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Novos desafios para a música de Moondog

Texto: NUNO GALOPIM

A pianista Katia Labèque e os elementos do grupo Triple Sun pegaram numa série de composições de Moondog e, com novos arranjos apresentam-na num modo que mostra como há naquela música uma multidão de possibilidades a explorar e, por isso, novas vidas pela frente.

Se ter uma voz autoral é ser único e diferente, então em Moondog (1916-1999) a história da música do século XX e a memória da contracultura que emergiu na Nova Iorque dos anos 60 têm um nome de absoluta referência. Com uma vida algo nómada nos dias de infância, em parte passada no grande Oeste, somou desde cedo as experiências que observou (até perder a visão, aos 16 anos) e escutou, todas elas tendo acabado por se materializar no rumo que o conduziria a uma obra que, dividida entre géneros, de fronteiras estilísticas difusas, o fez caminhar sempre entre os universos próximos da música contemporânea, as cercanias do jazz e o entusiasmo dos melómanos mais atentos às franjas mais experimentais da cultura pop.

Esta divisão ou difícil categorização, juntamente com as marcas de uma vida pessoal atípica (passava dias a fio, vestido com trajes à la viking, numa esquina da 6ª Avenida) talvez sejam algumas das razões pelas quais Moondog não seja ainda um nome de nenhum dos cânones (tal e qual o são já alguns dos seus contemporâneos). Mesmo tendo nomes como os de Philip Glass, Charlie Parker, Benny Goodman ou Leonard Bernstein passado pela história das suas vivências.

Melómanos mais próximos do jazz, das músicas de vanguarda ou até mesmo das periferias mais exploratórias da música popular, têm estado frequentemente entre os maiores admiradores de Moondog. Há contudo em vários momentos da sua obra peças que podem cruzar ainda mais públicos e chegar a salas de concerto. O que não deixa de ser inesperado para alguém que tanta vez fez da rua o espaço prioritário de comunicação da sua música…

A pianista Katia Labèque pode ter agora um papel a desempenhar num processo (que certamente será longo e gradual) de progressiva assimilação da obra de Moondog pelos espaços (dos palcos às editoras) mais habituados aos repertórios da música “erudita”. Neste disco (que sai pelo emblemático selo da Deutsche Grammophon) junta-se aos elementos do trio Triple Sun (David Chalmin, Massimo Pupillo e Raphaël Séguinier) para abordar, sem preocupações canónicas, uma série de peças de etapas distintas da obra de Moondog. São abordagens com novos arranjos que tanto valorizam o piano como a presença de timbres mais habituais na cultura pop/rock (guitrarras e baixo elétricos, sintetizadores, percussão) mas que abrem, em várias frentes, novas propostas de leitura a um corpo de composições que aqui surge de forma desafiante, transformada… Confesso que estranhei sobretudo a falta das referências claras a Charlie Parker no saxofone agora ausente em “Bird’s Lament”… Mas a habituação ao ‘combo’ reunido por Katia Labèque resolve aos poucos a estranheza (e a interpretação para piano de “To A Sea Horse” é arrepiante). No fim o que fica é, sobretudo, a sensação de que a música de Mooondog pode ainda conhecer muitas vidas.

“Moondog”, por Katia Labèque, David Chalmin, Massimo Pupillo e Raphaël Séguinier, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Deutsche Grammophon


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