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Começar a ‘rentrée’ com novas gravações de obras de John Adams

Texto: NUNO GALOPIM

De uma assentada chegam ao mercado dois novos lançamentos. Um junta duas obras de música orquestral. O outro apresenta, depois de duas edições em vídeo, uma primeira versão em disco da ópera de 2005 “Doctor Atomic”.

Foto: Vern Evans

Quando uma obra sobrevive às apresentações associadas às encomendas que as fizeram nascer, quando conhece uma segunda gravação em disco, quando começa a ouvir-se aqui e ali, por esta e aquela orquestra, os sinais são claros quanto à sua capacidade de resistir ao tempo. Os dois discos com música de John Adams que acabam de surgir no mercado são, por isso, mais argumentos em favor da solidez presente e futura de uma obra que, ninguém duvida já, representa um dos espaços mais marcantes da música do nosso tempo.

Estreada quase na viragem do milénio Naïve and Sentimental Music é uma das mais belas obras de música orquestral do compositor norte-americano John Adams. Peça em três andamentos, faz suceder a um primeiro, que expressa as demandas de uma escrita sinfónica que experimentara em várias ocasiões nos anos 90, um segundo no qual cabe ao dedilhar de uma guitarra amplificada a discreta condução de acontecimentos num espaço que tanto convoca um certo lirismo orquestral como noções de espaço que, depois de Brian Eno, nos habituámos a descrever como ‘ambient’… O desfecho da obra chega num terceiro andamento no qual John Adams convoca ecos das linguagens mais próximas do minimalismo que explorara na década de 80. Estreada em 1999 em Los Angeles sob direção de Esa Pekka Salonen, teve então primeira vida em disco precisamente com a Los Angeles Philharmonic, num lançamento de 2002 pela Nonescuch. Esta nova gravação, pela Royal Scottish National Orchestra, dirigida por Peter Oundjian, com o guitarrista Sean Shibe como solista, contribui para a junção de mais uma obra de Adams ao cânone da grande música orquestral do tempo em que vivemos. E fá-lo num disco, lançado pela Chandos, que partilha alinhamento com um caso ainda mais recente na obra do compositor.

Inspirada nos scherzos dos últimos quartetos de cordas de Beethoven, tendo divido opiniões na sua versão original, Absolut Jest (estreada em 2012), representa uma reflexão contemporânea e claramente marcada pelos pontos de vista de John Adams sobre ecos dessas memórias. Um pouco como Nyman fez com Mozart em Drowning By Numbers e In Re Don Giovanni ou Glass com Bowie nas sinfonias inspiradas nos álbuns Low e Heroes, Adams escuta e integra na sua música ecos da escrita de outros, refletindo sobre esse material musical mas sob o seu prisma. Neste caso escuta a música de Beethoven, promovendo em alguns instantes momentos em que essa matéria prima original quase parece irromper entre a escrita para orquestra e quarteto de cordas – neste caso concreto o Doric String Quartet -, como que se o passado que inspira se quisesse materializar entre o presente onde a nova criação está a acontecer.

A este disco de música orquestral a discografia de John Adams acaba de juntar mais um título, que corresponde à gravação em áudio de uma ópera que, até aqui, tinha conhecido já duas edições, embora apenas em suporte de DVD e Blu-ray (uma delas, correspondendo a uma produção do Met, tendo inclusivamente sido premiada com um Grammy). Trata-se de Doctor Atomic, estreada em 2005, e que correspondeu então a mais uma clara incursão temática de John Adams pelos espaços do mundo político do século XX. Assim, depois de ter explorado a histórica visita de Richard Nixon à China em 1972 em Nixon In China (de 1987) e o sequestro do Achillie Lauro em The Death Of Klinghoffer (1991), Doctor Atomic tomava como centro da ação os instantes que antecederam a detonação do primeiro teste para uma bomba atómica, em Los Alamos, em Julho de 1945.

Tal como em experiências anteriores focadas sobre o real, John Adams – acompanhado por Peter Sellars, que assina o libreto – procurou figuras reais para recriar uma história que aqui corre entre o desenrolar dos factos e frequentes olhares interiores dos protagonistas. Musicalmente esta é uma herdeira natural de uma série de preocupações centrais à obra do compositor, justapondo traços herdados de uma tradição americana que remonta a Ives e Copland, não abdicando de marcas assimiladas de experiências mais próximas do minimalismo, ambos os terrenos contribuindo para a definição de climas de contemplação e ansiedade entre uma verdadeira coleção de medos.

O primeiro ato leva-nos à base em Los Alamos, já em contagem decrescente para o primeiro teste da bomba atómica, debatendo-se questões estratégicas, técnicas e éticas. O tempo avança e a explosão está cada vez mais próxima, a música e o jogo de personagens traduzindo uma tensão que se acumula e assombra todos os envolvidos.

Esta edição em disco, pela Nonesuch, parte de gravações registadas em 2017 com a BBC Symphony Orchestra, dirigida pelo próprio John Adams. Gerald Finley dá voz a Robert Oppenheimer, o protagonista, cabendo o papel de Kitty Oppenheimer a Julia Bullock.

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