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26. Raymond Scott (1964)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1964 e representou uma das primeiras experiências de música eletrónica fora dos universos das vanguardas. De resto há aqui sugestões que mais tarde surgiriam quer no krautrock quer na pop eletrónica.

Pioneiro da música eletrónica, o norte-americano Raymond Scott (1908-1994) teve uma carreira na música que o fez caminhar por outros sons e visões antes de, em 1946, ter criado uma companhia – a Manhattan Research Inc – que dedicou à criação de novos instrumentos eletrónicos e à exploração do potencial musical dos sons com eles criados. Formado na Juilliard School of Music em 1931, começou por trabalhar na banda de uma estação de rádio, criando depois um grupo e até mesmo uma big band, dedicando então a sua atenção aos terrenos do jazz. No final da década de 58 trabalhou como A&R de uma editora e assinou trabalhos de produção. Mas desde cedo, ainda nos tempos em que trabalhava na rádio, o seu interesse pelo estúdio, pelos modos de captar som e pela busca de novas alternativas para encontrar soluções definiram um desejo que só depois da II Guerra Mundial começou a ganhar forma.

Através da Manhattan Research Inc conduziu trabalhos de construção de instrumentos – como o Clavivox e o Electronium – juntando assim à sua formação musical outros sonhos que possivelmente começaram a emergir quando fez o secundário numa numa escola técnica em Brooklyn. Aos instrumentos juntou um interesse pela criação da música que deles pudesse emergir. Era uma música diferente de tudo o que até ali experimentara e que, longe do jazz pelo qual fizera o início de carreira, procurava antes soluções de um melodismo mais próximo da canção popular.

E é entre o tom visionário da experiência e a busca de formas de explorar linhas melódicas simples que, em 1964, lança um conjunto de três LP a que chama Soothing Sounds For Baby, com cada um dos três volumes dedicados a uma etapa no desenvolvimento dos bebés. O volume 1, com linhas mais simples, essencialmente focado na exploração de padrões repetitivos, era dedicado a bebés até aos seis meses. Depois, com propostas cada vez mais complexas (nas melodias e na justaposição de acontecimentos adicionais às linhas repetitivas principais), seguia-se um volume 2 para bebés de 6 meses a um ano e, ainda, um volume 3 para bebés de 12 a 18 meses.

Criado em conjunto com o Gesel Institute of Child Development, o disco visava dotar os tempos de brincadeira, refeição e sono com um fundo musical. Passou longe das atenções como, de resto, aconteceria com muitas das outras criações eletrónicas de Raymond Scott até à chegada de uma série de lançamentos póstumos que recordaram a sua obra e justamente inscreveram o seu trabalho na história. Mesmo não tendo servido os bebés como possivelmente Raymond Scott o imaginara, este trio de discos lançou bases para futuras experiências na música eletrónica. O caráter repetitivo das peças e a paleta de sons usada estará, de facto, na raiz de muitas criações posteriores. E escute-se, por exemplo, The Playful Drummer (do Volume 3) para ali reconhecer o que podia ser uma base de trabalho para o nascimento quer de uma canção pop eletrónica como uma daquelas viagens com balanço motorik (embora ainda sem percussão) que o krautrock alemão nos daria a ouvir na primeira metade dos anos 70. Afinal, sempre nascia aqui qualquer coisa…



“Soothing Sounds For Baby (Volumes 1 – 3)”, de Raymond Scott, teve primeira edição em LP pela Epic, em 1964, apresentando os discos desde logo em capas independentes. Uma primeira edição em CD chegou pela Basta em 1997, apresentando os discos individualmente. Um outro lançamento em CD, em 1999, juntava os três álbuns numa caixa comum. Uma reedição limitada da Music on Vinyl devolveu às lojas de discos os álbuns, no formato de LP, em 2017.

Da discografia de Raymond Scott vale a pena descobrir discos como:
“The Unexpected” (1960) – editado como Raymond Scott & The Secret 7
“Manhattan Research Inc” (2000)
“Three Willow Park: Electronic Music From Inner Space 1961-1971” (2017)

Se gostou, experimente ouvir:
Tom Dissevelt
Jean Jacques Perrey
Salvatore Martirano

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