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Os discos de Prince que agora chegam ao ‘streaming’ (parte 3)

Texto: NUNO GALOPIM

Chegaram às diversas plataformas de ‘streaming’ mais de 20 álbuns de Prince editados entre 1995 e 2010. Alguns deram que falar. Mas há outros que tiveram apenas lançamento digital, e há títulos que passaram longe das atenções. Está na hora de os (re)descobrirmos. Hoje recordamos mais cinco, todos eles editados entre 2003 e 2004.

“Xpectation”
(2003)

Muita da discografia relativamente desconhecida da obra de Prince na primeira década do século XXI resulta de lançamentos digitais efetuados através do NPG Music Club, clube de fãs aos quais era oferecida a fruição de música em lançamentos exclusivos ou prioritários para os seus membros.

O primeiro álbum instrumental de Prince editado em seu nome corresponde a um desses lançamentos e surgiu no serviço NPG Music Club apenas duas semanas após a edição do álbum ao vivo One Nite Alone… Live.

Com o título Xpectation, é um disco de temas jazzy não cantados todos eles compostos por Prince e com um título de apenas uma palavra que começava com a letra “x”. São disso exemplo composições como Xhalation, Xcogitate ou Xemplify. O tema vocal Xenophobia, que era o título originalmente previsto para o disco e que se julgava assim destinado a este projeto, acabou por ficar de fora, existindo apenas gravado em registo captado em palco.

O disco, que foi anunciado como um dos quatro CD a receber por quem assinasse pelo NPG Music Club, foi disponibilizado online em janeiro de 2003 e, um ano depois, surgiu para venda digital (em WMA) na secção “Musicology” do NPG Music Club. Em 2015 o álbum passou a estar disponível na plataforma de streaming Tidal. A edição original via NPG Music Club não era apresentada com qualquer artwork, correspondendo a capa hoje em dia mais divulgada à versão apresentada no Tidal.

“N.E.W.S.”
(2003)

Se bem que as atenções estivessem focadas nas pontes que ia estabelecendo entre os domínios da canção pop/rock, os terrenos do r&b e do funk e outros trilhos mais, a obra de Prince já visitava o jazz nos oitentas. E parte dessa relação pode escutar-se nos discos lançados através do coletivo Madhouse. Com a viragem do milénio e o álbum The Rainbow Children (2001) voltou a dar protagonismo maior a um universo que na verdade nunca deixou de habitar a música de Prince mas que sem sempre conhecera tão evidente protagonismo. A abertura de possibilidades editoriais posta em marcha com o lançamento de um serviço online – o NPG Music Club – estimulou a ousadia. E Prince não só deixou o jazz soar mais ostensivamente do que nunca na sua música como, nos primeiros anos do século XXI resolveu lançar discos instrumentais.

Se Xpectation (de 2003) tinha representado uma experiência meramente digital (no formato de distribuição), já o seu segundo álbum instrumental editado a solo como Prince começou por surgir igualmente como proposta online, mas poucos meses depois acabou mesmo a ter lançamento físico, em CD, em alguns territórios.

N.E.W.S. é um disco feito de quatro temas de 14 minutos, cada qual apresentando-se com o título de um ponto cardeal: North, East, West e South. Daí o título… O disco foi gravado num só dia em Paisley Park, chamando a estúdio as colaborações de Eric Leeds (saxofones), John Blackwell (bateria), Renato Neto (teclas) e Rhonda Smith (baixo).

Os quatro temas, claramente desenhados em solo jazzy cativaram contudo atenções relativamente curtas, sendo este apontado como o disco de Prince com vendas mais tímidas de sempre. Mesmo assim o álbum atingiu o Top 10 da tabela de vendas digitais da Billboard (numa altura em que esse era ainda um mercado muito reduzido). E valeu-lhe uma nomeação para os Grammys na categoria de Melhor Performance Pop Instrumental.

“C-Note”
(2003)

A possibilidade de edição online abriu outras formas de Prince comunicar a sua música. E este conjunto de gravações, originalmente apresentadas online em 2003 e mais tarde reunidas em disco (apenas com lançamento digital) em 2004 é um dos vários exemplos desse encantamento.

Este corresponde a mais um disco ao vivo, a juntar assim a One Nite Alone (e respetivo complemento). Trata-se contudo de um disco invulgar já que corresponde à reunião de gravações de temas apresentados no soundcheck de concertos nas cidades de Copenhaga, Nagoya, Osaka e Tóquio durante a One Nite Alone Tour. De resto, o título C-Note corresponde precisamente às iniciais de cada uma dessas quatro cidades, a elas devendo juntar-se depois Empty Room, um quinto tema gravado ao vivo em Copenhaga.

Empty Room, uma balada que data de 1985, dominada pela presença do piano, é aqui um elemento dissonante num alinho essencialmente desenhado em terreno jazzy e que sublinha, de resto, uma focagem maior de atenções de Prince por esses universos que se vinha a sentir já desde a edição de The Rainbow Children, em 2001.

Este disco, na forma com que hoje é apresentado, começou por surgir na forma de bootleg. Um sample de Miles Davis acabaria depois por ser retirado da mistura quando C-Note chegou ao catálogo da plataforma Tidal.

Esteticamente esta aventura, que Prince assina em conjunto com a New Power Generation, não se afasta muito das experiências do coletivo de jazz Madhouse que Prince havia formado no final dos anos 80 e pelo qual editou então dois álbuns.

“Musicology”
(2004)

Depois de uma sucessão de propostas essencialmente votadas aos mais fiéis seguidores do músico, que o acompanhavam de perto através do seu NPG Music Club (uma expressão clara da entrada em cena da Internet como elemento de transformação nos circuitos de distribuição musical), Prince chegou a 2004 com uma mão-cheia de propostas que não só davam continuidade a esta política editorial recente e confirmavam a sua prolífica atividade em estúdio, como traziam de novo uma vontade em abrir as janelas da comunicação com plateias mais vastas. É verdade que N.E.W.S., de 2003, tinha conhecido edição em suporte de CD em alguns territórios e que Rainbow Children, de 2001 (editado pela NPG Records) havia conhecido uma expressão internacional considerável. Mas desde o momento da viragem do milénio não tinha havido na agenda de Prince a vontade em estabelecer um acordo com uma grande editora para levar a sua música a outros patamares de possibilidades… Aconteceu com Musicology. Que, na verdade, começou por ter uma vida longe dessa dimensão global…

A 29 de março de 2004, data do lançamento de um novo disco de estúdio em suporte de CD, havia na verdade mais dois outros álbuns a surgir, mas esses apenas com lançamento digital (e uma vez mais através do serviço de distribuição do seu site oficial). Musicology começou por ter uma vida mesmo assim diferente do habitual, já que quem frequentou os concertos da digressão então em curso recebia o disco como oferta na sala de espetáculos. O apelo mais mainstream que o alinhamento revelava, mostrando um tronco estrutural funk mas aberto a diálogos com outras músicas (segundo as mais clássicas premissas da discografia de Prince) serviu contudo para entusiasmar o entusiasmo no circuito editorial mais convencional. E assim, poucos dias após a primeira edição física para oferta, o álbum surgia nas lojas de discos num lançamento conjunto entre a NPG Records e a Sony Music, naquele que era assim o primeiro disco de Prince a conhecer uma edição (mesmo que conjunta) com uma multinacional desde Rave Un2 The Joy Fantastic na viragem do século.

O tema-título do álbum cativou atenções. E foi justificadamente escolhido como primeiro single, recuperando uma dimensão quase pop para uma canção de fôlego funk, um pouco como acontecera em temas de outros tempos. De resto, no final da canção há um jogo de sonoplastia que sugere um aparelho de rádio a cruzar frequências nas quais se escutam, breves memórias de temas célebres como Kiss ou Little Red Corvette.

O restante alinhamento, mesmo edificado sob um protagonismo funk, alarga horizontes e abre pontes como Prince não fazia há algum tempo, revelando a sua mais suculenta canção de canções em alguns anos, não faltando uma grande balada na melhor tradição R&B em Call My Name ou uma evidente incursão pelas memórias pop/rock das suas criações dos oitentas em Cinamon Girl. Não será por isso surpreendente o facto de este ter representado o seu momento de maior sucesso desde Diamonds and Pearls.

“The Chocolate Invasion”
(2004)

O dia 29 de março de 2004 conheceu não um nem dois, mas três lançamentos simultâneos de Prince. Um deles, Musicology, chegaria pouco depois ao circuito mais convencional de distribuição, com uma edição em CD feita com distribuição da Sony Music. Ao mesmo tempo, mas apenas em formato digital acessível aos assinantes do NPG Music Club, eram dados a ouvir dois conjuntos de canções, cada qual sob um título comum distinto (sugerindo assim a noção de álbum), as ambos conhecidos como, respetivamente, os volumes um e dois de Trax from the NPG Music Club.

O primeiro destes dois volumes tem por título The Chocolate Invasion e na verdade não corresponde exatamente a material novo expressamente criado para este álbum já que a maior parte dos dez temas do alinhamento já constavam do praticamente terminado, mas nunca editado, High, mais um entre os muitos álbuns de Prince que acabaram por nunca conhecer edição na forma originalmente concebida pelo músico. Crê-se, por isso, que estes temas tenham sido gravados em Paisley Park entre 1999 e o ano 2000.

Na verdade, de todo o alinhamento que então ali se apresentava, só The Dance (que mais tarde surgiria com outra versão em 3121) era uma peça nova já que os restantes tinham estado disponíveis no site oficial de Prince em 2001, embora alguns deles sob outros arranjos e por vezes versões diferentes (inclusivamente no plano das letras).

Três das canções de The Chocolate Invasion – nomeadamente Supercute, Underneath the Cream e Gamillah (que conheceu lançamento pela New Power Generation) – chegaram até a conhecer edição em lançamentos limitados em CD Single. Um dos temas, You Make My Sun Sunshine, uma balada na qual participa Angie Stone, chegou a ter um teledisco filmado (embora pensado para o arquivado High).

O alinhamento é diverso nos caminhos que a música segue, não se afastando muito do corpo de trabalho de Prince na viragem do milénio, embora sem o mais vincado cunho jazzístico de The Rainbow Children, de 2001.

O álbum, tal e qual foi apresentado em 2004, seria a primeira parte de um projeto maior de sete discos que, contudo, acabou por nunca se materializar. Em 2015, embora sob um acoplamento diferente, este disco esteve disponível na plataforma Tidal.

“The Slaugherhouse”
(2004)

O dia mais produtivo da história editorial do artista não nos deu nem um nem dois, mas sim três álbuns novos de Prince. Se por um lado Musicology depois teve vida maior ao conhecer edição em suporte físico e distribuição através de uma grande editora, já os restantes dois discos lançados a 29 de março de 2004 mantiveram-se, até hoje, como peças para consumo online, originalmente lançados através do NPG Music Club e, depois, acessíveis via Tidal.

Os dois álbuns digitais que se juntam a Musicology nesse trio lançado num mesmo dia foram apresentados sob o título comum Trax From The NPG Music Club, cabendo ao segundo volume o subtítulo The Slaughterhouse (diretamente retirado do primeiro verso de Silicon, o tema que abre o alinhamento).

Tal como no volume um, e sem grandes mudanças estilísticas a entrar em cena, este volume dois de temas novos lançados pelo NPG Music Club incluía algumas faixas já antes conhecidas, já que tinham estado disponíveis no site oficial de Prince em 2001. Algumas delas, entretanto, tinham, até conhecido edição. 2045: Radical Man surgira originalmente, logo em 2001, na banda sonora de Bamboozled, filme de Spike Lee. E tanto Peace como The Daisy Chain tinham conhecido primeiras vidas em CD singles lançados por alturas da Hit’N’Run Tour.

O disco surgiu oficialmente apenas em edições digitais, representando o artwork original a sua expressão mais correta. Os restantes que podemos encontrar devem-se a bootlegs de origens diversas.

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