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20. Elis Regina (1961)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1961 representando a estreia de Elis Regina, embora num registo muito distante daquele que a sua obra tomaria depois. O álbum traduz, contudo, uma das primeiras abordagens da língua portuguesa a formas musicais de uma nova cultura jovem.

Há um antes e um depois nos percursos de vida de todos nós. Em Elis Regina o ponto de viragem chegou em 1965 quando cantou Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, no I Festival de Música Popular Brasileira, que então venceu. Por essa altura a cantora tinha já editados alguns álbuns, quatro deles gravados numa etapa em que tinha ainda residência fixa no Rio Grande do Sul (estado onde nascera, em 1945). Apesar de alguns focos de atenção locais, os discos tinham passado a leste das atenções e, de facto, estão longe do que Elis Regina mais tarde registou em estúdio e cantou ao vivo. Mas, e mesmo dada essa distância, no seu disco de estreia, editado em 1961, encontramos uma das primeiras manifestações coerentes de assimilação de formas da emergente cultura rock’n’roll pela língua portuguesa.

Viva a Brotolândia não representa a primeira edição em álbum de uma proposta relacionada com a cultura rock’n’roll em português. Esse “título” é frequentemente apontado a Estúpido Cupido, o primeiro álbum de Celly Campello (1942-2003), cantora que iniciara a sua carreira ainda nos tempos dos discos de 78 rotações e que, em 1960, incluiu no segundo álbum, Brôto Certinho, o “clássico” Banho de Lua, versão de um tema originalmente cantado pela italiana Mina que, anos depois, conheceria outra leitura pel’Os Mutantes.

Por esta altura deve haver já quem pergunte o que significa “broto”… É um termo da gíria “jovem” brasileira de então que, simplesmente, quer dizer “mocinha” ou “garota”. O título Viva a Brotolândia deixa, então, bem claro um programa “pueril” despreocupado que, de resto, um texto de Carlos Imperial (referido como DJ da juventude) na contracapa fixa sem espaço para dúvidas: “Aqui está um broto cantando música de broto, para você, broto, ouvir e “dansar” (sim, com “s”). E acrescenta: “Elis Regina é um broto não só na idade [tinha então 16 anos] como no espírito também”. No fundo, música para a “moçada” ficar a dançar e não dar problemas…

O vazio de um discurso que parece querer determinar lógicas pouco dadas à arte de pensar e decidir, e no fundo, não abre espaço a sugestões de “liberdade”, é coisa de deixar nervos em franja, de facto. E talvez esta forma de entender a função da música, aliada a um corpo de canções liricamente ultra-light (mas não o são tantas outras em clima pop?), tenha afastado este disco das atenções de quem, mais adiante, encontrou mais satisfação e sentidos numa Elis mais crescida e bem distante destas “brotices”.

Viva a Brotolândia merece, contudo, um reencontro. Por um lado para se (re)descobrir os primórdios da obra de um nome maior da canção brasileira. Para observar ecos de valores que passavam pelas franjas menos rebeldes da cultura juvenil naquela época. E, depois, para notar como, apesar da presença de algumas versões (uma delas de My Favourite Things, do musical The Sound of Music estreado em 1959 e que em 1965 chegaria ao cinema como Música No Coração), aqui encontramos primeiros exemplos de escrita em português para uma música jovem que procurava aliar a força emergente do rock’n’roll (de face polida) a formas ligadas quer à música do Brasil (nomeadamente o samba) e da cultura latino-americana (Dá Sorte, que abre o alinhamento, é um calypso), sempre em arranjos pensados para um acompanhamento com orquestra (a de Severino Filho). Leve e juvenil, de facto. Mas peça importante na construção de uma história pop/rock da língua portuguesa. E ainda por cima com a (grande) Elis Regina por protagonista.

“Viva a Botolândia”, de Elis Regina, teve edição original em 1961 pela Continental. O LP, em vinil, conheceu uma reedição mais recente que replica o alinhamento e capa originais. Uma edição em CD surgiu em 1989 com capa diferente e sob o título “1961 Nasce uma Estrela – O 1º LP de Elis Regina”, lançada pela Phonodisc.

Da discografia de Elis Regina vale a pena descobrir álbuns como:
“2 Na Bossa” (1965) com Jair Rodrigues
“Elis & Tom” (1974)
“Transversal do Tempo” (1978)

Se gostou, experimente ouvir:
Tom Jobim
Nara Leão
Maria Bethânia

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