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As muitas vidas de Damon Albarn em dez canções (6)

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Numa altura em que surge um segundo álbum do projeto The Good The Bad and The Queen mergulhamos entre os vários caminhos pelos quais se tem desenhado a obra de Damon Albarn.

Conhecemo-lo em 1990 quando o single “She’s So High” colocava em cena uma nova banda nascida no Reino Unido. Com o single os Blur iniciavam um percurso que poucos imaginariam então que se viesse a transformar gradualmente não apenas num caso de sucesso (o que aconteceu logo em meados dos anos 90) mas numa referência maior do pop/rock alternativo da sua geração.

Nos Blur o seu vocalista deu primeiros passos discográficos numa carreira que, com o tempo, o levou a experiências com outras bandas, desafios e geografias.

É esse percurso aberto em várias frentes, e do qual nunca se imagina que caminhos de novo desafio o futuro poderá guardar, que aqui vamos recordar através de dez canções. Que contam apenas parte da história, é certo. Mas que podem abrir caminhos a (re)descobertas…

2007. “Herculean”, dos The Good the Bad and the Queen

Um supergrupo feito de quatro Galácticos da pop? Damon Albarn, Paul Simonon, Tony Allen e Simon Tong preferem pensar que não. Na altura viam esta como uma aventura ocasional e que contava uma história que os tomava por personagens, buscando depois figurantes anónimos em cenários na Londres dos nossos dias, aceitando a cidade como um conjunto de experiências e heranças que nos obrigam a pensar, necessariamente, em mais que apenas o presente. Londres e os londrinos são o objecto de “The Good The Bad and The Queen”, álbum que faz da cidade uma crónica pop, sóbria, por vezes amarga, desiludida, o tom cinzento que a caracteriza, sobretudo os seus submundos, a assombrar as canções que aqui escutamos. De certa maneira, este é o reverso da medalha da efusiva luminosidade pop de “Parklife”, as palavras agora mais ponderadas, quase reservadas, por vezes a esconder em si sentidos alternativos possíveis, como se, dez anos depois, o mesmo cenário se enfrentasse com outra gravidade. E claro desencanto. Este era então o cartão de visita do projeto e do disco que o apresentou.

1990. “She’s So High” com os Blur

Vivia-se um tempo de busca por novos caminhos na cena pop/rock alternativa britânica e novos heróis começavam a entrar em cena. E se por um lado nomes como os Stone Roses ou Happy Mondays captavam em terreno de genética rock’n’roll uma euforia descoberta com uma explosão de acontecimentos recentes na música de dança, por outro havia quem focasse as energias num caminho mais implosivo (mas nem por isso necessariamente suave). Chamavam-hes “shoegazers” (porque tocavam a olhar para os sapatos), hoje talvez os descrevessem como antepassados do “dreampop”. Nomes… O certo é que juntamente com os My Bloody Valentine, Slowdive ou Muse os Blur entravam em cena e eram descritos, pelo seu single de estreia, “She’s So High” como mais uma banda desta “cena”… Meses depois “There’s No Other Way” mostrava que também eles gostavam de dançar… E com o tempo ficaria claro que o seu percurso seria mais dado a experimentar e mudar de ideias do que ficar agarrado aos ecos de um rótulo… Mas foi um belo single de estreia, sim senhor…

1995. “The Universal”, dos Blur

Transformados num dos focos das maiores atenções da imprensa musical britânica em plena euforia “brit pop” os Blur viveram episódios de sucesso com dimensão mainstream e global a partir de meados da década de 90. Coube ao álbum “Parklife”, de 1994, ser a montra das canções que acompanharam alguns dos episódios da etapa de consagração, seguindo-se “The Great Escape”, um disco que representa talvez o único álbum dos Blur no qual uma opção pela continuidade falou mais alto do que o desejo em experimentar novos cenários ou desafios para as suas canções. Talvez por isso o disco permitiu ao grupo partir de um verdadeiro achado revelado no álbum de 1994 e aprofundar mais o trabalho sobre esse modelo de canção. O ponto de partida é aqui “To The End” (de “Parklife”), balada clássica de arranjo orquestral que teve no álbum “The Great Escape” uma sucessão natural em “The Universal”. No plano das imagens há aqui também afinidades pela evidente cinefilia dos telediscos que acompanharam ambos os singles. E assim, depois do piscar de olho a Alain Resnais e a “O Último Ano em Marienbad” em “To The End”, para o teledisco de “The Universal” a mais evidente das referências está na “Laranja Mecânica” de Kubrick.

2001. “Clint Eastwood”, dos Gorillaz

A aventura começou em 2001. Os Blur tinham arrumado a etapa “13” (um dos melhores discos da sua obra) e em tempo de pausa cada qual seguia caminho distinto. Graham Coxon partia para gravar a solo, Alex James escrevia para outras vozes. E Damon Albarn juntava-se ao desenhador Jamie Hewlett para dar corpo a uma ideia desafiante de construção de uma banda com outros elementos que não os de sempre. Seriam desenhos e não músicos a dar-lhe rosto, cada um dos elementos com uma história e características definidas, os ambientes ao seu redor sendo o reflexo da sua personalidade e do momento em que vivem, a música abrindo horizontes além dos espaços onde, até então, habitara grande parte da obra dos Blur… E quando em 2001 entra em cena o álbum de estreia Gorillaz este revela uma visão pop do seu tempo, de vistas largas, atenta à contribuição de outras linguagens, do dub ao hip hop. E este foi o seu cartão de visita, contando com a colaboração de Del tha Funkee Homosapien.

2009. “The Marvelous Dream”, da ópera “Dr. Dee”

“Dr. Dee” é uma ópera (na qual Jamie Hewlett foi um importante colaborador) que toma como protagonista a figura de John Dee, um homem de ciência igualmente encantado pelos mistérios do mundo da magia, que viveu na Inglaterra dos tempos de Isabel I. Estreada em 2011 em Manchester (tal como o fora “Monkey Journey To The West”), a ópera teve segunda vida no festival cultural que acompanhou as olimpíadas de Londres.Sem procurar uma lógica de época pelo recurso a ideias musicais contemporâneas do protagonista, a música de “Dr. Dee” optou antes por juntar elementos folk, a voz do próprio Albarn, canto lírico, citações de formas da música antiga (de trovas festivas a música coral religiosa), guitarras acústicas e o som de uma orquestra, ocasional (mas discreta) eletricidade e até mesmo pontuais ritmos africanos.

2014. “Everyday Robots”, do seu disco a solo

Apesar do sucesso colossal obtido nos anos 90 com os Blur, o tempo mostrou-nos que Damon era mais um escritor de canções do que uma “estrela” a habitar a galáxia dos famosos. Viveu contudo uma série de outros projetos coletivos antes de, finalmente em 2014, ter lançado um primeiro álbum a solo. Gravado entre 2011 e 2013, contando, entre outros músicos, com as colaborações de Brian Eno ou Natasha Khan (Bat For Lashes), é um disco musicalmente rico em acontecimentos (seguindo de resto uma maneira curiosa de estar na música que cruza a sua obra) revelando essencialmente trovas suaves e pessoais, o “eu” que é aqui o centro de gravidade das canções. O piano, mais que a guitarra, é aqui um ponto de partida, a definição de ambientes mostrando um labor atento ao detalhe, que alia à construção poética das palavras e à melodia que as veicula uma noção de espaço cénico que a cada uma atribui uma paisagem, em conjunto o disco propondo uma galeria de quadros suaves e elegantes que convidam à descoberta.

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