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Dois olhares distintos sobre uma mesma tragédia

Texto: NUNO GALOPIM

Entre a experiência mais desafiante e “imersiva” de Erik Poppe e o olhar mais convencional, mas bem mais contextualizado, de Paul Greengrass, os ataques terroristas que assombraram a noroega em 2011 acabam de chegar ao cinema.

"Utoya 22 julho", de Erik Poppe

Estamos num acampamento na ilha de Utoya, a alguns quilómetros de Oslo, na Noruega. Em pouco tempo percebemos que quem ali está é bem jovem… E pelo contexto, mais do que pelas conversas e as ações, sabemos que é organizado por uma juventude partidária (em concreto da AUF, o partido social democrata no poder). Do nada para o caos a mudança é abrupta. Ouvem-se primeiros tiros, gente a correr e a pedir que fujam todos… Um ataque? De quem? Alguém que atira a matar… Mas quem? E Porquê?… Vivido entre alguns dos jovens que ali estavam acampados – tendo o cuidado de criar personagens ficcionais embora baseando toda a narrativa em factos reais – o realizador norueguês Erik Poppe faz de “Utoya 22 de Julho” uma experiência “imersiva” (como agora se diz) que procura viver o ataque terrorista de Anders Breivik, um radical de extrema-direita, àquela ilha naquela tarde (depois de ter feito explodir uma carrinha junto de edifícios governamentais no centro de Oslo). As sensações de perplexidade, de vulnerabilidade e de terror são acentuadas pelo modo como as imagens seguem potenciais vítimas, não procurando a câmara outros pontos de vista senão os seus. E tal como os que ali procuraram escapar aos tiros de alguém que é avistado vestindo uma farda de polícia (mas não se sabendo se haveria um ou mais assassinos na ilha), somos confrontados com um longo episódio de medo.

Os mesmos ataques foram recentemente recriados em “22 July”, do norte-americano Paul Greengrass, o mesmo que assinou “United 93” sobre o avião que se despenhou na Pensilvânia a 11 de setembro de 2001 e “Capitão Phillips”, além de ter dirigido vários episódios da saga Bourne. A abordagem de Greengrass é contudo substancialmente diferente da que Erik Poppe apresenta na sua visão dos mesmos acontecimentos. “July 22” (que está disponível na plataforma Netflix) toma como três vértices da ação o terrorista, o advogado que este chama para o defender e um dos jovens sobreviventes do ataque. Se em “Utoya 22 de Julho” Erik Poppe sugere a experiência que foi estar ali, entre as potenciais vítimas, em “July 22” Paul Greengrass procura dar-nos não só a narrativa dos factos no dia do ataque mas também o contexto e as consequências. É talvez menos “exercício” de cinema mas, contudo, mais completo na vontade de explicar o que se passou e porque se passou… Erik Poppe também o faz, mas em modo mais breve, num conjunto de frases sobre o ecrã. Apesar do caráter mais convencional de “July 22” o filme procura explorar a falta de sentido das ações de Breivik e até mesmo a sua lógica extremista através do modo como evolui a sua relação com o advogado.

O filme de Greengraass é mais convencional, não procura o rasgo na realização, foca-se na narrativa dos factos e numa tentativa de compreender o que se passou. O filme de Erik Poppe é mais desafiante como cinema… Mas se o espectador não estiver ciente do contexto, a coisa pode parecer-se quase como cenário de um videojogo sádico… E numa altura em que convém falar das coisas com verdade e sem margem para interpretações menos precisas não sei se um filme como o de Erik Poppe será o mais pedagógico. É arte, é cinema, dirão uns. Sim, de facto. Mas mal saímos da sala voltamos no mundo da realidade. E estes filmes falam de algo bem real com que convivemos no presente.

“Utoya, 22 de Julho” de Erik Poppe, com

“July 22”, de Paul Greengrass, com Anders Danielsen Lie e Jon Øigarden, está disponível na plataforma Netflix.

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