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Teoria da verdade: história de um assassinato

Texto: JOSÉ RAPOSO

O mais recente filme de Hirokazu Koreeda decorre nos bastidores dos mecanismos do sistema judicial japonês. Tendo um brutal assassinato como pano de fundo, “Terceiro Assassinato” acompanha o nebuloso processo de um julgamento onde nem sempre a verdade é aquilo que parece.

Terceiro Assassinato, o mais recente filme do realizador japonês Hirokazu Koreeda a estrear nas salas portuguesas, tem como pano de fundo os mecanismos da Justiça. Justiça enquanto forma de (re)agir sobre o mundo, num quadro que traz à memória esse absurdo processo existencial do teatro humano: quem pode fazer o quê? Para que serve a verdade? Ou ainda: de onde vem a legitimidade daqueles que julgam? É um retrato de um mundo inerentemente injusto e arbitrário, porque o sentido da vida fica sempre para lá do horizonte da verdade. Sempre uma miragem, fica-se com a impressão que a sua revelação não poderia ter outra forma senão a de um grande fantasma exterminador: tão devastadora quanto o ruído de fundo provocado pelas forças da ordem económica do mundo, essa grande verdade nunca apresenta indícios de poder vir realizar um qualquer ideal de justiça. E mais: o problema central que Koreeda traz para o centro do seu cinema (e logo em CinemaScope, primeira vez, não por acaso, que utiliza este formato) neste Terceiro Assassinato é uma questão com contornos distintivamente contemporâneos – um manifesto cinismo perante a possibilidade de uma leitura e apreensão objetiva da realidade, e a representação dessa incerteza enquanto traço distintivo da condição humana.

A história contada por Koreeda é centrada num julgamento de um caso que envolve o assassinato do dono de uma fábrica. Mitsui, um dos seus funcionários, já anteriormente julgado por um duplo homicídio pelo qual passou 30 anos encarcerado, é o acusado confesso. Acontece que neste universo de Koreeda os motivos surgem recorrentemente toldados, dando lugar a uma aparência factual da realidade inescapavelmente instável. Peça fundamental para o desenrolar da narrativa são os testemunhos conflituosos e contraditórios do principal suspeito, que a pouco e pouco se vai tornando no grande enigma do filme. Esse progressivo enfoque na figura do pretenso criminoso em detrimento da exaustão das possibilidades dos diferentes pontos de vista, das múltiplas versões dos factos, será justamente um dos grandes triunfos do filme de Koreeda. A forma com que Mitsui dá corpo a um certo desconsolo existencial parece querer convocar esse campo de inquietude aberto por uma constelação de personagens que, nos seus contextos particulares, colocaram a condição humana em confronto com o caminho muito incerto e sinuoso da justiça. Personagens como Mersault, sobretudo na ausência de remorso pelas suas ações; Sísifo, pela forma como traz à luz a natureza recorrentemente injusta da condição humana (não só o crime agora em julgamento partilha algumas características com o de há 30 anos, como o juiz desse anterior caso era justamente o pai de um dos advogados de defesa); ou mesmo Bartleby, na relutância algo teimosa, senão subversiva, com que recusa aceitar o jogo ou encenação do processo judicial.

Ancorado parcialmente na tradição do filme de “barra de tribunal”, a história deste Terceiro Assassinato é contada com um distanciamento quase documental, como se Koreeda pretendesse ser o mais fiel possível às diferentes peças dum puzzle sem resolução. Numa mise-en-scène pontuada por uma exemplar atenção dada à expressividade do rosto humano, uma das sequências chave acaba por ser aquela com que entramos pela história dentro. Uma abertura que é todo um programa: a violência brutal e visualmente grotesca do crime enquanto imagem possível da justiça em ação.

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