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32. Rolling Stones (1967)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1967 e representa o mais atípico de todos os álbuns dos Rolling Stones. O disco traduz sobretudo ecos das visões de um tempo em que a cultura psicadélica estava na ordem do dia nas esferas mais ousadas da música pop.

É o mais atípico dos álbuns dos Rolling Stones. Resposta a Sgt. Pepper’s dos Beatles? É uma comparação demasiado fácil e peca por ser redutora. Na verdade, e depois do emergir de acontecimentos vividos “underground” em Londres em 1966 eram muitas as bandas daquele tempo e daquele lugar a navegar no mesmo comprimento de onda, seguindo todas elas demandas por trilhos semelhantes ou paralelos. As afinidades partilhadas em pleno “boom” da cultura psicadélica acabavam, assim, por estabelecer entre muitos dos discos pop/rock editados em 1967 um sentido de “momento” como poucos instantes da história da música popular conheceram. E o mapa não se esgota nos Beatles e nos Rolling Stones. A presença de nomes como os Pink Floyd (ainda liderados pela alma visionária de Syd Barrett) ou Small Faces e, em simultâneo, na Califórnia, Love, Jefferson Airplane, Grateful Dead e até mesmo por aqueles dias os Byrds, Doors ou Beach Boys foi fulcral para lançar os traços maiores de uma história que poderia convocar ainda nomes menos vezes lembrados como uns Electric Prunes, The Seeds ou ? & The Mysterons.

Entre 1966 e 67 a música assimilou outras influências e ganhou novas cores e formas. A progressiva abertura dos Rolling Stones para lá das linhas mais canónicas de ascendência nos blues que haviam redigido o seu bilhete de identidade começam a manifestar-se em “Aftermath” (1966), alargando-se em “Between The Buttons” (já em 1967) e alcançando expressão maior em “Their Satanic Majesties Request”. Mesmo antes de se escutar um único som, a capa do disco dá o mote. Aqui há cor, fantasia e liberdade. Aqui há o culminar de um período em que a visão pop com vistas largas de Brian Jones dominou tudo e todos. E não será segredo nem surpresa imaginar que consumos ilícitos habitavam o contexto em que estas visões nasciam.

Há no alinhamento deste álbum grandes canções como “She’s A Rainbow” ou “2000 Light Years From Home” e episódios invulgares “In Another Land”, com voz de Bill Wyman (que inscreveu na história da canção o som de alguém a ressonar como elemento sonoro… pop). Curiosamente foram estas as três canções que conheceram edição em single por aqueles dias. Temos neste alinhamento sinais de uma banda atenta ao seu tempo e entregue ao desafio de o ajudar a inventar num todo onde encontramos ainda ecos da música de vanguarda de então e também de heranças escutadas no teatro (que por esses dias conheceram expressão maior no contemporâneo álbum de estreia de David Bowie). Criado em sessões de gravação que, anos depois, seriam descritas como caóticas, o disco via os Rolling Stones a experimentar novos instrumentos, do mellotron ao theremin, a manipular ondas captadas pela rádio, juntar cordas ou ritmos africanos aos arranjos. O disco estava a nascer com o título de trabalho “Cosmic Christmas” e, a cerca de um mês da sua edição, Brian Jones confessou que não fazia ainda ideia do que ali estaria a acontecer… Conjunção cósmica ou sorte, a verdade é que do caos emergiu um álbum com raro sentido de ousadia… E com grandes canções.

Este disco representou o culminar de um trilho de ostensivo afastamento dos Rolling Stones para lá da sua matriz original (à qual regressariam depois, definindo os álbuns “Beggars Banquet”, “Let It Bleed”, “Sticky Fingers” ou “Exile On Main Street” novos episódios maiores na sua história de relacionamento mais focado com as raízes primordiais do rock’n’roll. Mas se excluirmos episódios posteriores a 1967 como o flirt com o disco sound feito em “Miss You” e esse outro episódio maior que foi Emotional Recue, nunca mais os Stones foram tão profundamente aventureiros e ousados como neste seu álbum de 1967.

“Their Satanic Majesties Request” nunca foi um disco unânime. Antes pelo contrário, é raro vermos este LP de finais de 1967 surgir em listas. Até mesmo entre os elementos dos Rolling Stones o disco continua a ser fonte de discussão. E na sua autobiografia “Life” Keith Richards, apesar de reconhecer haver ali canções de que gosta, deixou claro ser disco de que não gosta lá muito…

“Their Satanic Majesties Request” teve edição original em 1967 pela Decca em versões mono e estéreo. Uma primeira edição em CD surgiu em 1986. Nos últimos tempos foram surgindo novas prensagens em vinil em diversos territórios.

Da discografia dos Rolling Stones vale a pena descobrir discos como:
“Aftermath” (1965)
“Beggar’s Banquet” (1968)
“Exile on Main Street” (1972)

Se gostou, experimente ouvir:
Love (fase 1966/67)
The Beatles (em 1967)
Pink Floyd (fase 1966/67)

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