que reflete temáticas do presente, nomeadamente os efeitos da guerra fria sobre uma Europa (então) dividida em dois grandes blocos.

Esteticamente este é um disco que convoca a um espaço de construção pop eletrónica uma série de ferramentas e práticas mais habituais nas músicas de vanguarda, nomeadamente a manipulação de fitas, criação de módulos repetitivos, colagens de sons e uso de gravações de sons de rádio como material musical. Passados por um “filtro” OMD manifestam-se aqui heranças que vão de Stockhausen aos Kraftwerk, passando pelos minimalistas norte-americanos. Na altura este cocktail foi de difícil digestão para os muitos milhares que haviam feito de Architecture & Motality um êxito de vendas. Dazzle Ships, aí, foi uma calamidade… Mas 35 anos depois é cada vez mais apontado, sobretudo entre músicos, como o disco de maior referência entre a obra dos OMD.

“The Punishment of Luxury”
(2017)

Nada como as exceções para baralhar quem acredita que tudo acontece sempre segundo os mesmos princípios… E de facto não é difícil torcermos o nariz quando se fala de discos novos por parte de bandas com algumas décadas de existência que, após hiatos, se reúnem e resolvem gravar novos álbuns de material inédito… E basta citar nomes notáveis como os Bauhaus, Culture Club ou Visage (para ficar entre figuras da mesma geração) para que o ceticismo encontre confirmação nos títulos bem fraquinhos com que deram novas canções às suas novas vidas… Mas há sempre exceções. E, entre esta geração britânica com berço entre finais dos setentas e inícios dos oitentas, o nome dos OMD cada vez mais parece ser o de uma digníssima fuga ao modelo… É que, a cada novo disco que lançam, cada vez mais parecem se aproximar do patamar dos melhores momentos da sua discografia – que corresponde aos álbuns Architecture & Morality de 1981, Dazzle Ships, de 1983 e Junk Culture, de 1984.

Depois de uma ausência de 11 anos, maior ainda se tivermos em conta que Paul Humphries se havia afastado da banda em 1989 (apesar de manter uma colaboração autoral até 1996 salvo no álbum Sugar Tax de 1991), os OMD voltaram a juntar a sua dupla original, por um lado trabalhando um regresso aos palcos a partir de 2007, três anos depois acrescentando à sua discografia o inesperadamente bem nascido History of Modern. Em 2013 fizeram de English Electric mais um passo seguro, juntando a bordo sinais da sua genética kraftwerkiana a ecos da obra que haviam gravado em meados dos anos 80. Quatro anos depois The Punishment of Luxury retomou precisamente essas duas linhas centrais de ação sem, contudo, procurar fazer das janelas abertas para com a memória uma declaração de nostalgia.

A matriz kraftwerkiana é bem evidente (de resto assim acontece desde o seu single de estreia, Electricity, de 1991 e repete-se agora, sob clima festivo, em Art Eats Art), mas são igualmente claras as visões pop bem elaboradas de Architecture & Morality e Junk Culture, assim como pontuais episódios de fuga a soluções mais normativas como sucedeu no magistral Dazzle Ships. Este é assim um disco que define um sólido par com o anterior English Electric, se bem que com ainda melhores canções. E assim, tal como acontece entre grandes veteranos da cultura pop/rock, de McCartney a Dylan e outros mais, também entre os pioneiros de outrora da pop eletrónica o passar do tempo mostra que nem todas as boas ideias e canções surgem em início de carreira.

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