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O canto político em 2018, segundo Neneh Cherry

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de um álbum de jazz e de um regresso à música em nome próprio com um disco mais anguloso, no seu novo “Broken Politics” Neneh Cherry apresenta olhares sobre o presente pessoal e coletivo no seu melhor conjunto de canções desde os dias do seu álbum de estreia, há quase 30 anos.

Depois de um magnífico trio de álbuns lançado entre 1989 e 1996 a presença de Neneh Cherry tornou-se quase invisível durante anos a fio, até mesmo quando, na segunda metade da primeira década deste século, integrou o coletivo CiurKus, com o qual editou os álbuns “Laylow” (2006) e “Medicine” (2009). Apesar dos bons momentos de diálogo da canção pop com eletrónicas e ecos do trip hop que habitavam esses discos algo perdidos, sua voz só se voltou a fazer notar na aventura jazzística que ganhou forma em “The Cherry Thing”, álbum lançado sob o nome The Thing. É claro que o regresso aos discos, em nome próprio, com o anguloso e desafiante “Blank Project”, de 2014, deixou claro que um novo ciclo ganhava forma e que aquela que havia sido uma das mais cativantes forças de diálogo entre o hip hop, a canção pop e o trip hop na viragem dos oitentas para os noventas, não só estava de regresso (para ficar) como consigo trazia um fulgor renovado nas palavras e um desejo em encontrar novos espaços sonoros para lhes dar forma.

Kieran Hebden (ou seja, a alma por detrás do projeto Four Tet) volta a surgir no papel de produtor. Mas das maquetes que Neneh Cherry desenvolveu inicialmente na companhia de Cameron McVey fez nascer um corpo de canções completamente diferente. Convenhamos que o contexto pessoal e emocional no qual as canções do disco de 2014 era bem diferente. Dominado pelo eco recente da morte da mãe de Neneh Cherry era um álbum mais áspero, mais anguloso.Desta vez é ao mundo estranho e sombrio em que todos vivemos hoje em dia que Neneh Cherry vai buscar os alicerces para a construção de canções que falam de si e do mundo como, tal como ela mesmo descreve em “Synchronized Devotion”, observa numa “slow jam” na qual reflete sobre o presente pessoal e político.

Entre notas sobre o momento que vivemos o disco faz nascer canções que destacam o vincar das melodias, a presença da voz e um quadro de acontecimentos que a produção procura polir e arrumar. O que era angular e pontiagudo no anterior “Blank Project” é agora mais trabalhado, moldado, suave… O desconforto está antes nas palavras, nas imagens que veiculam, no contexto que as gera. As canções, pelo contrário, são um mundo que parece procurar a luz, o saudável debate, a procura de soluções. Um vibrafone acrescenta notas de liberdade a construções dominadas por eletrónicas e que tanto sugerem patamares de acontecimentos minimais como experimenta construções mais elaboradas, com uma abertura de horizontes a possibilidades que tanto reencontram momentos travo trip hop (e não falta até mesmo um reencontro com Robert del Naja, parceiro de velhas aventuras nos tempos de “Manchild”) ou experimentam aproximações ao jazz, que vão do canto à voz quase falada, que ousam viver momentos sem filtro como que se escuta em “Shot Gun Shack”, que deixa às palavras e batidas o papel de afinar a pontaria das ideias em debate. Grande disco!

“Broken Politics”, de Neneh Cherry, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Smallsound Supersound ★★★★

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