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Uma questão de representação

Texto: NUNO GALOPIM

Realizado por Greg Berlanti, “Com Amor, Simon” é uma comédia romântica tão ligeira como tantas outras que povoam o género e fica aquém de narrativas ‘coming of age’ que outros filmes já retrataram. De novo coloca em cena uma questão de representação habitualmente ausente neste patamar vocacionado para consumo mainstream.

Muito se falou, nos últimos meses, sobre a chegada às salas de cinema de uma primeira aposta de um grande estúdio numa narrativa ‘coming of age’ na qual o personagem central é gay… O que aqui há de novo talvez seja mesmo, e apenas, o elemento “grande estúdio”. E basta caminhar, de ano a ano, entre a programação dos festivais – e não apenas os ligados à cinematografia queer – para notar não só a quantidade de incursões neste terreno narrativo como, sobretudo, a variedade de abordagens que foram já ensaiadas. Títulos como God’s Own Country, de Francis Lee, Mysterious Skin, de Gregg Araki, Glue, de Alexis dos Santos, XXY de Lucía Puenzo ou Tomboy, de Célice Sciamma, são apenas cinco possíveis entre os muitos exemplos de narrativas ‘coming og age’ que exploraram questões identitárias de género ou de sexualidade que, pelo mundo fora, marcaram presença em festivais de cinema. É claro que não faltaram também já momentos em que o circuito comercial de distribuição em sala programou títulos focados nestes universos. E Chama-me pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino ou Quando Se Tem 17 Anos, de Andre Téchiné, são apenas dois recentes exemplos de filmes que chegaram a ter distribuição entre nós. Dois dos poucos entre os muitos possíveis, é verdade. A representação, no ecrã, destas personagens e narrativas está, por isso, longe de ser uma novidade. O que faz então com que “o grande estúdio” aqui opere como um fator diferenciador?

Baseado no livro de Becky Albertalli que entre nós foi traduzido como O Coração de Simon contra o Mundo (convenhamos que o original Simon vs. The Homo Sapiens Agenda é bem melhor), Love, Simon, que entre nós chegou às salas de cinema com o título Com Amor, Simon, coloca-nos perante o quotidiano de um jovem norte-americano de hoje, com 17 anos, e uma vida suburbana. Esconde um segredo, diz-nos em off logo no início do filme, estabelecendo com o espectador uma relação de confiança que, por enquanto, não consegue levar a mais ninguém, nem mesmo aos pais mais liberais que se possa ter ou aos amigos com quem convive todos os dias. Num blogue da escola alguém, sob anonimato, revela um segredo igual ao seu. Por e-mail, criando uma personagem virtual, Simon contacta-o e fala do seu mundo real. O contexto poderia ajudá-los a não guardar segredos como este. Mas o bullying de que é vítima um outro aluno que deixou de fazer segredos ou a chantagem que atormenta Simon quando os seus e-mails são vistos por um colega são afinal expressões de uma cultura que, mesmo com avanços legislativos e comportamentais em várias frentes, ainda lida com dificuldade com o que escapa à norma.

O aparente déficit de conflito numa trama de um quotidiano de escola e casa, com os pequenos nadas que, sobretudo naqueles dias, parecem por vezes dramas de expressão colossal não reside contudo em acontecimentos inesperados ou quaisquer outros elementos que tantas vezes são o gatilho que dispara as narrativas para além do estado de energia potencial em que os contextos e personagens nos são apresentados. O conflito é interior. É demasiado pessoal. Não só para Simon. Mas, pela ansiedade que passa pelas palavras, parece mais profundo ainda em Blue, o nome pelo qual assina o seu interlocutor. Há conflitos que parecem mudos e ensurdecem quem os escuta… Mesmo que aqui a abordagem seja… light.

Sem outros mais ingredientes, a narrativa na verdade não nos coloca perante nada mais do que estas dúvidas, num patamar simples (talvez demasiado simples) como o fazem tantas outras comédias românticas. Mas, na verdade, é isso o que temos em Com Amor, Simon. Uma comédia romântica ligeira, que difere de tantas outras por ter um protagonista gay que quer, apenas, poder ser quem é. Nada mais. Talvez pareça pouco quando comparado com questões e prismas de abordagem como os que muitos dos outros títulos acima referidos já o fizeram.

Não há aqui a intensidade emocional de Chama-me pelo Teu Nome nem os planos de leitura que ali cruzam gerações e vão mais longe. Não há a dimensão de inqueitude física que Chéreau [Téchiné] tão bem abordou nem Quando Se Tem 17 Anos. Não há memórias traumáticas como as que a personagem de Joseph Gordon-Levitt interpretou em Mysterious Skin. Nem os conflitos identitários de XXY ou Tomboy… Mas, nascido num “grande estúdio”, Com Amor, Simon tem o mérito de abrir um espaço de temática habitualmente ausente no plano da comédia romântica vocacionada para uma plateia mainstream. O fator diferenciador é esse mesmo. E representa um começo. E, na verdade, talvez com mais jogos de referências culturais e bons ingredientes de pontual humor face ao que, ao mesmo tempo, acaba de chegar à plataforma Netflix em Alex Strangelove, filme com preocupações igualmente “pedagógicas”, mas que acaba mais ensopado em clichés do que Com Amor, Simon. Na verdade, os clichés de Com Amor, Simon são os que fazem com que tantas comédias românticas pareçam ser sempre o mesmo filme. O facto de a assimilação dos elementos narrativos e identitários chegar a este patamar diz muito sobre o modo como os valores que a trama veicula procuram encontrar aqui um caminho para comunicar que fazem (ou deviam fazer) parte do quotidiano. Depois poderemos até discutir as questões de mercado, dos nichos e por aí em diante… Mas numa altura em que se fala tanto (e justamente) da necessidade de assegurar a representação das diversidades, Com Amor, Simon, sem pretender lutar por um lugar na história do cinema, garante pelo menos a inscrição de um episódio na construção do modo como as narrativas com imagens procuram retratar a sociedade que somos. Ou, antes, a que gostaríamos de ser.

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