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Super Bock em Stock (dia 2): a Avenida pintou-se de pop

Texto: GONÇALO COTA

A edição 2018 do Super Bock em Stock terminou este sábado. No segundo, e último dia, escutámos a concretização de Dino d’Santiago, o inesperado Lo-Fang, as identidades musicais bem conseguidas de zConner Younglbood e U.S.Girls e o furor (injustificado, diga-se) chamado Jungle.

Numa Sala EDP (Casa do Alentejo) para lá de cheia – com fila que se fazia sentir ainda na rua – a espera para escutar Dino d’Santigo era grande. Talvez porque “Mundu Nôbu” é um sério candidato a figurar no top de melhores discos a serem produzidos pela nossa terra. Percebe-se, de imediato, que levou algum tempo a amadurecer. E o ponto de partida foi em Cabo-Verde, viagem que fez, em 2010 e onde percebeu que era no crioulo badio que se materializava aquilo que é a sua identidade musical. Quase integralmente cantado nessa língua, ao vivo tudo se expressa da melhor forma. O funaná, o afrohouse, as mornas alimentam-se da soul – e aí há agradecer às vozes que o suportam -, mas também da figura dinâmica de Dino D’Santiago, que, nos registos mais dançáveis, incendiava o palco e ainda um público – feito também de família, amigos – completamente acalentado, principalmente nas canções “Mundu Nôbu”, “Como Seria e “Nova Lisboa”. Ali estava o retrato de um “nova Lisboa, multicultural”. E o retrato de um Dino d’Santiago, um nome a escutar, que é muito mais do que o amigo da Madonna.

Logo a seguir fomos escutar Lo-Fang. Com Blue Film lançado em 2014, a ideia de que o concerto contaria com um alinhamento constituído por canções de afinidade pop eletrónica caiu totalmente por água abaixo. Ali, no meio do Palácio da Independência, estava uma persona muito estranha – com óculos futuristas, que faziam lembrar um vilão de banda-desenhada – acompanhada por um conjunto de instrumento de cordas, a cantar-nos canções (onde aqui, outros ecos, os da pop folk, faziam soprar) desarrumadas, desinteressantes e forçadas. Será, assim, constituído o seu próximo disco. No final, uma canção dedicada a Francisco chamada… Francisco. “Um tipo português com quem estive”, diz-nos. E para ser o melhor registado do alinhamento, diz-vos muita coisa, não diz? O concerto mais tolo que me lembro de alguma vez ter ido.

Avenida acima… Conner Youngblood apresenta-se na sala 2 (bem composta), do São Jorge. Cheyenee, disco que nos vem apresentar, embebe melodias folk pop na sua voz sussurrante e suave. Ainda que parecendo pouco à vontade, Conner recria as paisagens deste seu primeiro longa-duração com muita facilidade, através de um (quase) one-man-show – sendo apenas acompanhado por uma baterista –, tocando os variados instrumentos que o rodeiam. Entre os momentos com que interage com o público, explicando que tinha vindo do Texas na noite anterior – onde celebrou o dia de Ação de Graças -, explicando a génese de “My Brother’s Brother” (tem cinco irmãs e diz-nos que se torna complicado de falar com raparigas com elas) ou criar um momento de calmaria, que serviu como bálsamo para acalmar o corrupio da noite chuvosa, este foi um dos melhores concertos da noite.

… e Avenida abaixo. “In a Poem Unlimited”, disco que U.S. Girls lançou no início deste ano, tem sido alvo de muito boas críticas pela crítica especializada: como uma proposta pop que olha para o feminino e para as suas dimensões sociais e políticas, um grande caldeirão que em momentos lembra ABBA (“M.A.H” ou Poem”) ou que criar afinidades com o jazz, em “Rage of Plastics”, navegando pela pop, lançado, aqui e ali, interlúdios para compor a sua visão. E, apesar de não ter enchido, o Coliseu pareceu o lugar ideal para escutar o ímpeto de Meg Remy (nome de U.S. Girls): num palco luminoso e encorpada pelos sete elementos de uma banda muito oleada, cantou-nos e dançou as canções de “In A Poem Unlimited”, não reescrevendo em nada a sua identidade – também porque não parecia necessário. U.S. Girls conseguiu-nos transportar para o seu imaginário.

Para terminar a edição deste ano, Jungle encheram o Coliseu. Mas encheram mesmo: foi terceiro piso, e último piso, que tentei compreender o porquê dos Jungle serem um furor. Mas não percebi. Tudo soa a pop datada, repetitiva, sem personalidade ou substância. Como é que vos hei de explicar o som de Jungle? Pensem em Bon Iver e James Blake, numas quaisquer férias na Polinésia Francesa e, que, depois de uns daiquiris de morango, decidem fazer música. É isso mesmo: os Jungle são as propostas misturadas, em cocktail, com uns daiquiris de morango. Mas nada funciona: “For Ever”, lançado já no final do verão deste ano, não passa de um disco de verão desinteressante. Além disso, os dois problemas técnicos comprometeram totalmente o ímpeto criado pela banda, mega produzida com luz, coreografias a rigor e roupas que faziam lembrar os amish. Será que os amish bebem daiquiris de morango?

E foi assim o fim do Super Bock em Stock.

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1 Comment on Super Bock em Stock (dia 2): a Avenida pintou-se de pop

  1. “Para terminar a edição deste ano, Jungle encheram o Coliseu. Mas encheram mesmo: foi terceiro piso, e último piso, que tentei compreender o porquê dos Jungle serem um furor. Mas não percebi. Tudo soa a pop datada, repetitiva, sem personalidade ou substância. Como é que vos hei de explicar o som de Jungle? Pensem em Bon Iver e James Blake, numas quaisquer férias na Polinésia Francesa e, que, depois de uns daiquiris de morango, decidem fazer música. É isso mesmo: os Jungle são as propostas misturadas, em cocktail, com uns daiquiris de morango.”

    LOL, ridículo.

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