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Vítor Rua: “O que nos motivava era a descoberta sónica eletrónica”

Entrevista de NUNO GALOPIM Foto: LAIS PEREIRA

Dia 15 Vitor Rua convida António Duarte para dar vida, no Teatro Maria Matos, a “Belzebu”, mítico álbum de 1983 dos Telectu que em breve vai ter reedição em vinil. Antes do disco e do concerto, Vítor Rua respondeu às nossas questões.

Como conheceste o Jorge (Lima Barreto) e o que vos levou a criar os Telectu?
Conheci o Jorge Lima Barreto numa exposição de pintura no Porto em 1980 e eu estava com o cabelo pintado de azul. Imediatamente houve uma empatia entre os dois. Marcamos logo o ensaio e fizemos uma improvisação. No final decidimos que tínhamos que criar um projeto conjunto.

Num tempo de desafios para a criação de novas linguagens musicais num Portugal que descobria em si outros valores e possibilidades, os Telectu foram diferentes entre os diferentes. O que vos motivava mais, o que procuravam?
Procurávamos através da experimentação, criação de um som nosso, único, original e por outro lado buscávamos um estilo novo musical e o que nos motivava era a descoberta Sónica eletrónica.

A estreia em disco com CTU Telectu junta à demanda musical os universos temáticos da escrita de Philip K. Dick. Qual de vós era o mais ávido leitor do escritor e como surgiu esta relação entre uma obra literária e a música?
Quem conhecia mais K. Dick era o Jorge Lima Barreto que tinha todos os seus livros. Eu conhecia apenas Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Achávamos existir uma relação muito próxima entre a ficção científica e a música eletrónica mais avançada que se fazia na atualidade. No fundo, as obras do escritor, serviram-nos como partitura musical.

Belzebu foi o segundo disco dos Telectu e representou a primeira abordagem musical feita entre nós ao espaço da música minimal repetitiva. Era um espaço que o Jorge acompanhava certamente há já algum tempo. Como foi o teu primeiro contacto com os minimalistas?
Eu tinha tido contacto com a música minimal repetitiva, muito antes de conhecer o Jorge Lima Barreto. Numa loja no Porto que vendia eletrodomésticos descobri um disco do John Surman a solo e o meu tio tinha comprado no leilão do Porto na alfândega 500 LPs do Tony Conrad with Faust. Eu adorava escutar esses dois discos, especialmente porque me pareciam sempre iguais mas sempre diferentes. Mas foi o Jorge Lima Barreto que me deu a conhecer os minimalistas americanos. O Jorge Lima Barreto estava a começar a idealizar aquilo que se vinha a concretizar no seu livro Música Minimal Repetitiva.

Qual ou quais dos compositores e obras das primeiras gerações do minimalismo mais tiveram impacte tanto em ti como nesta etapa da vida dos Telectu?
Eu gostava muito do guitarrista Manuel Gotshing, do Robert Fripp e do compositor Steve Reich, enquanto Jorge gostava muito de Terry Riley e La Monte Young.

Reconheces diferenças e/ou semelhanças entre o minimalismo americano e as expressões que, na alvorada dos anos 80, surgiram em vários compositores europeus?
Sim, as diferenças eram notáveis. Mas eu sempre gostei mais do minimalismo americano. Do minimalismo europeu interessava-me a obra de Andriessen. Quase não escutávamos minimalismo europeu.

Belzebu ganhou forma ao vivo e depois chegou a disco ou o processo foi o oposto?
Primeiro existiram quase três meses de ensaio continuo. Depois efetuamos ensaios ao vivo na Bienal de Cerveira. Finalmente fomos para estúdio gravar o LP.

Que instrumentos usavam, como eram nesses dias as vossas rotinas de trabalho?
Eu usava a guitarra eletrónica da Roland, o Jorge usava o Júpiter 8 e o Juno 6 e eu usava os pedais da Boss. O dia era totalmente dedicado a música: quer audição musical, quer prática musical.

Liam sobre estas músicas e ouviam discos?
Curiosamente nesta altura escutávamos mais música concreta e jazz.

O estúdio fixa uma leitura sobre uma obra. O palco alarga possibilidades… Foi o palco que foi estimulando em vós um progressivo interesse pela música improvisada?
Inicialmente começamos a fazer música improvisada. Mas naturalmente, através da tecnologia que usávamos, o caminho que trilhamos foi outro. Só mais tarde em 1987, nos dedicamos inteiramente a música improvisada.

Off Off, que surge depois de Belzebu na vossa discografia, parece definir um momento marcante na obra dos Telectu… Era uma síntese e, já em si, um desejo em partir para outros desafios?
Para mim esse LP é dos mais importantes Telectu pois nele está patente quase todos os estilos musicais que nós percorremos durante 30 anos.

Como surgiu este projeto de devolver Belzebu a um palco e porque convidaste o António Duarte para concretizar esta nova materialização da música em palco?
Este projeto surgiu inicialmente da ideia de reeditar o Belzebu por intermédio da Flur e posteriormente recebi o convite de Pedro Santos para apresentarmos ao vivo no Teatro Maria Matos. O António Duarte era a única escolha possível, não só porque conhecia de perto e desde o início a nossa obra como tinha e tem os instrumentos musicais dos Telectu.

O Belzebu de 2018 é o mesmo que lembramos do disco?
Será uma mistura daquilo que fizemos em LP e daquilo que fazíamos ao vivo em 1983, usando exatamente os mesmos instrumentos musicais.

Como surgiu este projeto de reedição do disco? Há muito que se tornara uma preciosa raridade…
Por várias vezes várias pessoas e de várias nacionalidades me propuseram a reedição desde LP. Mas só agora foi concretizado pela editora Holuzam.

Haverá mais novas vidas para o legado dos Telectu depois deste concerto?
A nossa ideia é dar vários concertos em Portugal e no estrangeiro. Já temos concertos agendados até junho do próximo ano. Faz parte dos nossos intentos apresentar posteriormente outros discos de Telectu que venham a ser reeditados. Assim, nesta fase, os Telectu surgem como intérprete deles próprios.

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1 Comment on Vítor Rua: “O que nos motivava era a descoberta sónica eletrónica”

  1. Conheci o Jorge Lima Barreto em Vinhais, Quando ia a minha casa propunha-lhe uma bebida espirituosa, mas ele só me pedia um copo de leite. Mais tarde, quando fui colocada na Escola Secundária do Feijó, em Almada, no ano de 1981, comecei a ouvir com atenção a música inovadora dos Telectu, que, para a época constituía uma “pedrada no charco”. Achava-a profundamente inovadora! Arrisquei então convidar os Telectu para um concerto na minha Escola e muitos alunos ficaram de boca aberta, quando ouviram esses novos sons repetitivos que já prenunciavam o avanço da música electrónica que agora domina a cena musical de muitos jovens da era da técnica.
    Só desejo que tenham muito sucesso!..

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