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Uma caixa para contar a história dos Soft Cell

Texto: NUNO GALOPIM

Numa altura em que assinalam em Londres uma definitiva despedida dos palcos com um concerto que possivelmente surgirá em disco ou DVD, os Soft Cell apresentam uma caixa que serve um vasto complemento ao que a sua discografia em álbum nos foi apresentando desde 1981.

Entre as bandas que, na passagem dos anos 70 para os 80, fizeram a primeira geração de criadores de canções pop dominadas por emergentes ferramentas eletrónicas os Soft Cell representaram um dos casos mais invulgares e cativantes. O sucesso inesperado que alcançaram com o single Tainted Love, em 1981, catapultou-os para um patamar de celebridade mainstream que eles mesmos tiveram dificuldade em assimilar, acabando mesmo por sabotar e desmontar o estatuto conquistado. Mas a sua obra levou-os mais longe do que apenas aos destinos do sucesso e reconhecimento popular. E nada como a caixa definitiva que agora surge como complemento a uma discografia oficial feita de quatro álbuns de estúdio, um disco ao vivo e um de remisturas, assinalando o que parece ter sido um ponto final com o concerto que há poucas semanas deram na O2 Arena, em Londres, e que se anunciava como a despedida (de facto) da dupla que juntou pela primeira vez Marc Almond e Dave Ball depois de um encontro ocasional quando ambos eram colegas universitários em Leeds, em finais dos anos 70.

Marc Almond crescera a escutar os heróis pop/rock da sua geração, com Bowie entre várias referências fulcrais. Dave Ball, que tinha um particular fascínio pela música para cinema – sobretudo o corpo de bandas sonoras de perfil épico da série James Bond – viveu aquela epifania que abre novos horizontes e aponta um futuro no momento em que, pela primeira vez, escutou Autobahn dos Kraftwerk. Juntos, na Leeds Politechnic, começaram a criar canções e a fazer performances. A princípio nem se imaginavam uma banda, já que, salvo os Suicide, não havia exemplos de duos para voz e eletrónicas… Mas entre performances (bem subversivas) e canções foram definindo um caminho que começou por se mostrar mais longe no EP de auto-edição Mutant Moments que, ao ser levado por um DJ e tocado em discotecas de Nova Iorque, lhes valeu um acordo “ou vai ou racha” com uma editora maior. O primeiro single, Memorabillia, passou longe das atenções. Mas o segundo, uma versão de um velho tema de Gloria Jones (Tainted Love), com uma outra versão, de uma canção das Supremes (Where Did Your Love Go) no lado B, levou-os inesperada e rapidamente a um patamar de sucesso global… E agora?

O álbum de estreia, Non Stop Erotic Cabaret (1981), assim como o disco-companheiro de remisturas Non Stop Ecstatic Dancing (1982) sublinharam uma orientação estética que deles fez um caso de referência entre a emergente pop eletrónica. Ao segundo álbum, The Art Of Falling Apart, mostraram não serem servos de um estatuto e, uma vez mais, desafiaram formas e temas apresentand um disco que, apesar de não repetir o sucesso do álbum de estreia, na verdade os levou artística e pessoalmente mais longe. Incomodados com o fardo do sucesso e as suas implicações no desenvolvimento das carreiras e vidas de ambos, resolveram sabotar o que tinham conquistado com This Last Night In Sodom, um terceiro álbum, desafiante e diferente, que sai já com a dupla separada. Levam anos a encontrar uma rota de aproximação, que na verdade se começa a desenhar em remisturas para singles de Marc Almond antes de desembocar numa primeira reunião da qual resulta o álbum de estúdio Cruetly Without Beauty (2002), uma digressão e um consequente disco ao vivo.

A caixa de 9 CD e um DVD que agora é editada não é uma integral dos Soft Cell, já que de fora ficam os álbuns de estúdio e ao vivo já editados. Keychains & Snowstorms é, antes, um amplo olhar complementar a essa parte da discografia dos Soft Cell juntando as versões dos máxis (que a banda gravava como ponto de partida para deles depois chegar às mais curtas versões dos singles), os respetivos lados B (nos quais não faltam duas incursões pelo universo de James Bond), maquetes dos primeiros anos (que revelam afinidades com o punk que caracterizavam essa etapa), sessões gravadas em várias etapas para a BBC e uma espantosa gravação de uma atuação ao vivo de 1983 (cortesia de um então muito jovem Flood, que estava atrás da mesa de mistura nessa noite) na qual escutamos uma banda mais focada na apresentação das canções do recente The Art Of Falling Apart e na estreia de canções do disco seguinte do que na celebração dos êxitos até aí já conquistados. O alinhamento desta caixa inclui uma série de versões alternativas (muitas delas verdadeiras raridades de outros tempos, como, por exemplo, uma mistura de Heat que esteve para ser o terceiro single do álbum de 1983 ou Martin, que surgia num disco extra incluído na edição original de The Art Of Falling Apart). E junta remisturas recentes, entre as quais estão 12 novas e magníficas abordagens assinalas pelo próprio Dave Ball a temas do catálogo dos Soft Cell. Um DVD fecha depois o lote de memórias com telediscos, juntando os de Non Stop Exotic Video Show (que revela novos sinais de subversão naquela que foi a estreia na realização de Tim Pope) e os que surgiram depois. O conjunto de imagens inclui ainda uma coleção suculenta de apresentações televisivas, sobretudo da vida original do grupo na primeira metade dos anos 80. Um livro com um longo texto de Simon Price e fotografias completa uma caixa que serve na perfeição o retrato de uma das mais estimulantes aventuras nascidas no agitado caldeirão pop que era o Reino Unido na passagem dos anos 70 para os 80.

Curiosamente fica de fora o mais recente single Northern Lights que, na verdade, nada acrescenta à história que aqui se conta. Está, contudo, disponível na versão económica desta caixa, editada como The Singles: Keychains & Snowstorms.

“Keychains and Snowstorms”, dos Soft Cell, é uma caixa de 9 CD e um DVD, também disponível nas plataformas digitais, numa edição da Universal.

“The Singles: Keychains & Snowstorms”, dos Soft Cell, está disponível em CD, LP e nas plataformas digitais, numa edição da Universal.



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