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Tribalistas, nós gostamos de ficar com vocês

Texto: GONÇALO COTA

O fantástico primeiro concerto em Portugal dos Tribalistas mostrou a lucidez com a qual dinamizam a efervescência e o estoicismo das suas canções. Depois de uma fantástica atuação em Lisboa, na Altice Arena, partem agora para o Porto, onde terça-feira darão um segundo concerto em solo português, já esgotado.

Naquele que foi o primeiro concerto dos Tribalistas em Portugal (também a sua primeira digressão em conjunto), o desafio era bastante complexo: como balançar o conjunto de canções orelhudas e festivas de um primeiro disco, que ocupam recorrentemente os alinhamentos das rádios desde 2002, com uma sonoridade mais suave, sem o mesmo imediatismo ou a mesma luz, de um segundo álbum que aparece agora, 15 anos depois?

A resposta é um número. Aliás, muitos números. Vinte e cinco anos. Vinte cinco anos de múltiplas parcerias criativas entre Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, que, sem contar com as 23 canções que compõem os dois discos – ambos chamados “Tribalistas” -, cantaram em conjunto, nos seus projetos pessoais, mais trinta e três canções (sem, contudo, ter-se sempre os três reunidos). E é essa cumplicidade, mas também a capacidade de encapsular uma sonoridade e conservá-la, reescrevendo-a na história dos dias de hoje, que faz deste supergrupo umas das propostas mais interessantes da história da MPB. E o público português, que saiu de casa num noite quente de outono, sabe-lo.

Os Tribalistas sabem o que constitui um excelente concerto não é apenas uma seleção musical cuidada ou intensa, parte também daquilo que se vê e se sente: as três grandes telas que emolduravam o palco, mostravam simultaneamente os três cantores e imagens que coincidiam com o imaginário das canções – ressaltando a ideia de corpo e de identidade, da memória e da comunidade; as interações entre os três cantores, cada um com a sua própria personalidade e carisma, eram afetuosas e próximas; um guarda-roupa extravagante, trocado diversas vezes, com cores entre os brancos, os vermelhos e os padrões tribais. Cria-se o dinamismo necessário a um longo concerto.

Um concerto sem pressa, delicado e bem sequenciado, mostrou o quão de bom podemos encontrar na arqueologia que constitui os Tribalistas (e os seus integrantes). O alinhamento moveu-se entre a nostalgia de, por exemplo, “Já Sei Namorar” ou de “Carnavalia” (toda a gente sabia as canções na ponta da língua) e a nova vida dos Tribalistas, nos sons mais soturnos de “Fora da Memória” ou “Diáspora”, mas também com passagem por “Amor, I Love You” (música composta por Carlinhos Brown e por Marisa Monte, para ser cantada pela própria) e “Infinito Particular” (composta pelo trio para a voz de Marisa Monte). No encore, “Velha Infância” e “Tribalistas” são cantadas novamente, num apelo final de Marisa Monte “pela democracia, à arte, à diversidade e do direito à diferença”. Mas o quão bom é vê-lo, iguais a si mesmo, finalmente, ao vivo! Tribalistas, nós gostamos de ficar com vocês. Mesmo!

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