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Novos modos para chegar à escrita de Philip K. Dick

Texto: NUNO GALOPIM

Uma série de televisão foi o motivo para a criação de uma nova coleção de contos de Philip K. Dick, todos eles antecedidos com textos de apresentação de figuras ligadas às respetivas adaptações.

Os paradigmas de consumo ou de acesso aos livros podem mudar. Mas no fim cabe ao leitor o papel de continuar a ler porque, afinal, os livros existem e estão à espera de quem os leia. O mundo ao seu redor mudou, pelo que nada contra se houver quem encontre novos caminhos para a eles continuarmos a poder chegar. Tudo isto para notar como a escrita de Philip K. Dick continua a estar disponível para novas gerações de leitores, mesmo num tempo em que, ao contrário daquele em que estas narrativas foram imaginadas, há um mundo de imagens que agora precede (para muitos) um encontro com as palavras.

Quando, em 1982, o filme Blade Runner – Perigo Iminente, de Ridley Scott, chegou às salas de cinema, o mundo literário de Philip K. Dick conheceu a primeira grande ponte de contacto com o cinema, abrindo uma sucessão de casos de adaptação de narrativas aos ecrãs (grandes e pequenos) que, entre muitos outros, geraram casos marcantes como Desafio Total (Paul Verhoeven, 1990), Relatório Minoritário (Steven Spielberg, 2002) ou A Scanner Darkly (Richard Linklater, 2006, aqui usando técnicas de rotoscopia para criar um híbrido entre a imagem real e as linguagens visuais da animação). Mais recentemente uma adaptação (ao que parece com algum grau de liberdade) de O Homem do Castelo Alto ao formato de uma série televisiva (disponível por streaming via Amazon) aprofundou o potencial de exploração da herança da escrita e visões do escritor, abrindo as possibilidades do terreno – por enquanto a dar que falar – da produção de séries para televisão.

Nada de novo nesta enumeração, já que Philip K. Dick se tornou num dos autores de literatura de ficção científica mais vezes visitado pelo cinema e televisão desde, precisamente, Blade Runner. Mas se acrescentarmos que era já um nome aclamado e com vasta plateia de leitores bem antes de Blade Runner e notarmos que o escritor na verdade morreu meses antes da estreia do filme, não podemos deixar de refletir como, durante cerca de três décadas, as suas narrativas conquistaram atenções pela mera força das palavras. As imagens chegaram depois.

Blade Runner talvez tenha mudado tudo, levando desde logo muitos a ler Será Que os Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (o título português do conto no qual se baseia o filme). E desde 1982, seja pelo impacte de novos filmes, pelo entusiasmo de alguns admiradores seus (de Gary Numan, que a Emmanuel Carrère), os seus livros não deixaram de conhecer novas edições e, com elas, novas gerações de leitores. Em tempos com representação importante na Coleção Argonauta (Livros do Brasil) ou na série de Ficção Científica em livros de bolso da Europa América, tendo surgido ainda em outras mais editoras portuguesas, a obra de Philip K. Dick tem vindo a conhecer nova aposta mais regular entre nós através de uma série de lançamentos na Relógio d’Água. E agora, depois de O Homem do Castelo Alto, Será Que os Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, O Homem Duplo, Relatório Minoritário e Outros Contos, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch e Ubik, um sétimo volume ensaia um modelo novo de abordagem à escrita de Philip K. Dick.

Sonhos Elétricos é uma coleção de contos de Philip K. Dick. Não está aí a novidade já que, em 1955, o mesmo ano em que lançou em livro um primeiro romance, o escritor viu também um primeiro conjunto de contos seus previamente publicados em revistas a ser reunidos num volume de capa dura, desde então tendo surgido muitas outras edições feitas de vários pequenos textos agrupados pelos mais diversos critérios. O que tem Sonhos Elétricos de novo? É que não é mais do que o conjunto de contos que serviu de base aos episódios da série Electric Dreams (estrada em 2017 no Channel 4 britânico), juntando a cada texto uma nota introdutória por figuras ligadas às respetivas adaptações. A série, que junta entre outros nomes as presenças de Tomothy Spall, Geraldine Chaplin, Janélle Monae ou Steve Buscemi no elenco – que varia a cada episódio já que cada um decorre de um conto distinto – serve assim de agregador de narrativas que, agora, e como consequência das imagens, chegam a livro.

O conjunto de contos que aqui encontramos pode, por sua vez, servir de porta de entrada no universo de um autor que usava muitas vezes cenários temporais do nosso futuro enquanto seres humanos, cruzando-os com lógicas do quotidiano de então, criando semelhanças e analogias desconcertantes que não nos deixam indiferentes. Mesmo longe, no espaço, no tempo, aquelas figuras, os seus comportamentos, são os nossos, do aqui e do agora. Seja quando um robot “faz tudo” se resolve vender a si mesmo a um potencial comprador em O Vendedor. Quando, de um ponto de vista longínquo, reflete sobre o seu tempo em Peça de Exposição. Ou ensaia as periferias da loucura (pessoal ou coletiva) em O Enforcado. Sempre desafiante. Mas sempre humano. Demasiado humano… E, sem surpresa, nota como podemos, de facto, ser assustadores.

“Sonhos Elétricos”, de Philip K. Dick com tradução de Helena Briga Nogueira e Paulo Faria, é um volume de 204 páginas, publicado pela Relógio d’Água.

Como curiosidade, aqui fica o trailer da série:

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