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Retratos de família

Texto: NUNO GALOPIM

A ideia de encontrar, através da ‘house’, uma linguagem pessoal capaz de desenhar contornos de uma história de família, é missão (bem) cumprida no primeiro álbum do músico que se apresenta sob o nome Ross From Friends.

Apesar de uma identidade cedo talhada para o movimento na pista de dança, a house foi conhecendo também a atenção de estetas que ali encontraram terreno para demandas rumo a outras dimensões e modos de ouvir. Um bom novo exemplo dessas outras possibilidades para a música house – tal como outrora tão bem o fez Herbert no clássico 100 Lbs, de 1996 – acaba de ganhar forma num primeiro álbum que confirma em pleno as (boas) sugestões dos máxis e EPs que Felix Clary Weatherall já antes editara sob o nome Ross From Friends.

O nome do projeto tem origem numa personagem da série Friends e, ao que parece, o ator que lhe vestia a pele não achou graça à coisa. Nunca vi Friends nem está, nem por perto, no meu panorama das não sei quantas séries a ver entre as que ainda não vi. Mas confesso que não preciso do outro Ross. Este basta, e bem. Confesso herdeiro das experiências vividas com o pai (sobretudo dos dias em que o acompanhou com um sound system que fez festas em squats na Londres dos oitentas e andou pela Europa fora na alvorada dos noventas), Felix propõe em Family Portrait um conjunto de peças que tomam os métodos e formas da house como princípio para, juntando um trabalho de manipulação de vozes e uma paleta entusiasmante de referências sonoras, compor quadros que evidenciam um gosto pelo detalhe que não esconde as muitas horas a fio a que a moldagem de cada instante terá obrigado.

Há entre os temas de Family Portrait – que sonicamente reflete uma franca evolução, embora em trilhos de continuidade, face aos máxis e EPs anteriores – ecos que cruzam tempos esbatem qualquer tentativa de identificação de época. Há registos eletrónicos que trazem outros tempos a uma música que desenha a sua própria identidade de tempo e lugar, como que, apesar das marcas vivenciais que um retrato de família naturalmente transporta, esteja afinal a sugerir imagens (sonoras) de ficção. Mais frequentemente contemplativos do que agitados, os quadros, embora inspirados pelas memórias familiares de outrora, desenham paisagens que não fecham a interpretação a uma narrativa que as condicionam. As sugestões emocionais lançadas pelo trabalho com vozes, batidas que não procuram as tendências do momento e um cuidado evidente no desenho das formas fazem de Family Portait uma das mais saborosas aventuras por terrenos house dos últimos tempos.

“Family Portrait”, de Ross From Friends, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Brainfeeder. ★★★★

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