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Sentir o pulso da América numa viagem de comboio

A ideia de um ciclo de canções, que passa historicamente por compositores como Schubert ou Mahler ou, mais recentemente, Philip Glass ou Wim Mertens, tem conhecido nos últimos tempos expressões interessante em espaços que ignoram as fronteiras entre as formas populares e os terrenos da música a que alguns chamam “erudita”… De um álbum como Hee Poos Clouds de Owen Pallett (quando ainda editava sob o nome Final Fantasy) ao mais recente ciclo centrado no sistema solar criado em conjunto por Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James MacAllistair, o mapa da música do século XXI tem acolhido uma série de experiências concetuais algures neste terreno. Apesar de apresentados numa forma de álbum, estes conjuntos de canções são mais do que um mero alinhamento de temas. São um corpo estética e tematicamente coeso, ordenado, com um sentido de corpo maior. E é precisamente isso o que encontramos no belíssimo novo disco de Gabriel Kahane.

Compositor norte-americano nascido na Califórnia em 1981 e hoje residente em Nova Iorque, Gabriel Kahane tem uma obra que passa já pela música orquestral, de câmara, instrumental (para piano) e vocal, tendo editado já alguns discos e colaborado, como arranjador com vários outros músicos, entre os quais, e em mais do que uma ocasião, Sufjan Stevens.

Diferente dos seus mais recentes discos, até porque aqui centra essencialmente o trabalho na relação da voz com o piano, o novo Book of Travellers é não só um momento maior na obra de Kahane como traduz, tal como o álbum que Marc Ribot lançou esta semana, sinais de um tempo de preocupação perante o rumo dos acontecimentos em solo americano. As canções têm alma autoral claramente demarcada na escrita e na interpretação e nelas há por vezes algo de Nick Drake, porém com o piano no lugar da guitarra (embora sem o mesmo veludo na voz). As palavras surgiram de conversas que Kahane teve com outros passageiros em viagens de comboio pelos EUA por alturas da eleição de Donald Trump. É entre as conversas com estranhos, numa viagem que o músico fez sem telefone nem Internet, que emergem as ideias, figuras e imagens que depois a escrita assimila e que ganham depois forma em canções que podem não ser de assimilação imediata, mas que nos convidam a regressar…

“Book Of Travellers”, de Gabriel Kahane, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Nonesuch ★★★★


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