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Quando a boa ideia é melhor do que o grande orçamento

Texto: NUNO GALOPIM

A dupla Justin Benson e Aaron Moorhead apresenta em “O Interminável” uma das melhores surpresas do ano na área da ficção científica. Uma história de aparências que escondem outras verdades que gradualmente se revelam e que mostra como o género pode viver sem uma artilharia cara de efeitos visuais.

Uma boa ideia por vezes pode faz mais do que um orçamento milionário. E “O Interminável” é mais um exemplo de como pode estar na força da trama narrativa a energia que nos agarra às imagens, replicando frente a um ecrã aquela velha sensação de não querer largar um livro enquanto não sabemos o que vai acontecer a seguir… E é precisamente na força da narrativa escrita, nesse efeito virador de páginas (o “page turner”, mas em português) que se explica o poder de encantamento do mais recente filme da dupla Justin Benson e Aaron Moorhead.

Sucessor de “Resolução Macabra” (2012) e “Spring” (2014), “O Interminável” é escrito, realizado, montado, produzido e protagonizado pela dupla Justin Benson e Aaron Moorhead. Na montagem e produção contando com mais alguns colaboradores, o argumento sendo apenas de Justin. Mas desde logo fica clara a forma como a dupla meteu as mãos em várias frentes criativas (e não só) do processo.

No plano da ficção Justin e Aaron apresentam-se aqui como irmãos (usando precisamente os seus nomes reais) que encontramos dez anos depois de terem abandonado uma seita que vivia numa comunidade isolado no meio de nenhures. Uma cassete vídeo que inesperadamente chega pelo correio desperta memórias. Aaron, crédulo, emotivo, visivelmente ainda atordoado por ecos de algo que desconhecemos, decide regressar, fazendo o irmão notar que, afinal, aquele não era um culto com ovnis como entidade mística e o suicídio em massa como desfecho. Mais cauteloso, cético, mas protetor do irmão, Justin decide acompanhá-lo. E assim damos com o par numa pequena comunidade no meio do campo, de vida aparentemente pacata, simples e sorridente… Há contudo algo desconcertante logo no momento do reencontro. É que se os dois irmãos, então bem jovens, são agora dois adultos, aqueles que ali reencontram não envelheceram um dia. Estão iguais… E este é o primeiro de uma série de elementos intrigantes que, como um cabo de guerra (aquele jogo em que cada equipa puxa do seu lado a ver quem suplanta o adversário) contra uma corda que desce do céu noturno, uma equação que um dos elementos da comunidade trabalha há anos, sem conseguir nunca chegar à etapa final de resolução ou um receio não explicado sobre o que poderá acontecer perante três Lucas cheias, são peças num jogo que se adensa para, afinal, revelar gradualmente o que de facto de tão estranho e aparentemente arrebatador ali acontece…

Nada como ver para saber o que acontece. Não faltam artigos que usam a palavra “lovecraftiano” como adjetivo para dar tempero às descrições sobre o que vemos em “O Interminável”. É-o, de facto na forma de expressar uma relação com um medo desconhecido. Mas o termo é aqui tão preciso como o ato de descrever os elementos na montra de uma pastelaria como sendo “doces”… Vejam primeiro o filme e usem depois o conto “Doubled and Redoubled” de Malcom Jameson (que data de 1941) ou romances como “Timequake” de Kurt Vonnegut ou “Martian Time Slip” de Philip K. Dick e ali talvez encontrem parâmetros mais afinados para definir em que domínio da ficção científica afinal estamos.

Justin Benson e Aaron Moorhead juntam depois a uma ideia do calibre de um bom conto de ficção científica um trabalho de direção de atores e art direction que não distrai do essencial, juntando uma realização e montagem que sabe encaminhar-nos na escalada de tensão que se vai gerando. É uma bela surpresa. É daqueles filmes pelos quais aparentemente nada damos nos primeiros momentos e que, aos poucos, nos deixam com vontade de voltar a página… Até mesmo voltar a ver. E é bom quando um filme não se esgota em nós na primeira vez que o vemos.

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