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A arte de desafiar a canção

Texto: NUNO GALOPIM

Figura relevante da música eletrónica da última década, Daniel Lopatin encontra, no novo disco do seu projeto Oneohtrix Point Never, pistas para um novo episódio de reinvenção da canção. Um álbum para juntar aos recentes de Arca, Björk e Anohni nesse departamento de visões desafiantes para o velho formato da canção.

Atravessando séculos, geografias e géneros musicais, a canção mantém-se como forma sempre atual, cativante e tentadora pelo trabalho de quem, na linha da frente da invenção, reinventa sucessivamente novas e desafiantes estratégias de abordagem à arte do diálogo curto entre a voz, a palavra e os instrumentos. Nos últimos meses assistimos a uma série de investidas nas orlas mais distantes do centro da atividade mainstream quando, entre as mais intrigantes e consequentes tendo surgido as que ganharam forma nos mais recentes álbuns de Anohni, Arca ou Björk (onde Arca estava também bem presente). Agora podemos juntar mais um disco a esta coleção de visões. É assinado pelo projeto Oneohtrix Point Never, uma das frentes de trabalho de Daniel Lopatin, músico que há muito é figura reconhecida entre os mais ativos e interventivos criadores de música eletrónica do nosso tempo, com um corpo de trabalho que envolveu já colaborações com figuras como FKA Twigs ou David Byrne.

Este não é de todo o primeiro disco que Lopatin edita através deste seu projeto. Mas depois de uma série de experiências e retratos de episódios de ousadia e inspiração, Age Of representa um momento “eureka” que corresponde ao encontrar de uma solução. E mesmo dotado da diversidade de timbres e movido pelo tom inesperado com que a surpresa pode acontecer a qualquer instante, não deixando de incluir fragmentos instrumentais entre faixas vocais, Age Of consegue definir um ciclo coeso de acontecimentos que, em conjunto, afirma uma meta para as suas demandas. Não será uma meta definitiva. Mas representa um claro patamar com nitidez e solidez de uma visão bem materializada. A linha da frente da invenção da canção passa, sem dúvida, por aqui.

Do cravo que abre o alinhamento no tema que dá título ao álbum à limpidez das linhas que definem em Babylon uma canção de filiação clássica, às aventuras permanentemente assaltas pela surpresa que depois temos pela frente, envolvendo sonoridades eletrónicas de diversos tempos e lugares, ruídos, vozes processadas, linhas mais claras, porções mais turvas. James Blake, cujos primeiros discos foram igualmente peças-chave nesta procura de novos horizontes para a canção – é um dos colaboradores de Daniel Lopatin num disco em que arruma ideias e nos serve possíveis soluções. Age Of pede tempo a quem o escuta. Mas é investimento que será compensado quando o nosso ouvido tiver, tal como a música, arrumado os cantos à casa.

“Age Of”, de Oneohtrix Point Never, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Warp Records. ★★★★★

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