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Um retrato “fofinho” de uma figura que tinha mais para nos contar

Texto: NUNO GALOPIM

Um documentário sobre Quincy Jones olha o presente de um mito vivo da música americana e junta memórias que traçam um retrato de episódios marcantes. O contraste com o tom de uma entrevista recente deixa, contudo, questões em aberto. O que pensa, afinal, Quincy daqueles com quem trabalhou?

Não será invulgar ver quem responda, perante uma pergunta sobre quem é Quincy Jones, que foi produtor de Michael Jackson. Foi-o de facto. Dos álbuns Off The Wall, Thriller e Bad. A “santíssima trindade” que dele fez um ícone de dimensão planetária. Não será Quincy, o documentário que a Netflix acaba de lançar, o guia mais arrumado para nos contar a obra de um vulto nascido no jazz cuja obra se estendeu a outros espaços da música e que aos discos e aos palcos soube ainda juntar um importante trabalho no cinema. Mesmo assim o filme realizado por Rashida Jones (uma das filhas do músico) e Alan Hicks (que antes fez um outro documentário sobre Clark Terry) pode abrir horizontes e, sobretudo, semear curiosidade em saber mais.

Quincy não nos quer contar uma história “era uma vez” da carreira de Quincy Jones. Com o presente como patamar de referência – assistindo assim a graves problemas de saúde, a reuniões de trabalho, a uma intensa agenda de viagens e à produção do concerto inaugural do museu da Smithsonian dedicado à história e cultura afro-americana – o filme desenha frequentes incursões pelo passado que assim juntam dados factuais e musicais à narrativa. Incursões que tanto surgem na forma de uma conversa com Dr. Dre (na qual conta o que foi crescer em Chicago nos anos 30) como em incursões por imagens de arquivo que lembram os seus primeiros passos profissionais e episódios fulcrais que passam por uma longa digressão europeia nos anos 50, a colaboração com Frank Sinatra, uma etapa como editor discográfico nos anos 60, a criação do clássico It’s My Party de Leslie Gore, a produção do filme The Wiz, a parceria com Michael Jackson ou o trabalho com Spielberg em A Cor Púrpura… Ao mesmo tempo há entre as imagens olhares captados na intimidade que sugerem uma dimensão que concilia azáfama de workaholic, alcoolismo e conturbadas histórias no plano familiar.

O “elenco” de figuras que passam pelo ecrã é impressionante. No fundo tão impressionante quanto o foi a lista de nomes com quem Quincy Jones foi trabalhando ao longo da sua vida. Colin Powell, Ophrah Winfrey, Mary J Blige, Lady Gaga, Tom Hanks, Herbie Hancock, Al Jarreau, John Legend, Paul McCartney… Sim, a lista é enorme e impressionante…

Mas porque fiquei eu com uma sensação de algum desconforto depois de ver o filme?

Por um lado há na narrativa demasiadas marcas de condimentação hagiográfica que endeusa o protagonista. É só sorrisos… É tudo lindo! Até as desgraças servem para alindar mais ainda, pelo contraste, os feitos alcançados… Mas depois, ao ler a entrevista que recentemente deu à Vulture (aqui) ficamos a conhecer um Quincy Jones que, ao invés daquele que elogia Michael Jackson e sorri ao lado de Paul McCartney no filme, os descreve com palavras demolidoras (mais aos Beatles do que a McCartney, na verdade). Há um Quincy Jones zangado, amargo, de palavras aguçadas e cortantes, crítico e incisivo, que o filme deixa de fora. Teria dado mais fulgor ao filme. Mas também, depois, mais telefonemas irados dos visados… Pelo que de Quincy o melhor é tirarmos algumas notas sobre a sua história e, caso não se conheça os seus discos, partir depois à sua descoberta. Porque esses, garantidamente, valem mesmo a pena.

Quincy, de Rashida Jones e Alan Hicks, está disponível na plataforma Netflix.

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