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27. Serge Gainsbourg (1964)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1964 e representou uma das primeiras experiências de cruzamento entre a canção pop europeia e linguagens rítmicas de África e da América Latina. Foi também um episódio sem descendência na obra de Gainsbourg.

Serge Gainsbourg não era ainda a figura sob o foco das atenções (sobretudo em França) na qual se transformaria depois de parcerias com France Gall que dariam que falar em 1965 – uma delas traduzida numa vitória eurovisiva com Poupée de Cire Poupée de Son – nem o autor de importantes colaborações com Brigitte Bardot ou Jane Birkin que inscreveriam episódios maiores na história da canção pop europeia dos anos 60 nem mesmo a figura controversa quer faria de álbuns como Historie de Melody Nelson ou Aux Armes et Caetera verdadeiras fontes de polémica, de paixão e de choque. Mas em 1964 estava também já longe de ser uma figura desconhecida no panorama musical francês. Tinha lançado um primeiro álbum em 1958, mostrando as suas primeiras canções uma grande afinidade para com os terrenos da chanson, tendo depois a sua música alargado horizontes para, acima de tudo, incorporar elementos nas periferias do jazz. Em 1964, contudo, resolveu fazer algo completamente diferente.

Gravado no início de outubro desse ano e lançado poucas semanas depois, Gainsbourg Percussions mostrava, propõe, sem obliterar elementos já explorados (o jazz emerge ainda bem vivo nas percussões de Quand Mon 3,65 Me Fail Les Yeux Doux ou nos arranjos de sopros em Machins Choses), um caminho inovador e até aí pouco explorado: juntar a canção popular ocidental a um verdadeiro festim de liberdades rítmicas tomando por pistas escutadas ora em África ora na cultura latino-americana. Da assimilação do samba em Les Sambassadeurs a diversas investidas pelas visões do percussionista nigeriano Babatunde Olatunji (que não surgiu creditado na edição original do álbum), ou a visão cool ainda mais assimilada de Couleur Cafe, as canções de Gainsbourg Percussions baralhavam a ideia de um mapa fixo de geografias culturais. E entre os encontros, as trocas, os diálogos, nascia uma música que transcendia antigas noções de fronteira.

Se havia já exemplos de cruzamentos de culturas (sobretudo na incorporação de timbres instrumentais e ritmos vindos de outros lugares), sobretudo evidente no espaço “exotica” que proliferara na segunda metade dos anos 50, já no terreno da canção europeia este era ainda um solo à espera de adubos e experiências. Gainsbourg Percussions é por isso um pioneiro desta vontade em cruzar universos e, por isso, um precursor de um modo de entender a assimilação de referências musicais diferentes e distantes como, mais tarde, escutaríamos em discos como o álbum Graceland de Paul Simon ou o single Nothing But Flowers dos Talking Heads. A história da relação com a pop com a world music tem por isso aqui um registo de referência importante.

Gainsgourg Percussions seria contudo uma ilha na obra de Serge Gainsbourg já que não teria consequências diretas na sua música futura (as experiências jamaicanas com o dub já em finais da década de 70 são de origem, forma e impactes distintos). A esta aventura, que corresponde ao mais experimental dos episódios discográficos de Gainsbourg, seguir-se-ia uma pausa de quatro anos na sua discografia em álbum (o regresso far-se-ia em 1968 com Initials B.B., disco em colaboração com Brigitte Bardot). Pelo caminho houve as já referidas canções compostas para France Gall (uma delas foi Les Sucettes que levantou celeuma) e uma série de criações para os mundos do cinema e da televisão. Como nota extra fica a referência ao facto de em Gainsbourg Percussions haver já uma presença de France Gall – jovem estrela do yé yé francês – que aqui faz os risos (não creditados) em Pauvre Lola.

“Gainsbourg Percussions”, de Serge Gainsbourg teve uma edição original em LP nas versões Mono e HIFi Stereo em 1964 pela Phillips. Houve em França uma segunda edição em vinil, mas com capa diferente, em 1983. As edições em CD chegam nos anos 90, aí já com a presença de um crédito para Babatunde Olatunji. Desde 208 têm surgido várias novas edições em vinil que, tal como as edições em CD, recuperam a capa original do álbum.

Da discografia de Serge Gainsbourg vale a pena descobrir discos como:
“Initials B.B.” (1968)
“Histoire de Melody Nelson” (1971)
“Aux Armes et Caetera” (1979)

Se gostou, experimente ouvir:
Jane Birkin
Jacques Brel
Arthur H

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