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Novas edições para celebrar o centenário de Leonard Bernstein

Texto: NUNO GALOPIM

No ano que assinala o centenário do seu nascimento, Leonard Bernstein é figura presente em vários programas de edições. A Deutsche Grammophon, por exemplo, acaba de editar uma nova gravação da sua “Missa” e lançar duas outras propostas antológicas.

O tempo tem vindo a dar razão aos que cedo reconheceram em Leonard Bernstein (1918-1990) não apenas uma das mais vivas vozes de uma identidade musical americana mas também um dos grandes compositores do século XX. Herdeiro de, por um lado, toda uma herança maior da música ocidental (admirador de Mahler, de quem foi importante divulgador num tempo em que a sua música não morava ainda entre o repertório sinfónico global como hoje conhecemos) e, por outro, atento observador da América do seu tempo, fez da sua música uma expressão do seu aqui e do seu agora, cruzando linguagens várias, muitas então vistas como realidades exteriores aos “cânones”, encontrando no jazz, na música popular e até mesmo nos palcos da Broadway as referências que lhe deram, devidamente assimiladas, importantes marcas de identidade. Figura de importante perfil político, fez da sua música, sobretudo a que expressava uma carga narrativa, espaço para aprofundar mais ainda toda uma série de visões sobre a cultura e sociedade americanas do século XX. Não faltam razões para reencontrar a sua música. Mas em 2018, o assinalar do centenário do seu nascimento abre várias frentes, uma delas a do mapa de novas edições e reedições discográficas. Aqui ficam algumas das que, nas últimas semanas, juntaram novos títulos à sua discografia ou velhos discos aos escaparates das novidades.

A Missa (Mass, no original), de Bernstein, nasceu para surpresa de tudo e todos quando, em 1971, o John F. Kennedy Center For Performing Arts (em concreto, Jacqueline Kennedy) lhe encomendou uma obra para ser estreada na noite da sua inauguração, não especificando junto do compositor (e também reconhecido maestro) que tipo de peça pretendia. Bernstein tinha há muito uma admiração por Kennedy e, de resto, havia-lhe dedicado a sua terceira sinfonia, na sequência do assassinato do Presidente em Dallas, em 1963. De ascendência judaica, Bernstein optava pela composição de uma missa (um dos géneros mais importantes da tradição musical na velha Europa cristã) não apenas para assinalar o facto de Kennedy ter sido o Presidente católico apostólico romano dos EUA, mas também porque, nem inícios de 70, a Igreja vivia tempos de mudança (da emergência da teologia da libertação à revisão de velhos dogmas e rituais), que assim fazia questão de sublinhar.

A Missa, de Bernstein, mais que apenas uma obra religiosa, é uma obra política, servindo a forma musical (e a sua carga histórica) como catalisador para uma demonstração do poder unificador das artes em volta da memória de uma figura e a crença uma ideia. Na sua Missa, Bernstein cruza a exploração concreta de questões do foro religioso (que abordara já, tanto na Sinfonia Nº 3 e nos Chichester Psalms), com uma reflexão sobre as concretas condições sociais da vida do dia-a-dia, que por si fora já abordada na música de West Side Story. Os dois mundos, não apenas temáticos, mas igualmente musicais (juntando aqui, claramente, tradições da música erudita a marcas da cultura popular, nomeadamente a herança do musical), juntam-se numa obra absolutamente espantosa, que apela a uma necessidade de espiritualidade. Musical, política e socialmente, a Missa de Bernstein é um retrato do seu tempo. Teatralizada, cruza linguagens, sublinhando também na sua interpretação a noção de diversidade que a própria música em si transporta.

O historial de gravações da Missa começa a juntar já uma série de títulos que faz desta uma das obras de grande fôlego de Bernstein com mais interpretações registadas em disco. Uma nova gravação, pela Philadelphia Orchestra, dirigida por Yannick Néxet-Séguin, contando com vários cantores e coros, foi captada no Kimmel Center For The Performing Arts, em Filadélfia, junta mais um ponto de vista sobre uma peça que merece ser reconhecida como uma das peças centrais na obra do compositor.

Como curiosidade, aqui fica a listagem das outras gravações já disponíveis da Missa de Bernstein:

1971. Gravação com o elenco original da estreia no Kennedy Center, com Alan Titus como voz protagonista. Leonard Bernstein dirige um conjunto de músicos expressamente reunidos para a ocasião. Edição em álbum duplo em vinil, mais tarde disponível em CD duplo. Edição CBS Records.

2004. Gravação editada pela Harmonia Mundi, com Kent Nagano frente à Deutsches Symphonie-Orchester, de Berlim. No papel protagonista surge Jerry Hadley. Edição em CD duplo.

2009. Versão recentemente gravada, com Kristjan Järvi a dirigir a Tonsküstler Orchester. A grande diferença face às demais gravações é a opção por levar um barítono (e não um tenor) ao papel protagonista, escolhendo aqui a voz de Randall Scarlata. Edição em CD duplo pela Chandos.

2009. Editada pela Naxos, tem como figura de proa uma das mais evidentes herdeiras de Leonard Bernstein. A maestrina Marin Alsop dirige aqui a Baltimore Symphony Orchestra e conta com Jubilant Sykes como protagonista. Edição em CD duplo.

Apesar da excelência da sua obra sinfónica e do notável trabalho em criações de grande fôlego para vozes e orquestra como as suas duas óperas ou a acima referida Missa, é entre o trabalho para o teatro (e depois o cinema) que mais vezes é evocada a voz de Bernstein como compositor. A compilação Bernstein on Broadway junta mais um olhar sobre este universo, recuperando elementos de uma série de gravações históricas do catálogo da Deutsche Grammophon, nomeadamente On The Town, pela London Symphony Orcherstra, sob direção de Michael Tilson Thomas (em 1992), a célebre versão de estúdio de West Side Story protagonizada por Kiri Te Kanawa e José Carreras (em 1984) e a brilhante versão definitiva de Candide, dirigida pelo próprio Bernstein, em 1989, gravada em Abbey Road.

Um olhar panorâmico pela obra de Leonard Bernstein como compositor surge numa nova caixa. Depois de em 2017 a Sony Classical ter reunido um olhar semelhante sobre o seu legado como compositor em gravações que recuam aos tempos da Columbia Records (e muitas vezes com o próprio Bernstein como maestro), desta vez cabe à Deutsche Grammophon a edição de Bernstein: Complete Works, uma abordagem deste calibre, juntando em 29 discos um conjunto de gravações que cruzam vários tempos, intérpretes e orquestras, incluindo a recente Missa acima referida.

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