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O filme que Bowie não quis mas onde está sempre presente

Texto: NUNO GALOPIM

Bowie não gostou da ideia e ficou de fora. Mas Tood Haynes não desistiu e “Velvet Goldmine” está repleto de referências a si. Foi há 20 anos que chegou às salas este filme que evoca de forma pessoal os condimentos do ‘glam rock’ e em cuja banda sonora colaboraram músicos dos Radiohead, Sonic Youth ou Placebo.

Da juventude de John Lennon à criação de uma figura inspirada por Kurt Cobain, de olhares sobre a história pop/rock de Manchester a um mergulho mais focado em Ian Curtis e nos Joy Division, de fragmentos da vida de Brian Wilson à evocação de uma etapa no percurso de Miles Davis, não faltam ao cinema de ficção episódios de busca de temas, personagens e narrativas entre o mundo da música. Há ainda ausências maiores e uma delas é mesmo a de David Bowie… Temo-lo representado como ator e como músico numa filmografia que ele mesmo foi desenvolvendo depois da experiência (bem sucedida) junto de Nicolas Roeg em “The Man Who Fell To Earth”, que talvez tenha representado o momento em que uma figura ficcionada por si interpretada mais se tenha aproximado do que poderia ser uma expressão quase autobiográfica de uma fase nada luminosa da sua vida. Mas na verdade não há “biopics” sobre Bowie. E quando Todd Haynes lhe apresentou, em finais dos anos 90, um projeto muito pessoal centrado nas gentes, nas cores e nos sons do ‘glam rock’, ele mesmo deixou claro que não gostara do guião e não ia autorizar a cedência de canções suas para o projeto. O projeto tinha por título “Velvet Goldmine” (oops, é o título de uma canção de Bowie gravada nas mesmas sessões de “Ziggy Stardust” mas só lançada em 1975 no lado B de uma reedição de “Space Oddity”). E mesmo sem Bowie explícito (na música ou nos nomes das coisas) o filme está cheio de alusões a si, àqueles com quem trabalhou, a experiências e lugares que viveu.

“Velvet Goldmine” não é de todo um ‘biopic’ de Bowie. Nem de Bowie nem do ‘glam rock’. Não é um ‘biopic’ de todo. É antes uma ficção que evoca o momento em que a música pop ganhou outras cores e ‘panache’, em que baralhou as noções de identidade, em que explorou ambiguidades e ganhou corpos e sons diferentes. Todd Haynes, que antes tinha já citado Jean Genet e os ambientes do ‘film noir’ no brilhante “Poison” (de 1991) fez de “Velvet Goldmine” uma coleção cruzada de citações e referências, criando uma visão sua daqueles tempos na qual há evidentes ligações com factos e figuras, porém tão fragmentadas, colocadas noutras personagens ou ocasiões que, sem perder a sua ligação a ecos do real, na verdade criam uma história de pura ficção.

A ideia de um tempo em que as ambiguidades e expressões de identidade (sobretudo no campo da sexualidade) contrariam as normas toma desde logo Oscar Wilde como figura tutelar, que assim Todd Haynes sugere como um pai “espiritual” do ‘glam rock’ num plano quase sci-fi que garante a passagem de um testemunho (de origem eventualmente de outro mundo) a ele chega e dele parte para, depois, animar as personagens que mais tarde vamos encontrando.



No centro da trama está um jovem cantor pop. Chama-se Brian Slade (e lembram-se que havia uma banda ‘glam’ chamada Slade?) e é magnificamente interpretado por Jonathan Rhys Meyers. Slade tem muito de Bowie… O concerto que vemos no início do filme lembra aquele que encerrou a digressão de Ziggy Stardust (e as imagens chegam mesmo a evocar as do filme-concerto “Ziggy Stardust: The Motion Picture” de D.A. Pennebaker), porém mostrando o seu ‘outfit’ umas penas que evocam a imagem de palco de Brian Eno nos tempos em que militava nos Roxy Music. Slade é casado (uma vez mais uma alusão a Bowie, via Angie) mas não esconde a sua atração pelo mesmo sexo. Chega mesmo a dar uma conferência de imprensa em que o revela (lá está novamente a presença de Bowie). A sua construção visual aceita ainda evocações de Jobriath (bem visíveis na capa do seu álbum “The Ballad Of Maxwell Demon”, do guitarrista Mick Ronson ou de Marc Bolan (na etapa ‘folksy’ que precede o encantamento elétrico que chega no momento de epifania em que vê, pela primeira vez, Kurt Wilde). Kurt Wilde (Ewan McGregor) tem no nome uma referência a Cobain (que a aparência física da personagem por vezes torna bem evidente). Mas é na verdade uma personagem feita do cruzamento de características de Lou Reed e Iggy Pop, nomes com quem Bowie trabalhou (se bem que com Iggy já depois da etapa ‘glam’). Há ainda outra figura muito próxima do universo de Bowie em Jerry Devine (Eddie Izaard), um manager efusivo e intrusivo que evoca de certa forma a figura de Tony DeFries, que geriu a carreira de Boqie precisamente nestes tempos. Mais discreta, a assistente Shanon (Emily Woof) será aqui uma figura possivelmente inspirada por Coco Schwab, a inesparável e fiel assistente pessoal de Bowie.

Pois é. Não temos Bowie… Mas não há uma sequência de “Velvet Goldmine” em que as referências a si não se façam sentir… Falta a música, é verdade. Mas tal como criou personagens e uma trama a partir de fragmentos inspirados na realidade, Todd Haynes optou por uma estratégia semelhante para a banda sonora. Sendo Brian Slade inglês e Curt Wilde americano, o realizador juntou bandas com músicos dessas mesmas origens para criaram versões de temas de bandas como os Roxy Music ou os Stooges que são assim entregues aos universos de ficção de ambas as personagens. Os Venus In Furs (nome de uma canção dos Velvet Underground, banda de importância fulcral na formação de Bowie) incluíam nomes como Thom Yorke (que deu voz a alguns temas), Johnny Greenwood, Bernard Butler ou Andy McKay (o mítico saxofonista dos Roxy Music). A banda “americana” chamava-se Wylde Ratz e incluía Thurston Moore e Steve Shelley dos Sonic Youth, Mark Arm dos Mudhoney ou Ron Asheton dos Stooges. Além destes grupos expressamente criados para o filme a banda sonora incluiu canções novas dos Pulp, Shudder To Think e Grant Lee Buffalo. Os Placebo, que chegam a ter papéis de ficção no filme, gravaram uma poderosa versão de “20th Century Boy” dos T-Rex que eles mesmos apresentam numa das cenas.

Tal como em “Citizen Kane” de Orson Welles, a trama parte de um presente do qual é lançada uma investigação jornalística para saber factos com origem no passado. Não se trata aqui de saber o que quer dizer “Rosebud”, claro… Mas, com um presente da ação localizado numa Nova Iorque de 1984, a ação é desencadeada quando um editor pede a um jornalista de origem inglesa que descubra o que é feito de Brian Slade, que encenara um episódio dramático em palco dez anos antes e do qual nunca mais ninguém ouvira falar. O jornalista, interpretado por Christian Bale sabe bem de quem o editor fala… Afinal estava nesse concerto e tinha Brian Slade como ídolo e referência…

Fragmentada, saltando entre épocas, juntando ainda pontuais planos de uma dimensão mais poética que procuram a ligação das ideias aos patamares da narrativa, “Velvet Goldmine” é um triunfo narrativo, visual e musical. Houvesse ‘biopics’ desta escala e melhor serviço pelas figuras da música faria o cinema. Mas na verdade poucos foram, até aqui, os ‘biopics’ que atingiram o patamar de excelência de “Velvet Goldmine”. Nem mesmo o fez Todd Haynes quando, anos depois, fragmentou Bob Dylan em várias personagens em “I’m Not There”.

“Velvet Goldmine”, de Todd Haynes, com Jonathan Rhys Meyers, Ewan McGregor, Toni Colette, Christian Bale e Eddie Izzard, está disponível em várias edições em DVD e Blu-Ray. Entre nós houve um lançamento pela Atalanta Filmes.

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1 Comment on O filme que Bowie não quis mas onde está sempre presente

  1. Gostei tanto desse filme 🙂

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