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Os discos de Prince que agora chegam ao ‘streaming’ (parte 4)

Texto: NUNO GALOPIM

Chegaram às diversas plataformas de ‘streaming’ mais de 20 álbuns de Prince editados entre 1995 e 2010. Está na hora de os (re)descobrirmos. Para fechar o percurso feito ao longo desta semana recordamos os que foram editados entre 2006 e 2010.

“3121”
(2006)

Depois de ter editado três álbuns em 2004 (se bem que dois deles apenas em suportes digitais e reunindo algumas canções já com algum tempo de vida), Prince passou o ano de 2005 um tanto afastado das atenções, dedicando algum dos seu tempo à criação de um disco de uma nova protegida, Támar Davis, que acabaria por não conhecer a luz do dia (tendo mesmo assim algumas cópias chegado aos circuitos do colecionismo a preços altíssimos). O silêncio era contudo aparente e, em dezembro de 2005 convocou uma conferência de imprensa na qual não só lançou um novo single – a balada Te Amo Corazón – como anunciou a edição de um novo álbum de estúdio, assim como um acordo com uma nova multinacional (a Universal) pela qual o disco teria distribuição.

Se a canção colocava em cena uma balada sem grandes surpresas face ao que havia sido o passado recente da música de Prince já o álbum, que chegaria na primavera de 2006, sublinhou o bom momento entretanto sugerido em 2004 pelo impacte de Musicology. De resto, e mesmo tendo a semana de lançamento de Musicology revelado vendas mais significativas, 3121 foi o primeiro disco de Prince a fazer uma entrada direta para o número um na lista dos mais vendidos nos EUA desde Batman, em 1989.

O álbum teve melhores momentos mediáticos nos dois singles subsequentes – Black Sweat (um dos melhores singles de Prince na primeira década do século XX) e Fury – mas na essência revelou um alinhamento relativamente canónico, não procurando distanciar-se muito daquilo que revelara em Musicology, embora abrindo mais interessantes frestas tanto na exploração de memórias como no estabelecimento de relações com os acontecimentos de então no mundo musical ao seu redor.

Sob uma matriz funk e R&B que definem o tutano central dos acontecimentos o alinhamento junta ora um piscar de olho a um modo de estabelecer pontes com a canção pop quase ao jeito dos tempos dos Revolution (em Lolita ou Fury) como trabalha, em Black Sweat, uma forma de repensar relações com o electro (reativando ecos de memórias da alvorada dos oitentas) num quadro funk, traduzindo a produção e o trabalho vocal marcas de contemporaneidade que evitam a mera citação nostálgica. Num quadro mais minimalista ainda Love define outra abordagem angulosa às eletrónicas e a memórias remotas da obra de Prince na passagem dos setentas aos oitentas.

Outra evidência dos “sinais dos tempos” surge em Incense and Candles, canção que recorre ao trabalho com auto-tune no processamento da voz de Prince. Já em The World (que depois com Black Sweat é o outro momento maior deste disco) desenha uma outra forma de pensar o modelo da canção romântica, escapando aos modelos R&B para definir entre ambientes desenhados a teclas e o calor de uma guitarra acústica um dos episódios mais saborosos (e com sabor a surpresa) no alinhamento deste disco.

De Támar temos aqui a memória de uma participação no pouco surpreendente Beatutiful, Loved and Blessed.

Sobre o título do álbum muito se especulou. Se por um lado traduzia o número pelo qual se identificava a residência californiana de Prince (na qual foi dada uma festa de lançamento do disco à qual foram convidados fãs que encontraram convites na linha dos golden tickets de Willy Wonka), por outro pode significar também que este é o 31º álbum de Prince e que foi editado no dia 21 (de março)…


“Planet Earth”
(2007)

Os álbuns Musicology (2004) e 3121 (2006) tinham devolvido Prince a um patamar de atenções (e de vendas de discos) como não conhecia desde meados da década de 90. O passo seguinte seria musicalmente dado num patamar relativamente próximo, se bem que algo mais focado num relacionamento mais evidente com a guitarra e linguagens do rock. Chamou-lhe Planet Earth e, embora não repetindo nem a aclamação nem a popularidade desses outros discos, assinalou um momento em que a sua visibilidade sublinhou esse bom momento que estava a atravessar após de uma relativamente discreta época vivida logo após a viragem do milénio.

Planet Earth está longe de ser a melhor coleção de canções de Prince, juntando alguns temas de fina estampa a outros de pura manutenção… O disco tem na imponente faixa de abertura – a que dá precisamente o título ao disco – o seu melhor momento, conhecendo outros momentos dignos de interesse no fulgor pop (se bem que sem a aura gourmet das canções à la Revolution, em The One U Wanna C ou Resolution, tal como no mid tempo de For All The Midnights ou Lion Of Judah. Segue-se um menos interessante episódio mais vincado na eletricidade em Guitar (com arranque que lembra até os U2 de primeira fase) e algumas baladas sem particulares argumentos além dos mais habituais na sua obra pós-90 em Somewhere Here On Earth ou Future Baby Mama. Mais interessante é depois o suave flirt com uma pose falada (mas sem construção instrumental de raiz hip hop) de Mr Goodnight. Ou o breve balie para funk e disco em Chelsea Rodgers.

Guitar foi o único single extraído do álbum, mas fez carreira bem aquém de outros recentemente editados. Planet Earth não foi contudo um insucesso. E de resto representa mais um caso de boas opções empresariais para Prince. Tal como sucedia com os seus discos desde o final dos noventas Prince gravou-o à sua conta, negociando com uma grande editora a sua edição, cabendo desta vez a distribuição à Sony Music.

No Reino Unido o disco foi contudo distribuído com uma edição do Daily Mail, negócio pelo qual Prince arrecadou mais do que o que então conseguiria com um avanço com uma editora. O jornal vendeu em números como não conhecia desde a morte da princesa Diana. A operação só não foi verdadeiramente rentável dado os gastos com a promoção deste lançamento. Mesmo assim é mais por esta operação de distribuição do que pelo seu corpo de canções que Planet Earth ganhou um lugar de destaque na discografia pós-milénio de Prince.

O impacte desta distribuição gratuita no Reino Unido abriu portas para uma residência de 21 datas na O2 Arena, que representou uma das série de concertos mais bem sucedidas da carreira de Prince. Nos EUA afirmou outro episódio de grande mediatismo ao fazer a atuação no intervalo da edição desse ano da Superbowl onde apresentou um alinhamento cheio de memórias dos tempos de Purple Rain mas que abriu apetites para a chegada de Planet Earth.

O modelo de distribuição no Reino Unido trouxe contudo alguns dissabores a Prince com lojas de discos locais a protestar, o que terá levado a que a editora não o tivesse ali distribuído, mantendo contudo os planos da sua edição no resto do mundo. Nos EUA chegou ao número 3 na tabela da Billboard.

“Indigo Nights”
(2008)

Em 2007 Prince fez uma residência de 21 noites na O2 Arena, em Londres. Depois das atuações ao vivo apresentou frequentemente festas ‘aftershow’ que decorreram no indigO2, um espaço associado à grande arena no qual, num palco mais pequeno, se entregou quer à recordação de grandes clássicos seus como à apresentação de versões, jams e até mesmo inéditos.

Este álbum ao vivo, que em suporte físico foi unicamente distribuído juntamente com o livro de fotografias 21 Nights que serviu de documento visual daquela residência londrina, representa um conjunto de memórias desses concertos ‘aftershow’ no indigO2.

Há aqui grandes êxitos da carreira de Prince como Girls & Boys, Delirious ou Alphabet Street, versões de Rock Steady, de Aretha Franklin, chamando a palco Beverley Knight ou Whole Lotta Love, dos Led Zeppelin, e até mesmo dois inéditos: Beggin’ Woman Blues e Indigo Nights. Entre algumas canções toma o microfone para falar, satirizar ou apenas mobilizar a plateia à sua frente. É, talvez, o seu mais entusiasmante disco oficial ao vivo.

“MPL Sound”
(2009)

A edição simultânea de três discos distintos sob uma capa comum fez de Lotusflow3r/MPL Sound o lançamento mais ambicioso de Prince desde a etapa final dos anos 90, quando discos como o triplo álbum Emancipation (1996) e o quádruplo The Crystal Ball (1998) deixaram claro que nem sempre era impossível (ler inviável) acompanhar discograficamente o invulgar ritmo de trabalho em estúdio de Prince. O triplo CD então lançado não era contudo um disco único (tal como sucedera com The Crystal Ball). E juntava a um disco que nem era seu – Elixer, da sua mais recente protegida Bria Valente – dois novos álbuns através dos quais propunha novas expressões de dois dos terrenos mais centrais à sua obra. E se a Lotusflow3r cabia o papel de ser terreno de investigações pop/rock com a guitarra como elemento protagonista, em MPL Sound encontrávamos o álbum mais próximo da matriz funk que definira a obra essencial de Prince nos oitentas, o que não quer contudo dizer que o conjunto de canções esteja ao nível daquilo que então ia revelando nos seus discos.

Se bem que sob novas visões possíveis no modo de encarar o seu próprio registo vocal, recorrendo mesmo a novas ferramentas de manipulação, MPL Sound é um disco que convoca heranças e memórias. O disco parece pensado para retomar os ambientes e modelos que em tempos tinham gerado os maiores entusiasmos que a obra de Prince colhera na década de 80, parecendo haver aqui clara vontade em encontrar um herdeiro direto para os tempos de Parade, Sign ‘O’ The Times ou Lovessexy. Não faltam por isso exemplos de diálogo entre o formato da canção pop e arquiteturas rítmicas funk, uma presença evidente de teclados de travo vintage e não faltam sequer as baladas de alma r&b. Nem momentos de festim ao jeito dos tempos com os Revolution, como se escuta em No More Candy 4 U, que fecha o alinhamento.

Sem surpresa foi do alinhamento de MPL Sound que surgiram os singles extraídos deste lançamento triplo, tendo a aposta recaído sobre Better With Time (balada que lembra as formas de The Arms of Orion), Dance 4 Me e U’re Gonna C Me (que tinha já surgido, numa outra versão, no disco ao vivo One Nite Alone)… Curiosamente ficou de fora desta seleção Chocolate Box, uma das mais pungentes composições de Prince nesta etapa, criada num plano de diálogo entre a pop e o funk e, de todo o alinhamento, a quem mais bem expressa as pontes entre as memórias aqui convocadas e o presente. Um outro exemplo evidente destas pontes entre o passado e o momento em que o álbum surgiu ouve-se em Ol’Skool Company que parte de uma estrutura simples e repetitiva para recuperar ecos do minimalismo de algumas canções que tinham feito história na segunda metade dos oitentas, de diferente juntando uma abordagem vocal que assimila a presença do rap.

Sem incluir episódios como os que pontualmente sobressaíram dos alinhamentos de Musicology ou 3121, MPL Sound foi mesmo assim o álbum mais acessível e potencialmente sedutor que Prince editou em muitos anos. Um complemento às visões desafiantes de Lotusflow3er, portanto.

“Lotusflow3r”
(2009)

O ritmo de edições discográficas de Prince nunca acompanhou a sua criação, tanto que não se sabe exatamente qual será o volume de material inédito que o músico terá deixado no célebre arquivo ao qual chamou “the vault”… A possibilidade de alargar os alinhamentos dos seus discos para lá do espaço mais habitual do LP e, mais tarde, do CD, levaram-no a lançar em algumas ocasiões álbuns duplos, triplos e até mesmo, com The Crystal Ball, um disco quádruplo… Depois de um momento menos intenso vivido nos tempos mais próximos da viragem do milénio, o retomar de um relacionamento mais próximo com o seu público – mesmo não repetindo nunca mais os patamares vividos nos oitentas e no início dos noventas – fê-lo certamente sentir a confiança necessária não só para se desafiar artisticamente (e as incursões pelo jazz foram uma das possíveis expressões desse estado de alma) como para procurar também criar discos entre os quais lançasse canções que mantivessem intactos e fortes os elos que o ligavam ao grande público. Por outras palavras, ao desejo em experimentar aliou novamente uma vontade em trabalhar a criação de canções capazes de encontrar um lugar importante nas vidas de quem as escutava. E não foi por acaso que, depois de 2004, voltou a assinar episódios de sucesso com Musicology (2004), 3121 (2006) e Planet Earth (2007). É neste clima que, em 2009, após o hiato de mais de um ano sem apresentar um álbum de inéditos em estúdio, Prince regressa aos discos em 2009 com um novo disco triplo.

Na verdade a edição que surgiu fisicamente como um triplo CD sob o título Lotusflow3r/MPL Sound não corresponde exatamente a um triplo álbum, mas a um trio de álbuns. Ou seja, junta três discos sob um pacote comum. Um deles, Elixer, nem era um disco seu, mas, antes, o disco de apresentação de uma nova protegida sua, Bria Valente. Os dois restantes discos deste pack triplo mostravam perfis diferentes. E se MPL Sound representava um reencontro com a matriz funk de outras aventuras suas de outrora, em Lotuwflow3r Prince registava um novo disco no qual as guitarras e as formas da canção pop/rock eram as protagonistas.

As heranças de Jimi Hendrix, que habitam alguns outros momentos da obra de Prince, têm aqui uma projeção mais notória do que nunca num alinhamento que, apesar de irregular, inclui alguns dos melhores momentos que a obra de Prince conheceu na primeira década do século XXI. O alinhamento mostra contudo versatilidade nas formas musicais visitadas, piscando por vezes o olho a terrenos lounge com um certo travo jazzy, como se escuta em From The Lotus…, o instrumental que abre o disco, ou em Love Like Jazz. Em 77 Beverly Park ouve-se o que parece ser uma guitarra portuguesa, sendo porém a abordagem melódica algo que tem tanto de fado como de tempero mediterrânico (em domínio italiano). Crimson and Cover é, por sua vez, um dos melhores temas pop/rock de Prince na sua obra pós-Revolution.

Alguns dos temas foram surgindo em emissões de rádio ou online em 2008. E foi só após ter encontrado um modelo de distribuição que, já em 2009, Prince apresentou o CD triplo em formato físico. Contrariamente ao que vinha a acontecer com muitos dos seus discos desde finais dos anos 90, desta vez a edição não coube a uma grande editora multinacional nem teve sequer expressão global.

Foi através da pequena etiqueta norte-americana que Lotuwflow3r/MPL Sound chegaram às lojas (apenas nos EUA), num lançamento com um preço ultra-convidativo, que muito possivelmente terá contribuído para que alcançasse o número dois na tabela de vendas norte-americana.

“20Ten”
(2010)

Três anos depois de uma experiência de distribuição do álbum Planet Earth através da edição de um jornal – aconteceu no Reino Unido, com o The Mail on Sunday, alavancando vendas do periódico em mais de seiscentos mil exemplares nesse dia – Prince voltou a tomar esse modelo como o destino para um novo álbum de estúdio. E assim, depois de alguns problemas ocorridos com o cumprimento de algumas promessas e também pagamentos ligados ao site lotusflow3er.com, Prince deixava de lado os seus créditos como tendo sido um dos primeiros músicos do seu calibre a apostar na distribuição de música online apresentando um disco com edição exclusivamente em suporte físico (em CD), mas com edição estritamente fechada a propostas de venda com jornais e revistas. Ou seja, o seu novo disco nem estaria acessível na Internet nem nas lojas de discos. Assim se fez… E em 20Ten surgiu assim um disco que acabou por passar a leste de muitas atenções.

Apresentado um ano após o tríptico lançado no pack que incluía Lotuwflow3er e MPL Sound, o novo disco seguia as pistas retro já sugeridas pela criação deste último, embora apontando desta vez as atenções a um patamar de relacionamento entre a canção pop, as dinâmicas do funk e um a presença destacada do trabalho com sintetizadores como acontecera em inícios dos oitentas, pela altura em que apresentou o duplo álbum 1999.

Apesar de não parecer muito interessado em explorar potenciais pontes entre esses ecos e eventuais espaços de diálogo com formas musicais ou demandas mais contemporâneas na obra do próprio Prince, 20Ten é um disco que não merece, contudo, as doses de pancada que então colheu. Menos interessado em explorar a pulsação funk que habitara as canções de MPL Sound, sem todavia as fazer sair de cena, as canções de 20Ten alternam entre momentos de claro reencontro com a canção pop – como se escuta em Compassion ou Sea of Everything – e uma série de baladas na linha mais clássica das que Prince sempre criou, tendo uma delas, Future Soul Song, representado o único tema do álbum que então circulou entre os alinhamentos dos concertos de então. Em Everybody Loves Me, faixa que surge após um hiato de silêncio no fim do alinhamento, sugere um flirt entre o funk eletrónico de Prince e uma visão assimilada de um rap, Prince fala de um Yoda púrpura… E em Lavaux há um detalhe de interesse para os admiradores portugueses de Prince já que, na letra, refere explicitamente uma passagem pelas ruas de Portugal.

Com uma vida fechada a uma distribuição com o Daily Mail (no Reino Unido, salvo na Escócia, e na Irlanda), o Daily Record (na Escócia), o Courrier International (na França), a Rolling Stone (na sua edição alemã) e ainda o Het Nieuwsblad (na Bélgica), 20Ten circula hoje entre o circuito do colecionismo, embora longe de atingir os valores de algumas outras suas edições igualmente raras.

PS. Vale a pena notar que os parceiros de distribuição foram todos eles jornais e revistas europeus, o que diz muito sobre a expressão geográfica do sucesso de Prince por aquela altura na sua carreira.

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