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O que pode esconder um olhar?

Texto: NUNO CARVALHO

Dois anos depois de ter passado no IndieLisboa, chega às salas de cinema “À Distância” (“Desde Allá” no original), que assinalou a estreia do realizador venezuelano Lorenzo Vigas.

No seu filme de estreia, À Distância (Desde Allá no original), o realizador venezuelano Lorenzo Vigas conta com alguns talentosos colaboradores que têm contribuído para fazer a diferença nas cinematografias latino-americanas. Entre eles figuram os mexicanos Guillermo Arriaga (argumentista de Alejandro González Inárritu em filmes como Babel, Amor Cão e 21 Gramas) e Michel Franco, um dos produtores, e ainda o veterano e sempre soberbo ator chileno Alfredo Castro (um habitué dos filmes de Pablo Larraín).

Castro interpreta Armando, um homem de meia-idade, solteiro e solitário, que trabalha num laboratório de próteses dentárias e que atrai para o seu antiquado apartamento, a troco de dinheiro, jovens de classe baixa que encontra nos bairros pobres de Caracas. Porém, ele limita-se a olhar para os seus corpos semidesnudados, sem estabelecer contacto físico, como se de um fétiche se tratasse. Mas quando um dia aborda Elder (o estreante Luis Silva), um rapaz impulsivo e defensivo que esconde a sua vulnerabilidade sob uma fachada agressiva e mal-humorada, obtém deste à partida uma resposta hostil e uma atitude aparentemente homofóbica. No entanto, depois de Elder ser agredido por membros do seu gangue, Armando decide tomar conta dele. Só que o cinismo do protagonista faz daquilo que poderia ser o início de um relacionamento afetivo um jogo manipulatório com consequências sinistras e potencialmente trágicas.

Como bem notou Guy Lodge, na Variety, a obra que mais se aparenta a Desde Allá é Eastern Boys (2013), do francês Robin Campillo, nomeadamente na forma como ambas retratam a sensualidade queer e caminham lentamente em direção ao filme de género. Se Campillo prova que algum do melhor cinema contemporâneo existe hoje nas franjas e nas margens, Vigas revela-se nesta primeira obra um dos nomes mais estimulantes do atual cinema latino-americano. Para esse surpreendente resultado contribui também a belíssima direção de fotografia de Sergio Armstrong (responsável pela estética do cinema de Pablo Larraín).

O principal foco de atenção da história é, sem dúvida, a personagem de Alfredo Castro. Ele é um homem opaco e insondável, com uma expressão de indiferença emocional e uma quietude que não sabemos se corresponde a embotamento afetivo ou se oculta sonsamente uma natureza mais perversa. Mas, dentro do tom elíptico do filme, vamos entrevendo, e sem recurso por parte do realizador a qualquer espécie de abordagem psicologista ou analítica, a natureza ferida e repleta de raiva calada de Armando, que comporta um tortuoso complexo com a figura paterna. Porém, como se adivinha, e ao contrário do que sucede em Eastern Boys, aqui Elder não é “adotado” por uma figura paternal. O obscuro coração de Armando, em guerra com a “entidade paternal”, jamais seria capaz de representar esse papel e de não atraiçoar fatalmente as surdas esperanças de Elder de receber o afeto que nunca conheceu e que o fez sentir-se indigno de algo que deveria ser um direito humano natural e não um prémio que se alcança laboriosamente.

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