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“Fake news”, com tempero marciano

Texto: NUNO GALOPIM

Passam este mês 40 anos sobre a estreia de “Capricorn One”, filme de Peter Hyams que mergulha nos bastidores de uma gigantesca aldrabice montada por ocasião de uma primeira viagem tripulada a Marte. Qual é o poder da mentira? E como pode ela sobreviver?

Hoje chamar-lhe-íamos “fake news”. E quando a trama chegou ao grande ecrã, há precisamente 40 anos, muitos terão certamente pensado nas muitas teorias da conspiração que, desde 1969, habitavam o discurso de alguns céticos sobre o que havia de verdade na história recente das missões tripuladas à Lua. A chegada das missões Apollo à Lua gerou, de facto, uma torrente de narrativas que punham em causa a veracidade dos factos, havendo inclusivamente quem defendesse que Stanley Kubrick teria sido um instrumento da Nasa para criar os filmes que a televisão mostrou, alegando que essa era a única evidência do que se dizia estar a acontecer. Parece incrível, não é verdade? Mas o facto é que ainda hoje há muitos ignorantes que tropeçam e acreditam nas “fake news”, de outro calibre (e sem a Lua como objeto), que vão surgindo a cada dia que passa. Peter Hyams, que mais tarde realizou filmes como Outland: Atmosfera Zero (1981) e 2010 – O Ano do Contacto (1984) partiu destas “fake news” lunares que escutrara na sua juventude para, em finais da década de 70, fazer de Capricorn One, um pioneiro das atuais produções de cinema com a conquista marciana como destino, um empolgante filme que é na verdade mais um thriller (que usa a presença do jornalista como a força que busca a verdade) do que um episódio de ficção científica.

O filme coloca-nos num tempo que não estaria muito longe do presente de então. A Nasa prepara-se para lançar a sua primeira missão tripulada a Marte, fazendo-o em moldes semelhantes aos usados na conquista da Lua (pobres astronautas, fechados numa cápsula e, eventualmente, módulo de aterragem, meses a fio). Um executivo, conhecedor das jogadas de poupança e das engenharias do engano que fizeram chegar à nave peças mais baratas mas de qualidade duvidosa, manteve o silêncio o tempo todo. E a minutos da descolagem trata de mandar retirar os três astronautas – interpretados por James Brolin, Sam Waterston e O. J. Simpson – da cápsula, levando-os, pela calada, a umas instalações remotas nas quais está montado um gigantesco estúdio de televisão que permitirá recriar, ali mesmo, em solo terrestre, as várias intervenções necessárias para o assegurar da verdade da mentira… Expostos à possibilidade de um acidente quase certo e da muito provável ordem para corte de financiamento que aconteceria depois, aceitam, mesmo relutantes, em jogar o jogo da ficção. E assim descolam, chegam a Marte, falam com os técnicos e a família… Tudo isto sem sair da Terra.

Mas na verdade nem todas as variáveis do jogo estão nas mãos do executivo da Nasa. Um dos técnicos da sala de controlo da missão, que ainda por cima tem um jornalista fura vidas como amigo, nota erros de leitura nas transmissões feitas da nave. Parecem vindas de um lugar a 300 quilómetros e não a milhares de distância, como seria de supor. E, para complicar as coisas, ao regressar, num momento em que os astronautas se preparavam para rumar à cápsula que deveria cair no mar, a nave explode ao reentrar na atmosfera terrestre. Para todos os efeitos, os astronautas, mesmo vivos, estão oficialmente mortos… E desta vez manter o jogo vivo não parece ser mais uma opção… Poderá a verdade alguma vez emergir?



A trama, bem urdida, explora por um lado os ecos das memórias das teorias da conspiração lunares e levanta, numa altura em que eram mais os livros (de ficção científica) do que os filmes a fazê-lo, o sonho de uma possível viagem tripulada a Marte. Coisa que, 40 anos depois de Capricorn One, é ainda objeto mais na secção dos sonhos desejados do que das realidades em agenda próxima para se materializar.

Se a força motriz das teorias da conspiração lunares e o sonho marciano servem de ponto de partida para a trama, é contudo a construção de um duelo entre a verdade e a mentira que faz de Capricorn One um filme verdadeiramente empolgante. A figura do jornalista toma aqui o papel que habitualmente o thriller policial coloca nas forças da ordem. Interpretado por Elliott Gould, ele o único que escuta a nota desafinada em toda a orquestra. Tem em seu desfavor um historial de “fake news” que tentou “vender” ao seu editor. E como contam os velhos contos morais, aos mentirosos é mais difícil um dia contar a verdade. A linguagem visual – da fotografia à montagem – está mais perto dos policiais da época do que da emergente geração de títulos que, depois do ano-chave de 1977 (que viu chegar às salas o primeiro Star Wars e Encontros Imediatos de Terceiro Grau), reinventava os códigos da ficção científica para grande consumo. Com banda sonora do então já experiente e reconhecido Jerry Goldsmith, Capricorn One não debateu com o primeiro filme da saga Super-Homem as contas dos blockbusters do ano. Mas foi um sucesso considerável, o tempo tendo-o contudo votado a algum silêncio… Na era das “fake news” não é má ideia ver uma história como esta…

“Capricorn One”, de Peter Hyams, está disponível em várias edições em DVD e BLu-Ray. A mais recente edição em Blu-Ray, pela Network (no Reino Unido) faz acompanhar o filme de alguns extras, entre os quais um ‘making of’ e imagens de bastidores captadas durante a produção.

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