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Receita para corações partidos

Texto: GONÇALO COTA

Atenção: a receita preparada por Marlon Williams, o neozelandês que passou pelo Lisboa ao Vivo no sábado para apresentar Make Way for Love, não é aconselhada aos mais sensíveis.

A preparação é relativamente simples: parte-se um coração de um jovem músico – resultado do término da relação que mantinha com a também cantora Aldous Harding. Junta-se uma boa mão de country e crooning, outra de rock, umas pitadas de pop aqui e ali. Resta apenas temperar com doses muito generosas de tristeza e de outros sentimentos relacionados q.b. e está feito. E não, esta não é mais uma receita banal: “Make Way for Love” é um dos discos que listará nas preferências deste ano, pela capacidade que as onze canções têm de se expandir musicalmente, recriando várias dimensões sentimentais de um episódio de separação. De congregar influências e de as recolocar no prisma da experiência individual

Por exemplo: se em “What’s Chasing You” se desenha uma canção pop onde se escutam ecos de Elvis Presley, é possível mapear nas sombrias “The Fire of Love” ou “Love is a Terrible Thing” as claras influências de Nick Cave, Sinatra ou Scott Walker. Mas encontramos o epicentro emocional numa faixa muito pessoal “Nobody Gets What They Want Anymore”, um dueto com… a ex-namorada (e que termina com Baby, I can’t separate us out anymore). Existe forma mais dolorosa e cruel de se superar um desgosto amoroso?

A capacidade de capitalizar de canções, carregando-as de energia para que tenha outra tradução em palco, sem que não deixem de se propagar as emoções que tiveram na sua génese. Esta é a tarefa complexa que Marlon tinha entre mãos e que cumpriu de forma eximia: escutámos o seu repertório, que preencheu pouco mais que noventa minutos, e sentimo-nos profundamente acalentados. Uma das vozes mais interessantes da sua geração. Custou menos sair para a noite escura e chuvosa.

O seu terceiro concerto em solo português em menos de quatro meses, (o primeiro aconteceu no Vodafone Paredes de Coura e a parte do Festival para Gente Sentada a ocorrer em Braga) encontrou no palco do Lisboa ao Vivo, na zona oriental da cidade, expressão em sala para que o o público (que encheu o espaço) saboreasse melhor face à oferta dos típicos alinhamentos de festival – vorazes e despachados.

Após a belíssima balada “Beautiful Dress”, segunda canção, e ainda tímido, confessa-nos que esta é apenas a segunda passagem por Lisboa. A primeira tinha sido aos dezoito. Agora, com vinte e sete, com o coração partido e munido de um repertório que contou em grande parte com canções deste que é o seu segundo longa-duração (depois de Marlon Williams, lançado em 2016), Marlon Williams floresceu para além daquilo que poderia ter sido apenas um concerto de canções tristes.

Não teve medo de utilizar todos os temperos musicais com que cozinhou “Make Way for Love” a seu favor: entre os jogos de anca e as versões de John Lennon (“Jealous Guy” cantada em dueto com Ryan Downey, convidado da primeira parte) e de Screamin’ Jay Hawking (“Portrait of a Man”); a canção recente que escreveu para um futuro filho (“Being Somebody”) e uma banda perfeitamente oleada; os slides de guitarra (foi a primeira vez, confessa, que partiu uma corda na vida) e os momentos mais intimistas ao piano. Marlon Williams não tem vergonha de cantar a plenos pulmões que sofre. E com o engenho de tudo não parecer a mesma coisa. Sem vergonhas: degustar os grandes sentimentos. Mesmo aqueles muito amargos.

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