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A grande festa do cinema italiano regressa hoje a Lisboa

Texto: JOSÉ RAPOSO

A decorrer em Lisboa até 12 de abril a 11ª edição da Festa do Cinema Italiano (seguirá, depois, para outras cidades portuguesas, com extensão ainda para Brasil, Angola e Moçambique) volta a apresentar este ano um extenso programa dedicado ao melhor cinema que se tem produzido em Itália.

"Guarda in Alto"

Um dos principais pontos de contacto entre o público português e o cinema italiano, a festa – com direção de Stefano Savio – continua a apostar numa secção competitiva de grande qualidade, com enfâse em primeiras obras de jovens realizadores, com filmes marcados por um forte sentido de liberdade e originalidade – caso para dizer, uma competição dedicada ao prazer da descoberta. Será naturalmente um dos pontos de maior entusiasmo de uma festa que, para a presente edição, reuniu cerca de meia centena de filmes, numa linha de programação que se assume como formadora e agregadora de públicos diferentes.

Prova disso mesmo é a secção dedicada a obras de cariz experimental. “Altre Visioni” é um núcleo de programação centrado em filmes esteticamente mais arrojados, onde vamos poder ver em primeira mão produções que, de forma muito consciente, expandem o horizonte do mundo à luz da forma do cinema. É o caso de Beautiful Things, de autoria de Giorgio Ferrero e Federico Biasin, um olhar de pendor documental na direção do “ciclo da produção de objetos que caracterizam a vida quotidiana”. Passa dia 9 de abril, às 22h, no Cinema São Jorge.

Nos destaques desta 11ª edição, há ainda lugar para uma homenagem a Marco Ferreri (1928-1997), numa retrospetiva feita em parceria com a Cinemateca Portuguesa, que contará com uma seleção de 12 filmes daquela que foi uma das figuras mais singulares do cinema italiano, um realizador responsável por uma obra de difícil classificação, frequentemente subversiva e inquietante, que o remeteu aliás para uma (injusta) secundarização no contexto da história do cinema italiano. Oportunidade privilegiada, portanto, para assistir em sala a filmes como Liza, a Submissa (dias 16 e 17 de abril, na Cinemateca Portuguesa), um filme que conta com Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve no elenco, numa história à volta de um artista que abandona a família para ir viver numa ilha com o cão de estimação; ou Dillinger Morreu (dias 12 e 16 de Abril, na Cinemateca Portuguesa), aquele que é por muitos considerado a sua obra-prima, um violento e absurdo retrato das “condições de possibilidade” do estilo de vida burguês, numa narrativa que conta com Michel Picoli no papel principal.

Três filmes para ver na Festa do Cinema Italiano:

Guarda In Alto
Realizado por: Fulvio Risuleo
Com Giacomo Ferrara, Aurélia Poirier, Lou Castel,Ivan Franek, Alida Baldari Calabria
8 abril 19h00. Cinema São Jorge

Estreia na realização de Fulvio Risuleo, Guarda In Alto conta-nos uma história invulgar, ambientada num imaginário situado nos interstícios da realidade e da fantasia. É uma narrativa centrada num jovem padeiro inconformado com a monotonia e cinzentismo que atravessam a sua vida, sempre disposto para a surpresa inesperada e para a gargalhada cúmplice e amiga. Filme de aventuras juvenis e despreocupadas, quase que apetece dizer que estamos perante uma versão da Alice no País das Maravilhas… passada nos telhados de Roma.

O enredo vai-se tornando progressivamente mais bizarro – afinal de contas, estamos em territórios muito próximo de um realismo mágico, onde tudo parece ser possível a cada instante – e à medida que Teco, o jovem padeiro, vai travando conhecimento com personagens singularíssimas (como as freiras que enviam objetos valiosos entre si através de gaivotas…telecomandadas; ou o excêntrico Baobab especialista em sonhos lúcidos e no fabrico de mel) a imagem com que ficamos é o de uma realidade com uma mitologia muito própria, um hino à liberdade da infância.

Happy Winter
Realizado por: Giovanni Totaro
Com Antonio Patti, Giovanna Patti, Vincenzo Patti, Christian Patti, Piera La Placa, Tiziana D’Acquisto

7 abril 19h00. Cinema São Jorge
11 abril 19h00. Cinema São Jorge

Todo um verão passado numa praia do sul de Itália, num ritual anual que coloca em cena uma ideia muito contemporânea em torno do lazer: uma renegação mais ou menos feroz, mais muito consciente, do espaço público da cidade enquanto mecanismo de institucionalização do poder político. O documentário realizado por Giovanni Totaro tem também por isso um certo fulgor utópico – não tanto pela forma como revela outro lado daquilo que poderia ser (uma outra) vida em comunidade (ainda que passe muito por aí, desde logo pela forma como essa convivência aparece desprovida do jogo corporativo do quotidiano), mas sobretudo por trazer para primeiro plano, e com alguma naturalidade, a despreocupação com que centenas de famílias fecham olhos ao pico da crise que então se vivia no país. Filmado em 2016, durante a última edição do campeonato europeu de futebol, Totaro acaba também por convocar alguns dispositivos da ficção para o centro do documentário, nomeadamente pela forma controla o tempo em que decorre a ação, moldando-a de acordo com estruturas narrativas clássicas.

Totaro concentra o seu olhar nas atividades típicas de quem passa férias numa zona balnear, acabando por cristalizar aquele que parece ser o grande tema do documentário (uma hipótese: aquilo que poderia ser, em contraste com o que se conseguiu erguer) em duas figuras – a de um político que começa a desenvolver o seu programa ali mesmo na praia, e a de um vendedor ambulante.

Cuori Puri
Realizado por: Roberto de Paolis
Com Selene Caramazza, Simone Liberati, Barbora Bobulova, Stefano Fresi

hoje 22h00 Lisboa Cinema São Jorge
10 abril 19h00 Lisboa Cinema São Jorge

Fulgurante primeira longa metragem de Roberto De Paolis! Uma história de juventude danada à procura de um amor incendiário, capaz de complicar a ordem do mundo: o filme de Paolis começa com uma correria desalmada, um crime que traz consigo a semente dum novo começo. Agnese, uma jovem de 17 anos com raízes profundamente católicas, corre desesperadamente para não ser apanhada por um pequeno delito que cometeu. E é assim que conhece Stefano, um segurança que segue no seu encalço. Paolis centra a narrativa na relação que se estabelece entre os dois, acabando por construir um retrato desarmante de uma existência desamparada: Stefano, a braços com uma situação familiar complicada e com vínculos laborais cada vez mais precários, e Agnese e a sua curiosidade por uma vida fora dos limites mais conservadores do catolicismo, dão assim visibilidade a uma intensidade emocional que mantem sempre no horizonte os agudos contrastes sociais da Itália contemporânea.

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