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Revisitar George Michael em quatro discos

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

O documentário autobiográfico passou no Cinema São Jorge, integrando a programação do Queer Lisboa. E por isso recordámos aqui discos que recordam momentos importantes da sua obra.

“The Final” – Wham!
(CBS, 1986)

A vida dos Wham! esgotou-se em cinco anos anos… Nasceu, em 1981, de um novo passo em dois colegas de escola que, depois de terem colaborado com uma banda de ska, avançaram a dois sob um encantamento por heranças da soul, do funk e uma curiosidade pelo emergente rap… Em 1982, a estreia em single com Young Guns (Go For It) mostrava estes ingredientes assimilados numa matriz pop festiva, de digestão fácil e sob uma imagem de apelo hedonista para consumo teenager. Num ápice estavam sob as atenções. E em 1983 o álbum Fantastic! reforçava o que o single sugerira, transportando-os para um plano competitivo entre uma nova geração de bandas pop britânicas que então viviam a descoberta de uma nova relação com um outro veículo que seria determinante também para a exposição da música (e da imagem) dos Wham!: o teledisco.

Depois de um diferendo com a Innervision – a editora que os representara até então – viram-se, chegados a 1984, no catálogo de uma grande multinacional: a CBS. E, com todas as possibilidades pela frente, afinam a sua visão pop segundo heranças pop e R&B dos sessentas, fazendo de Wake Me Up Before You Go Go o cartão de visita para Make it Big, álbum que os elevou a um estatuto de popularidade global. E global é mesmo a palavra já que, em 1985, chegaram a ser a primeira banda pop ocidental a atuar ao vivo na China. Sob o peso de um estatuto de gigantismo maior ainda deram um novo passo com o single I’m Your Man (1985). E quando se pensava que haveria um passo seguinte, em 1986 anunciam um ponto final, que se justifica pela vontade do vocalista e compositor em passar a trabalhar para um público mais adulto e de gosto mais sofisticado. E é verdade que, para o mercado teenager para o qual estavam apontados como Wham!, as perspetivas de futuro não poderiam adivinhar muitos mais episódios além dos que o curto prazo pudesse colocar imediatamente pela sua frente. The Final, uma antologia de singles lançada praticamente ao mesmo tempo do que o EP de despedida The Edge of Heaven, contava a história até então. E era feita de grandes canções pop.

“Faith”
(1987)

Pouco mais de um ano depois de ter esgotado a lotação do londrino Estádio de Wembley para dizer adeus aos Wham! (e, no fundo, a um primeiro ciclo na sua vida como compositor e intérprete), George Michael editava, no outono de 1987, um primeiro álbum a solo. Na verdade já se esperava por este momento desde que, em 1984, editara Careless Whisper como single a solo, ao qual se seguira A Different Corner em 1986 e, em inícios de 1987, I Knew You Were Waiting For Me, um dueto com Aretha Franklin. Contudo, nenhum destes “aperitivos” constou no menu de Faith, o seu primeiro álbum.

Coube a I Want You Sex, um belíssimo exemplo de uma pop atenta ao Prince minimalista de meados dos oitentas, a tarefa de ser cartão de visita para a esperada estreia. O single gerou controvérsia, houve até quem o retirasse do ar (o mesmo tinha acontecido a Relax, dos Frankie Goes To Hollywood, mas o feitiço voltou-se contra os feiticeiros e o tema acabou mesmo como uma das canções mais emblemáticas da pop do seu tempo). I Want Your Sex não teve todavia o mesmo destino. Não foi o maior êxito do músico nem é sequer um dos seus singles mais evocados quando chega a hora de evocar a sua obra através das suas canções.

Mas era mesmo a melhor canção de Faith, álbum que voltava a visitar uma relação bem ginasticada com os métodos de uma dança assimilada a partir de matrizes funk em canções como Hard Day ou Monkey, que revelava mestria profissional na composição de baladas para produção de baladas sumptuosas como Father Figure ou One More Try, experimentava (com bons resultados) um flirt jazzy em Kissing A Fool e registava no tema título uma pequena pérola pop (com ecos de Freedom dos Wham! logo nas primeiras notas), este acabando por ser o single mais icónico gerado pelo alinhamento do disco.

“Listen Without Prejudice (Volume 1)”
(1990)

Três anos depois de Faith um álbum de estreia que se transformara sem surpresa num fenómeno de popularidade com expressão global, acompanhado por de uma extensa digressão que correu mundo, George Michael sentiu que era chegada a hora de mudar o jogo. E, tal como em 1967 Scott Walker definiu o momento em que resolveu caminhar para além do que era o terreno que lhe dera visibilidade entre um público essencialmente juvenil, foi com um álbum que disse a todos: este sou, afinal, eu. E daí em diante seguiu outro camimho.

Foi com Listen Without Prejudice – Volume 1 que a reviravolta se deu. E o título lança logo todo um programa de significados que depois a música e as estratégias de edição justificariam. Ali canções como Praying For Time (apresentada como primeiro single), Waiting For That Day, o “beatlesco” Heal The Pain ou o mais jazzy Cowboys and Angels apresentam uma faceta mais sóbria, o que não impede que um festim pop ali possa ganhar forma, o que de resto acontece com Freedom 90 (o “90” servindo essencialmente para que se não confunda com a canção dos Wham!) que de resto se afirmaria depois como um dos mais fortes momentos da obra a solo de George Michael. Mas não era só na música que o jogo mudava. Contra o que era o seu hábito até então, o cantor resolveu ser firme na expressão da imagem. E, sublinhando a ideia de que era chegada a hora de ouvir e não de ver, recusou surgir nos telediscos promocionais e na capa do próprio disco.

O disco não repetiu o sucesso de Faith nas vendas, mas com o tempo ganhou um estatuto de reconhecimento mais sólido. A verdade é que na hora de pensar um segundo volume, as opiniões de quem o editava não foram as mais favoráveis, pelo que a ideia nunca se chegou a materializar, sendo o conflito ali nascido um dos possíveis gatilhos do mal estar que culminaria com a saída da editora (e justificaria parte do silêncio que separaria este álbum do seguinte Older, que surgiria em 1996).

“Older”
(1996)

A primeira canção que surgiu após o primeiro hiato na carreira discográfica de George Michael não só sublinhava a viragem para uma identidade musical mais “adulta” sugerida pelo álbum de 1990 como guardava um segredo (que só depois seria desvendado). Dedicada a um companheiro que morrera vítima de sida, Jesus To a Child apresentou um álbum ao qual chamou Older, título que sugere todo um conjunto de implicações. Mais tarde a história por detrás da canção ganhou um valor identitário quando o músico falou publicamente da sua sexualidade. Depois da sua morte soube-se que tinha doado os direitos da canção à Childline.

Editado em 1996 Older sublinha a maturação da pose, do canto e da escrita já sugerida no álbum Listen Without Prejudice, de 1990, mas agora num tempo de pacificação da vida pessoal. Durante o período de silêncio discográfico George Michael enfrentara uma batalha judicial e conseguira mudar de editora. Older representava a estreia em nova casa e revelava o interesse em explorar outros caminhos na música.
Spinning The Wheel, o terceiro single extraído do alinhamento do álbum é um dos mais interessantes flirts entre a escrita pop de George Michael e heranças do jazz, num tema que na verdade tem coautoria de Jon Douglas. A canção, que só não chegou ao número um no Reino Unido porque lá estavam as então imbatíveis Spice Girls, é uma entre as várias abordagens do músico a questões comportamentais, falando de promiscuidade, contribuindo para um alerta quanto à possibilidade de infeção pelo VIH.

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