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A arte do trio

Texto: NUNO GALOPIM

O produtor francês Étienne de Crécy junta-se (novamente) a Baxter Dury e a Delilah Holliday para criar em “B.E.D.” um curto mas eficaz álbum de canções pop que mostram como da soma de três personalidades distintas pode nascer um corpo maior.

Não será exatamente uma superbanda como foram os Travelling Wilburys – que juntavam George Harrison (Beatles), Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lynne (Electric Light Orchestra) – ou os Electronic, a dupla feita por Bernard Sumner (Joy Division e New Order) e Johnny Marr (The Smiths) com a qual colaborou Neil Tennant (Pet Shop Boys) e Karl Bartos (Kraftwerk)… Pois há desde logo uma diferença abissal no calibre da coisa para que se possa identificar nesse patamar… Mas o encontro entre Étienne de Crécy, Baxter Dury e Delilah Holliday acaba por surgir com algo semelhante em mente: cruzar universos e somar esforços sob um teto comum.

Um dos pioneiros das movimentações que colocaram as eletrónicas made in France no mapa da música popular dos anos 90, Étienne de Crécy é contemporâneo de compatriotas seus como os Daft Punk ou Air nesse conjunto de acontecimentos (que juntou muitos mais nomes, naturalmente). Mas ao invés desses outros dois nomes que ganharam vida para além da epifania que se viveu na segunda metade dos anos 90, nunca conseguiu na verdade impor no panorama mediático dali nascido um disco além do influente “Super Discount” que a ele chamou merecidas atenções em 1996. Não será exatamente um ‘one hit wonder’, já que alargou a sua paleta de trabalhos a outras parcerias (na escrita, na produção ou como DJ). Mas no momento em que surge com um novo disco, acompanhado por duas vozes nascidas do outro lado do canal da mancha, é talvez às memórias da sua música nos anos 90 que muitos poderão ir procurar alicerces para comparar e escutar o que agora nos propõe. Se o fizerem incorrerão em dois equívocos. Por um lado ignorarão as visões exploratórias que propôs no menos badalado “Tempovision” (de 2002) no qual ensaiou caminhos que procuraram alternativas aos trilhos da canção – precisamente aqueles pelos quais prosperaram os Daft Punk e Air – e por outro passarão ao lado dos caminhos de progressão que foi talhando nos volumes 2 e 3 da série “Super Discount”, no terceiro tendo surgido no seu mundo uma voz que, entretanto, ganhou maior presença perto de si: a de Baxter Dury.

Sim, o apelido lembra o de alguém. E sim, é mesmo o pai… Baxter Dury é filho de Ian Dury, uma das vozes e almas criativas mais ímpares do pós-punk britânico. Aos 46 anos Baxter ainda não conseguiu ultrapassar a sombra que o nome do pai sobre si exerce. E convenhamos que poucos foram os músicos a conseguir semelhantes feitos, sendo Jeff Buckley (mesmo com apenas um disco editado em vida) um raro exemplo de uma voz que, pelo menos na sua geração e seguintes, suplantou a do pai. O pai era nada mais nada menos do que Tim Buckley.

Mas voltemos a Baxter Dury. Tem uma discografia que soma já alguns álbuns. Nenhum verdadeiramente arrebatador, mas valendo a pena reencontrar “Floor Show” (2005), onde temperos com vapores psicadélicos ajudam a moldar as canções. É por vezes no modo de dizer as palavras, ocasionalmente no timbre (sobretudo quando escapa ao registo mais grave) e nalgumas construções poéticas que a alma do pai mais o assombra. De resto, é um filho à espera de um Ipiranga. Um grito que, mais do que nunca, pode chegar com este disco criado em colaboração com Étienne de Crécy e a cantora Delilah Holliday (com currículo iniciado na dupla riot grrrl Skinny Girl Diet, em conjunto com a irmã).

Com as iniciais dos nomes dos três protagonistas, “B.E.D.” é um disco de canções sóbrias que a produção cunha sob uma genética que tanto escuta heranças pop como eletro sobre as quais surgem as vozes de Baxter (a piscar o olho ao livro de estilo Gainsbourg) e Delilah. Cada voz (incluindo a instrumental, de Étienne de Crécy) tem a sua personalidade distinta, correspondendo as canções a diálogos nos quais cada qual junta a sua marca pessoal ao trio que, no fim, define sempre uma assinatura comum. Há um curioso jogo de contrastes entre o tom das palavras de Baxter (por vezes sem filtro no sarcasmo) e Delilah, correspondendo o campo instrumental ao local onde se encontram e fazem dos contrastes uma força maior. “B.E.D.” resolve todos estes ingredientes em nove canções que se escutam em perto de 20 minutos. Pode parecer pouco, mas quantas vezes acabamos um disco a sentir que ainda ouvíamos mais?… Ótimo… Haja continuação.

“B.E.D.” de Étienne de Crécy, Baxter Dury e Delilah Holliday, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Heavenly Recordings ★★★★

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