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A grande festa do cinema em português

Texto: JOSÉ RAPOSO

Já arrancou mais uma edição do Festival Itinerante da Língua Portuguesa, o FESTin. A decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa, até ao próximo dia 6 de Março, aquela que é já a 9ª edição do festival traz consigo algumas novidades.

O festival que desde sempre se assumiu como uma grande “festa do cinema em português”, é hoje uma das principais mostras de cinema na língua de Camões, reunindo filmes dos chamados Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, aos quais se juntam obras produzidas em Timor-Leste, Brasil e Portugal.

Este ano, a secção Mostra Latim: A Língua Em Movimento promete expandir esse horizonte, incluindo ainda filmografias de países de línguas derivas do latim. Para Roni Nunes, um dos programadores do festival, esta nova secção “representa uma forma de expansão da abrangência do festival – algo natural num evento com nove edições. Assim teremos filmes vindos de Itália, Espanha, França e Roménia – é essencialmente uma forma de atingir outros geografias e paisagens cinematográficas”.

Esta 9ª edição surge ainda numa altura em que o cinema brasileiro, uma das filmografias com maior expressão na programação do FESTin, vive um momento de alguma projecção mediática, nomeadamente pela presença em festivais como os de Cannes, Berlim ou Roterdão. A secção destinada ao cinema brasileiro é, por isso, um dos principais focos de interesse da presente edição, sendo aliás uma oportunidade privilegiada para o público português assistir a produções que por vezes acabam por não chegar ao circuito comercial. A ligação a festivais internacionais é, pois, um fator decisivo: “o Festival de Berlim do ano passado, particularmente, foi extraordinário para o cinema brasileiro. Espalhados pelas diversas seções estavam nove longas-metragens. Terminou por ser um caminho quase natural trazê-los para o FESTin este ano – até porque a maior parte deles enquadra-se no perfil estético que pretendemos para o festival”, explica Roni Nunes. “O cinema brasileiro tem uma característica muito especial em termos de capacidade de comunicação com o público e estes filmes foram muito aplaudidos nas sessões da Berlinale. É um pouco isso que se pretende, um cinema não-conservador em termos de temas e opções estéticas, mas que não seja feito para nichos demasiado especializados”, continua o programador.

Um dos aspetos mais comentados a propósito deste novo fôlego do cinema brasileiro passa muito pela forma como tem reclamado para si um papel determinante na denúncia e oposição ao ambiente político que se tem vivido nos últimos anos. Ela Bittencourt, programadora baseada em São Paulo e crítica em publicações como a Artforum ou a Film Comment, comenta que “o cinema brasileiro tem expressado de forma consistente as preocupações dos realizadores relativamente à situação política e social do país”. Estas tensões assumem justamente um caracter transversal. “No Brasil, estas preocupações têm sido expressas num conjunto de temas bastante complexos e abrangentes. Desde o posicionamento reacionário e conservador contra os direitos das mulheres e em relação à oposição aos direitos das comunidades LGBT, mas também numa severa desigualdade económica e à vulnerabilidade das populações indígenas e às comunidades Afro-Brasileiras”, conclui a crítica e programadora.

Três filmes para ver no FESTin:

“Açúcar”
(hoje) 02 de março, 21h30 | Sala Manoel de Oliveira
Brasil, 2017, 88 min., Ficção.
Realização: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

É um filme construído à volta da figura de Maria Bethania, uma herdeira de uma importante fazenda, cujos terrenos foram outrora utilizados no cultivo da cana de açúcar. É hoje um território voltado ao abandono e, por isso, palco de evocação de um Brasil doutros tempos, de uma época em que as relações sociais eram assombradas pelo racismo e pelos confrontos entre classes sociais. Ontem, como hoje? Falar de “assombração” neste contexto, equivale a colocar em primeiro plano uma cenografia meticulosa e uma mise-en-scène com uma grande atenção e sensibilidade na criação de uma atmosfera sombria e silenciosa, onde a reverência a um passado distante configura um gesto político, que o cinema da dupla de realizadores parece querer analisar.
Bethania regresssa à fazenda com o objetivo de lá morar, mas nos terrenos próximos vivem agora alguns dos antigos empregados que ali pretendem instalar uma espécie de museu, de formar a poder preservar costumes, memórias, formas de viver o mundo – histórias entretanto desaparecidas com o passar do tempo.

“Vazante”
(domingo) 4 de março, 19h | Sala 3
Portugal/Brasil, 2017, 116 min., Drama
Realização: Daniela Thomas

Antônio é um homem perseguido pelo falhanço, responsável por uma espécie de império de horror erguido com o sangue e suor escravo. A sua biografia confunde-se com a narrativa de um passado colonial profundamente traumatizante, e o filme realizado por Daniela Thomas dá a sensação de querer estabelecer uma genealogia dos problemas e injustiças do período – a história reporta-se aos inícios do séc. XIX, na zona de Minas Gerais. A presença desse espectro de violência no Brasil contemporâneo parece ser um dos comentários mais sublinhados ao longo do filme.
Thomas mergulha na densidão da floresta pela lente de Inti Briones (notabilíssimo trabalho de direção de fotografia num preto e branco irrepreensível) para acompanhar o regresso à fazenda de Antônio, um negociante de escravos de origem portuguesa, após mais uma expedição – um regresso manchado pela morte de um recém-nascido, num episódio brutal que abre o filme e que prefigura um horizonte temático onde a questão da “família” parece querer fazer coincidir os laços de sangue com laços de horror.

“Aparição”
(segunda) 5 de março, 21h30 | Sala 3
Portugal, 2017, 115 min., Drama/Romance.
Realização: Fernando Vendrell

Trata-se de uma adaptação para cinema de uma das obras mais celebradas da literatura portuguesa: Aparição, de Vergílio Ferreira, obra originalmente publicada em 1959. O filme, realizado por Fernando Vendrell, segue de perto o romance homónimo, acompanhando a chegada de Alberto Soares, um jovem professor de liceu, a uma Évora em finais dos anos 1950. Alberto (interpretado por Jaime Freitas, num excelente papel) transporta consigo uma vida interior assolada por uma inquietação existencial, que procura colocar – não sem resistência – ao serviço de uma pedagogia da educação, Numa das suas primeiras aulas o professor transmite uma ideia que dá que pensar: “o que interessa é vocês tornarem-se autores do vosso próprio ponto de vista, criarem um olhar vosso” – eis uma noção que convoca o cinema e a sua relação com o mundo, mas também a nós, espectadores das imagens em movimento. Vendrell dá vida a uma Évora a vários títulos provinciana, muito cinzenta, num trabalho de reconstrução histórica bastante competente, acabando por colocar em cena o inevitável confronto entre o tumulto interiorizado e “subterrâneo” do professor, e a presença sedutora de Sofia (com interpretação de Victoria Guerra), uma das filhas de um médico local.

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