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As canções elegantes e sofisticadas de Jonathan Bree

Texto: NUNO GALOPIM

Frequentemente referido como autor de “música pop de câmara” o neozelandês Jonathan Bree tem finalmente, neste seu terceiro álbum a solo, um cartão de visita para poder chegar a outro patamar de atenções.

O universo da “pop de câmara” – designação com alguma pompa que pisca o olho ao apelo eloquente da música orquestral e serve muitas vezes para dizer em poucas palavras “canções pop sóbrias com arranjos de cordas” – tem há já alguns anos um importante agitador no outro lado do planeta. De origem neozelandesa, Jonathan Bree começou por focar atenções no trabalho coletivo que foi criando através do seu grupo (os Brunettes), desviando depois o gume da sua ação para discos que desde os últimos cinco anos tem vindo a lançar em nome próprio. Mas só agora, com Sleepwalking, o seu terceiro álbum a solo, parece ter encontrado um cartão de visita para se apresentar aos muitos que sentem que o terreno que em tempos teve Neil Hannon, dos Divine Comedy, como maestro residente, pode acolher uma outra figura em espaço com algumas afinidades, embora sem a intensidade quase de fulgor sinfónico com que, sobretudo na segunda metade dos anos 90, álbuns como A Short Album About Love ou, mais ainda, Fin de Siècle, mostravam ambições de grandiosidade sónica que iam bem para lá do que se associa habitualmente à designação “de câmara”…

É frequente vermos nomes como os de Brian Wilson ou Lee Hazlewood associados a descrições da música de Jonathan Bree, o segundo claramente por via das canções nas quais, ao chamar colaborações de cantoras, o músico neozelandês evoca o tom de memórias de parcerias com Nancy Sinatra. Não será descabido juntar a estas referências nomes igualmente marcantes na construção de um universo de canções carregadas de jogos entre instrumentos como Van Dyke Parks, Serge Gainsbourg – e aqui vale a pena ouvir Static, com Princess Chelsea – ou Scott Walker (na fase final dos sessentas), este último com afinidades com Jonathan Bree igualmente no plano vocal. Se quisermos não fechar o quadro de referências nas escolas dos sessentas podemos, além de Neil Hannon, evocar nomes mais próximos do nosso tempo como um Perry Blake ou mesmo Stephin Merritt – escute-se, por exemplo, Roller Disco ou a linha do refrão de Valentine – embora sem o mundo de sentidos que o líder dos Magnetic Fields tão bem constrói com palavras.

Sleepwalking é uma coleção de deliciosas canções “pop sóbrias com arrajos de cordas”. Pois, a tal pop de câmara, num alinhamento que, mesmo dominado pelo tom melancólico que a voz de crooner de Jonathan Bree confere às canções, está longe de ser experiência pesada ou mesmo sombria. Bem composto, bem arranjado, este corpo de canções merece atenção, que o look, agora com rosto tapado, ajudará a sublinhar. E, se virmos os discos (como hoje parecem estar a ser entendidos) como cartão de visita para atuações ao vivo, então que Sleepwalking seja motivo para o chamar a uma das belas salas de charme que o país tem de norte a sul. Para muitos seria, garantidamente, uma boa descoberta.

“Sleepwalking”, de Jonathan Bree, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Lil’ Chief. ★★★★



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