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Para revisitar (e reinventar) o Bowie dos anos 80

Texto: NUNO GALOPIM

A quarta caixa de memórias de David Bowie recolhe discos e gravações do período entre 1983 e 1988. Entre as boas surpresas está uma nova abordagem ao álbum de 1987 “Never Let Me Down” que revela outros caminhos para as canções e, de certa forma, é um dos melhores “novos” discos de 2018.

Em meados de 1982 Bowie esperava a chegada de 30 de Setembro, a data que determinaria o fim da sua ligação comercial ao antigo manager Tony DeFries. Daí em diante seria ele o único dono da sua música… Ao mesmo tempo, insatisfeito com a sua editora (a RCA), encetou uma série de contactos com vista a uma mudança. O momento era favorável para aplicar aquela ideia romântica do “começar de novo”. O a do “regresso às origens”. E foi entre estas coordenadas que David Bowie encarou o tempo que tinha pela frente.

Antes do Verão, antecedendo a rodagem de Feliz Natal Mr Lawrence, de Nagisa Oshima, passou umas férias no Pacífico Sul, levando consigo um lote de discos. Deu por si a reencontrar pistas e referências de outros tempos, a redescobrir velhos heróis do rhythm’n’blues, os discos que escutara nos seus dias de juventude. Eram os primeiros sinais de uma mudança iminente… A caminho do fim do ano, com Tony Visconti já desafiado para nova colaboração, conheceu Nile Rodgers (então ainda nos Chic) num bar de hotel em Nova Iorque. Entenderam-se e resolveram trabalhar juntos, Tony Visconti só soube que estava dispensado a duas semanas da prevista entrada em estúdio.

As sessões de trabalho começaram em Montreux, na Suíça. Bowie mostrou maquetes a Nile Rodgers e pediu-lhe que lhe desse êxitos. Era uma estrela de dimensão global. Mas na verdade, e salvo em alguns momentos, não se pode dizer que fosse uma estrela pop de dimensão mainstream e com sucessos em números relacionáveis com esse. Agora, contudo, e pela primeira vez, Bowie procurava ostensivamente o sucesso ostensivamente (em proveito seu e do novo contrato com a EMI America recentemente assinado).

Também pela primeira vez, desde Space Oddity, nenhum músico transitou das sessões do álbum anterior. Stevie Ray Vaughan, que Bowie tinha visto a tocar no festival de Montreux, conheceu aqui a sua grande oportunidade. A estúdio chegaram, também, dois outros elementos dos Chic (Bernard Edwards e Tony Thompson). A segunda etapa de gravações decorreu nos estúdios Power Station, em Nova Iorque, num recorde de apenas 20 dias, em horário laboral “normal” (das 10.30 às 18.00)… Bowie não tocou um único instrumento. E Nile Rodgers trabalhou os arranjos, procurando dar às canções o que sentia que cada qual lhe pedia. Ou seja, que China Girl tivesse tempero asiático. Ou que Let’s Dance convidasse qualquer um a dançar… O resultado foi um álbum milimetricamente polido ao pormenor, eficaz, pop e pleno de expressões contemporâneas das paixões R&B dos dias de juventudo de Bowie.

Let’s Dance foi um sucesso instantâneo e, para a EMI, o disco de vendas mais rápidas desde o Sgt. Peppers dos Beatles… Contudo, e apesar dos muitos singles de sucesso que somou na década de 80, este disco representou, como álbum, a única criação plenamente sucedida de Bowie enquanto estrela mainstream. Depois de dez anos, nos quais não faltaram nem êxitos nem tropeções, só voltou a mostrar sinais de uma visão criativa novamente desafiante e consequente em 1993, curiosamente num reencontro com o rhythm’n’blues, em Black Tie White Noise. Mesmo assim, no período entre 1983 e 1988 a que esta nova caixa se refere não faltam outros momentos de interesse, alguns deles nascidos de mergulhos em arquivos, um outro nascido de uma total reinvenção de um álbum originalmente lançado em 1987 mas que sempre o deixara insatisfeito. Já lá iremos…



Tal como as três caixas antológicas já editadas, esta quarta – que se apresenta com o título Loving The Alien (1983-1988) – junta aos álbuns do período a que se refere e aos lados A e B dos singles então lançados (reunidos aqui na compilação Re:Call 4) algumas peças de arquivo e registos ao vivo. Uma delas é precisamente o registo “live” da Serious Moonlight Tour, que correu mundo após a edição de Let’s Dance e cimentou a dimensão planetária do sucesso de Bowie. Até aqui só oficialmente disponível num EP de edição digital e num vídeo (já reeditado em DVD) o registo da digressão surge em Serious Moonlight, um duplo álbum que surge integrado nesta caixa (e possivelmente não terá para já edição avulsa). O alinhamento nota a excelência performativa da banda e de Bowie, mostra abordagens mais polidas a algumas das canções dos anos, vinca bem o quadro instrumental (nomeadamente a mais evidente presença de teclas e metais) do álbum de 1983 do qual, curiosamente, são apenas tocados os temas Let’s Dance, China Girl, Cat People e Modern Love, ou seja, todos os singles extraídos do álbum salvo Without You.

Não era fácil criar um álbum de apelo consensual depois de Let’s Dance. Bowie tinha por isso duas escolhas possíveis. Ou regressava a caminhos de desbravamento de novas ideias, experimentava, e possivelmente alienava a multidão global que o havia elevado ao estatuto de superestrela com o álbum e digressão de 1983. Ou criava um sucessor pop, mainstream, cauteloso e comercialmente certeiro. Contra o que fora a sua agenda de 70 (e o voltou a ser depois de 1993), optou pela segunda escolha. E assim surgiu Tonight um híbrido pop e R&B para consumo pop global, todavia sem a mestria que convocara a Let’s Dance. Resultado? Um álbum claramente menor, rapidamente arrumado entre os seus maiores desaires, mas na altura comercialmente válido e capaz de gerar singles capazes de manter vivo o novo patamar de fama. Há dois momentos a reter por aqui, extraídos como primeiro e terceiro singles: Blue Jean e Loving The Alien. Curiosamente correspondem aos únicos temas compostos por Bowie. Há cinco parcerias com Iggy Pop (três delas canções já antes gravadas em discos de Iggy). E ainda duas versões, uma de I Keep Forgettin’, de Chuck Jackson, outra sendo uma leitura surpreendentemente desinspirada de God Only Knows dos Beach Boys.

Antes da brilhante reinvenção de Never Let Me Down agora apresentada nesta caixa o mais evidente exemplo de desnorte criativo na obra de Bowie encontra-se nos álbuns editados num período que podemos limitar entre 1984 e 1992. Ou seja, a ressaca do estatuto mainstream conquistado em 1983 levou Bowie a experimentar a confeção de sucessores destinados ao grande mercado… Só cinco anos depois compreendeu que esse não era o seu lugar. Mas mergulhou então num outro eventual equívoco: a criação dos Tin Machine.



A meio deste período surgiu, em 1987, Never Let Me Down. Depois das meias-tintas de Tonight (1984) e do sucesso de Dancing In The Street, com Mick Jagger, apresentado no Live Aid, e de diversas colaborações para o cinema (para filmes como Absolut Beginers, The Falcon and The Snow Man, Labirynth ou When The Wind Blows, que podemos escutar em Re:Call 4, a editora chegou a pensar numa compilação de máxi-singles, que acabou arquivada. E que, curiosamente, reemerge nesta caixa sob o título Dance. Bowie só acedeu, contudo, em regressar a estúdio depois de concluída essa etapa de dedicação ao cinema e a Iggy Pop, entre 1985 e 86. Juntou músicos em Montreux, recuperando parte da equipa que havia trabalhado em Tonight, convidando Peter Frampton para tocar as guitarras. O álbum foi pensado para servir a digressão que se lhe seguiria (a Glass Spider Tour), mas cresceu feito coisa de exagerada pompa formal sem muito para dizer nem grandes ideias para mostrar. Ao que parece ganhou forma sob algum alheamento de Bowie. O próprio mais tarde acabaria por descrevê-lo como uma desilusão, ignorando-o em futuras digressões mas confessando entre amigos que gostava de, um dia, poder regressar àquelas canções e trata-las de outra forma tanto na mistura como até nos arranjos…

Esse desejo é agora satisfeito em Never Let Me Down 2018, um disco que parte das sugestões lançadas por uma regravação de Time Will Crawl que o próprio Bowie fez em 2008 e que serviu de ponto de partida para um trabalho de integral regravação de instrumentos (incluindo o quarteto de cordas à la Philip Glass ou Steve Reich que ele mesmo chegara a confessar que ali queria escutar e que, agora, Nico Muhly transforma em realidade). A operação é profunda e, entre as estruturas e a voz de Bowie a nova abordagem instrumental e mistura faz emergir um álbum magnífico curiosamente mais próximo com os caminhos de The Next Day (de 2013) do que dos trilhos que a música de Bowie seguia nos anos 80… Sem exagero, Never Let Me Down é um dos melhores discos “novos” que vamos escutar este ano. E, de certa forma, um álbum póstumo de Bowie. Que o deixaria certamente feliz e de contas ajustadas com os equívocos da versão editada em 1987.

Este reencontro com a obra de Bowie nos anos 80 junta aos três álbuns da época – Let’s Dance (1983), Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) – os registos ao vivo das digressões Serious Moonlight e Glass Spider (já disponível numa edição híbrda em CD e DVD de 2007) e duas compilações. Uma é Dance, com as versões máxi da época. A outra é Re:Call 4 com as versões dos singles, lados B inéditos, duas memórias ao vivo com Tina Turner e excertos de bandas sonoras nas quais Bowie colaborou. Não faltam por isso aqui a deliciosa versão de Volare (de Absolute Beginers) nem vários temas da música de Labirinto, de Jim Henson, no qual desempenhou o papel de vilão.

“Loving The Alien (1983-1988) está disponível numa edição de 11 CD e 15 LP e também nas plataformas digitais, num lançamento da Warner Records.



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