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LCD Soundsystem: a verdade da música ao vivo

Texto: NUNO GALOPIM Fotos: NUNO CONCEIÇÃO (Everything is New)

O panorama de concertos em sala, que passou uma dieta nos últimos anos, está a trazer bons momentos aos palcos portugueses. E entre o que de melhor tem passado pelos nossos palcos está a visita, por três noites, e sem truques, dos LCD Soundsystem ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Da próxima vez que me perguntarem porque gostamos tanto de ver música ao vivo, a resposta virá da memória desta arrebatadora visita tripla dos LCD Soundsystem a Lisboa numa residência de três noites consecutivas no Coliseu dos Recreios da qual quem ali esteve não se vai esquecer nunca. Porquê? Porque por um lado houve um reencontro com uma banda com a qual havia já um relacionamento de admiração e que, contra a morte anunciada, afinal vive outra vez. Porque as canções são brilhantes e a sua expressão em palco é melhor ainda do que as versões que conhecemos dos discos. E, sobretudo, porque ali vimos fixada a essência do que de poderoso e intenso há num momento que vive da comunhão de quem faz música com aqueles a quem se destina, ultrapassando jogos de manobras de sedução complementares. Porque era na música que estava a alma de toda a comunicação. E foi de pura música que se viveu num momento que traduz, tal como o sugere a obra em disco do grupo nova-iorquino, um momento de síntese de vivências que, neste início de século, nascem das heranças tanto da cultura rock’n’roll como da música eletrónica (e dos respetivos métodos da dança). De resto, nas duas discretas citações, uma a Radioactivity dos Kraftwerk nos compassos iniciais de I Can Change e a Terror Couple Kill Colonel dos Bauhaus nos primeiros instantes de Get Yrself Clean, ficam evidentes essas duas escolas que, aqui, são assimiladas e transformadas numa música que, como raras, traduzem a essência daquilo que é o presente em que vivemos.

Com diferenças pontuais entre os alinhamentos – a segunda noite, por exemplo, optou por abrir com Oh Baby em vez de Get Innocuous! e juntou ao alinhamento temas como Yeah ou (o sublime) New Your I Love You But You’re Bringing Me Down -, dividindo bem a recolha de faixas entre os quatro álbuns de estúdio da banda e encontrando em canções como Tribulations, Tonight ou All My Friends verdadeiros momentos de festiva partilha coletiva à qual a sala respondeu dançando, a vida de palco dos LCD Soundsystem em 2018 é coisa musicalmente sólida, sonicamente intensa e deliciosamente informal. O palco mais parece uma workstation ou uma ponte de uma nave espacial, com cada um dos (muitos) elementos em cena entregues às suas funções e instrumentos. Há sempre quem saia do lugar, caminhe por ali, vá buscar água, regresse. Uma pose em registo não-pose que sublinha um look que desvia a atenção da imagem e reforça a presença central da música. Uma relação que naturalmente não ignora o espaço, cabendo à luz estabelecer essas ligações, quer usando o efeito da gigante bola de espelhos suspensa sobre o palco, quer nos projetores e robots que, muitas vezes, reagiam como se ligados às teclas que iam desenhando as linhas de som. Um piscar de olho à memória de Encontros Imediatos de Terceiro Grau? Talvez nem lhes tenha passado pela mente essa ligação. Mas a ideia de que o som pode ser cor e luz está bem vincado neste palco.

Poderiam ter trocado três noites de uma sala como o Coliseu por uma única numa outra maior? A aritmética poderia dizer que sim. Mas o bom senso disse que não. Não só é o Coliseu dos Recreios a mais bela sala de espetáculos que Lisboa tem (e James Murphy não deixou de a elogiar), carregada de tantas e tão boas memórias, como, sem vídeo (porque não fez falta ali e seria uma fonte de dispersão de atenções), este espetáculo pede que não se perca a relação física entre quem toca e quem escuta. Assim foi.

Em palco entende-se talvez melhor do que em disco o sentido das demandas lançadas sobre o mais recente American Dream (de 2017). Mas, quase segundo a máxima “shut up and play the hits”, os “clássicos” de outrora não faltaram. Assim como não faltaram bem humoradas intervenções do anti-herói James Murphy, que chegou a cumprimentar por cinco vezes a sala como se tivesse acabado de ali chegar. A voz, a companhia em palco, o som, as canções, a relação com o público, assentam-lhe como uma luva. Como poderá ele ter sequer imaginado que iria prescindir de tudo isto? Felizmente reconheceu o erro a tempo e horas. E hoje temos, bem vivos, uns LCD Soundsystem que não estão longe de ser uma das melhores bandas do nosso tempo.

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