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Uma ópera rock em 2018? Porque não?

Texto: NUNO GALOPIM

O novo álbum dos norte-americanos The Lemon Twigs é uma delícia para quem gosta de saborear ecos das óperas rock dos anos setenta, memórias que aqui servem a história de um chimpanzé que tenta frequentar uma… escola.

Numa sociedade que vive obsessivamente o novo podemos encontrar quem saiba achar motivos para entusiasmo no que já foi novo em outros tempos. É o caso dos irmãos D’Addario, jovens talentosos multi-instrumentistas de Hicksville (no estado de Nova Iorque) que gostam de juntar em torno da sua música memórias que podem passar pelos Beatles (sobretudo de última fase), os Beach Boys e heróis vários do rock dos anos 70… Depois de uma primeira cassete editada em 2015 e de um álbum (Hollywood) que lhes deu visibilidade nos circuitos indie em 2016, eis que vincam esta sua vontade em contrariar as tendências do presente ao apresentarem um segundo álbum que parece chegado de outras eras…

Se muitos artistas vivem hoje a canção como peça prioritária na comunicação da sua música, mostrando muitos dos álbuns que depois editam pouco mais do que uma soma dessas canções (muitas vezes com algum puré de batata pelo meio), então os Lemon Twigs resolveram fazer algo completamente diferente… e antigo: um álbum concetual. Go To School junta um conjunto de canções que contam a história de um chimpanzé que, depois de adotado por um casal de humanos, tenta enquadrar-se no espaço de uma… escola.

Se na estrutura e arranjo narrativo há aqui uma lógica de “álbum” de facto – aquela coisa do conjunto de canções que se arrumam, ou seja, desaconselhando o comandozinho “random order” para apresentar uma narrativa com principio meio e fim, e por esta sequência – já nas formas musicais encontramos, além das referências habituais, um tom eloquente nos arranjos e nas linhas vocais que evoca o terreno da ópera rock dos setentas. De resto, e logo na capa, fica bem claro que o que ali se vai escutar é um “musical”… Se isto não bastasse há ainda entre os ingrediuentes em jogo as participações de Todd Rundgren, de Jody Stephens (dos Big Star) e da mãe dos dois manos D’Addario…

É claro que, com evidente gosto por percursos entre memórias e até mesmo de citações, Go To School não é um mero pastiche do rock dos sessentas e setentas. De resto, ao escutarmos The Student Becomes The Teacher (uma das canções mais incríveis do álbum) sentimos ecos dos noventas, nomeadamente no comprimento de onda das revisitações de heranças dos setentas que os Suede fizeram nos seus primeiros tempos. Na verdade, as incursões pelo passado acabam sempre por traduzir não apenas a fonte distante das memórias mas a história do tempo que passou… E essa navegação entre tempos e recordações, juntamente com a complexidade dos arranjos, o rigor da execução e o farto sentido de humor que por aqui corre, são alguns dos motivos que tornam tão saboroso este disco. Um disco que, por tão distante do que hoje se faz, pede algum tempo e esforço de habituação. A coisa depois sai compensada… Sim, dar tempo aos discos é também coisa de outros… tempos…

“Go To School”, dos Lemon Twigs, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da 4AD Records. ★★★★

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