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Primavera Sound 2018: as ideias também se podem dançar

Texto: GONÇALO COTA Fotos: HUGO LIMA

Ao primeiro dia do NOS Primavera Sound, fez-se Lorde e floresceu Tyler, The Creator. No segundo dia, mergulhamos no aparelho musical de contornos políticos das Ibeyi e na electrónica desconstruída de Fever Ray.

NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ © Hugo Lima

Mark Garson, pianista de longa data de David Bowie, revelou em conferência de imprensa que “David [Bowie] gostava mesmo de Lorde” e que achava que “ela era o futuro da música pop”. E esse futuro é música pop electrónica inteligentemente produzida, feita de tons consistentemente soturnos: Melodrama, segunda longa-duração de Lorde, transporta-nos para o universo juvenil dos dramas existencialistas – sim, porque os há -, na dialéctica permanente entre os desejos hedonistas do agora e a vontade de emancipação, de caminho para o futuro.

E é bom vê-la trilhar esse futuro: se em 2014, aquando do concerto no Rock in Rio e apenas com Pure Heroine a compor o alinhamento, apresentava um espectáculo minimalista na forma, luz e comunicação, no Porto assistimos a um género de virar de página, numa construção de palco e atitude mais trabalhadas, através de um corpo de seis bailarinos que atribuiu fluidez e narrativa, projecções que nos transportam para as imagens que nos fala Melodrama, num exercício, por vezes, demasiado cirúrgico de potencialização máximo das boas propriedades que o alinhamento, equilibrado e bem construído, tem – com êxito em temas como Sober, Royals e Green Light – as electrónicas dançáveis.

Com a temática floral a espelhar-se nos instrumentais jazzísticos e electrónicos, quase sempre solarengos, Flower Boy abre rumo a uma postura musical e visão social mais apuradas, com apontamentos interessantes, que navegam desde as auto-avaliações sobre a solidão até à experiência queer. Com o rap demarcadamente mais introspectivo e biográfico do que o de cantores do mesmo habitat já nos habituaram, Tyler, The Creator partiu das mesmas armadilhas insidiosas da tradição musical do género: a misoginia e a homofobia como temas fáceis para cimentar uma postura masculinizada, (in)segura e de vantagem nas lógicas de poder: Goblin, álbum de 2011, é o espalho disso. Quão longo foi o caminho para a redenção?

O concerto de Tyler, The Creator, na primeira noite de festival, trouxe-nos a sensação de estarmos a ouvir uma orquestra. E Tyler, que envergava um colete e calções amarelos-florescentes, era o maestro: policiava o princípio e o fim de cada música, remisturada para se adequar mais facilmente ao palco, e de forma muitas vezes inesperada, numa brusquidão que se mistura com a figura ora eléctrica, ora introspectiva do americano. Do alinhamento, o público recebeu de forma particularmente calorosa Boredom, Who Dat Boy e I Ain’t Got Time – com a muy sugestiva linha “I’ve been kissing white boys since 2004”. Sim, o caminho ainda é longo, Tyler!

Ash, fantástico segundo álbum das irmãs franco-cubanas Ibeyi, densifica o seu olhar face à emergência da multiplicidade de formas de descriminação: a resposta à pergunta “quais são as condicionantes de ser mulher e negra?” é feita através de uma sonoridade dinamicamente jazz e electrónica, encontrando no autotune um elevador às suas características harmonias. Apesar de recuperarem as suas heranças cubanas e africanas, utilizando, por exemplo, canto ioruba (de onde retiraram inspiração para o seu nome), é nas vozes do presente que encontramos a sua postura combativa: são exemplos o sample do discurso feminista Michelle Obama, em No Man is Big Enough For My Arms ou a nota biográfica em “Deathless”, que retrata a experiência de Lisa-Kaindé, quando aos 16 anos foi obrigada, no metro de Paris, a despejar sem razão aparente o conteúdo da sua mala para provar que não transportava qualquer tipo de droga.

E é, provavelmente, pelo carácter político e pessoal (e como se podem dissociar?) que a palavra Deathless mais ecoou junto ao palco Pitchfork. Vestidas de igual, as gémeas Lisa-Kaindé e Naomi Díaz têm uma capacidade de congregação extraordinária, através de movimentos enérgicos, química e momentos de comunicação com o público que se revelam sinceros, pessoais e sem fórmulas. A única fórmula é a do alinhamento, curto e eficaz: as dez músicas, mostrando principalmente Ash, ainda sem esquecer os primeiros singles Me Voy e River, são o fruto da sua capacidade de se projectarem para o que funciona simultaneamente em disco e em palco. Quem disse que não se dança em momentos de política séria?

Quando no final do ano passado, e em retrospectiva aos álbuns que desenharam o meu ano de 2017, incluí Live at Terminal 5, dos The Knife, e Plunge, de Fever Ray – projectos da sueca Karin Dreijin – como escolhas óbvias, isso significa mais do que ter um muito bom corpo de canções. Foi a redescoberta pessoal na sua postura ativista e transgressora, a abertura do meu escopo musical que sua electrónica, estranha e complexa, permitiu. The Knife terminaram, simbolicamente, com este disco ao vivo. Mas Fever Ray parece não esquecer a sonoridades identitária que encontramos, particularmente, em Shaking the Habitual: as onze canções, deste que é o seu segundo longa-duração a solo, são construções electrónicas pulsantes e pujantes, demandas políticas directas contra as lógicas do mundo político, são experiências pessoais e intimistas. São tudo o que a Karin quiser.

E Karin quis mostrar, ao público presente no palco Seat, que os espartilhos são facilmente desfeitos. Sobe ao palco acompanhada apenas por mulheres, que, envergando factos coloridos, alguns disformes e caricaturais, em boicote face aos os cânones da beleza feminina, nos transportam para a imagética dos videoclipes de Plunge e para as suas convicções políticas, de contornos feministas, queer e anti-capitalistas: a plenos pulmões, e acompanhada por um aparato de luzes pujante – criando um experiência audiovisual como nos tem habituado – , canta “free abortions and clean water / destroy nuclear / destroy boring”.

Com um alinhamento robusto e sem evocações a The Knife, teve ponto alto na enérgica IDK About You – onde a portuguesa Nídia, que a co-produziu, atribuiu um perfume distint, preenchendo os ângulos da sua electrónica com a sonoridade do kuduro – na introspetiva Mustn’t Hurry e no tom obsessivo de Wanna Sip. Não resta nenhuma dúvida: o melhor concerto do primeiro e segundo dia.

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