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Quando as estreias de cinema se fazem no pequeno ecrã

Texto: NUNO GALOPIM

Em poucas semanas dois títulos novos do cinema de ficção científica chegaram não à sala escura mas aos ecrãs de televisão (ou mais pequenos ainda) de cada um… “Anihilation”, de Alex Garland e “Mute”, de Duncan Jones, assinalam assim momentos de transformação na história da distribuição cinematográfica.

A ideia de termos a sala escura e o grande ecrã de cinema como destino natural das estreias de novos filmes começa a ter concorrência e alternativas. E o serviço de streaming Netflix, com a dimensão que entretanto atingiu, passou a ter o cinema (de ficção e documental) como um complemento importante à sua oferta de novas séries. E entre as estreias das últimas semanas há dois títulos a ter em conta no mapa da ficção científica de 2018. Um é digno de figurar entre as listas de filmes do ano. O outro pode não estar no patamar da obra de referência do seu autor, mas não deixa de ser um título a ter em conta.

É cinema? Não é cinema? Não vamos por aí… Se um filme não deixa de ser cinema quando surge editado em DVD ou em VOD, então não vamos entrar aqui numa discussão de sexo dos anjos. Falemos antes dos filmes…

Comecemos pelo filme que pôs meio mundo a dizer um entusiasmado “já viste” aqui há umas semanas, quando surgiu no pequeno ecrã. Assinado por Alex Garland (o mesmo de Ex Machina), e interpretado por um elenco no qual se destacam cinco atrizes nas figuras principais (com Natalie Portman em maior evidência), Anihilation é uma proposta bem cativante de alternativa aos modelos mais clássicos do filme de invasão por alienígenas. De resto, e tomando algumas sugestões (do mood à escassez de informação) do magnífico Under the Skin de Jonathan Glazer, o filme coloca-nos perante um cenário feito de dúvidas, medos e silêncios que se seguem ao que parece ser o impacte de um objeto vindo do espaço com um farol. Nasce aí uma zona que vai crescendo, como um tumor, mas da qual não parece sair nenhuma informação sobre o que por lá dentro ocorre. E quem entra, ao que parece, de lá não sai… Uma “zona”… A ideia lembra-nos logo o Stalker de Tarkovsky… E convenhamos que há também aqui ecos seus em jogo.

A expedição de cinco mulheres é a mais recente a entrar nessa “zona” onde muitas realidades parecem transformadas, colocando-nos o filme perante a contemplação do eventualmente alienígena, representando o desenrolar do trama (mais contemplativa que de ofegante ação) um mergulho progressivo duma realidade estranha e aparentemente modificada…

Mais claro nas coordenadas, mas sem conseguir nunca alcançar o mesmo patamar de sugestão de estranheza perante o diferente que habita alguma da melhor ficção científica na hora de olhar “os outros”, Mute, de Duncan Jones, cruza uma trama em contexto sci fi com elementos mais próximos do thriller e do film noir. Imaginada num futuro não muito distante a ação leva-nos a conhecer figuras de submundos ligados à noite e a tráficos ilícitos. Longe do minimalismo de Moon (o brilhante filme de estreia de Duncan Jones), Mute tem alguns elementos de peso, da banda sonora de Clint Mansell à presença de Alexander Skarsgaard como protagonista. Mas basta ter visto 15 minutos do esmagadoramente mais intenso Blade Runner 2049 para sentir, aqui, uma versão diet (apesar da carga intensa da narrativa) do que poderiam ser olhares pouco luminosos sobre o futuro que está ao virar da esquina.


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