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As eletrónicas, antes do boing boom tschak

Texto: NUNO GALOPIM

Um CD triplo junta uma coleção de obras de Karlheinz Stockhausen, Pierre Schaffer, Edgard Varèse, György Ligeti, Iannis Xenakis, Pierre Henry, Pierre Boulez e John Cage para sugerir um panorama das visões exploratórias que a música eletrónica experimentava antes de ser assimilada pela cultura popular.

Karlheinz Stockhausen

A assimilação do potencial dos instrumentos eletrónicos pela música popular ocorreu após uma longa etapa de explorações, visões e primeiras gravações que chegaram do universo da música de vanguarda da Europa do século XX. Das propostas de Luigi Russolo ou de Léon Theremin aos verdadeiros laboratórios de ensaio em rádios francesas no pós-guerra, a história da música eletrónica recua no tempo e é vasta nas formas e sons bem antes dos momentos “eureka” achados por bandas alemãs em finais da década de 60 ou por outros pioneiros do seu tempo… Não há entrevista que passe pela génese do seu interesse pela música eletrónica em que o francês Jean Michel Jarre não preste homenagem ao seu velho mestre Pierre Schaffer e refira o estúdio no qual este ajudou a desenvolver formas da chamada “música concreta”. A inclusão de uma imagem de Karlheinz Stockhausen entre a “família” de figuras referenciais que os Beatles chamaram à composição da capa do seu “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club” band constituiu uma das primeiras manifestações de reconhecimento da cultura popular por todo esse vasto corpo de obras e de compositores. O influente “Gesang Der Junglinge”, que Stockhausen criou em Colónia, em estúdio, entre 1955 e 1956 (e que a Deutsche Grammophon levou a disco em 1962), representa de resto a peça que podemos tomar como a sugestão de uma passagem de testemunho entre a etapa exploratória inicial e o labor de construção de uma música vocal com a presença de instrumentos eletrónicos que depois ganharia presença maior na história da canção popular a partir de finais da década de 70.

É entre peças que sugerem esses mesmos universos exploratórios que vários grandes compositores do século XX chamaram ao seu trabalho, sobretudo depois do fim da II Guerra Mundial, que se apresenta a coleção de peças reunidas numa nova edição em triplo CD que, na verdade, não é senão o acoplar de três álbuns antes já editados em separado. Mas que em conjunto, de facto, contam uma mesma história.

Estão aqui reunidos os alinhamentos das antologias (relativamente recentes) “Adventures In Sound”, “New Directions In Music” e “Electronic Music For The Mind and Body” (que me pergunto se não será um piscar de olho ao título do álbum “Electric Music For The Mind and Body” dos Country Joe & The Fish, que nada tem a ver com este universo musical)… Em conjunto estão aqui peças determinantes na história da música eletrónica como “Cinq Etudes de Bruits” (1948) de Pierre Schaffer, o mítico “Gesang Der Juglinge” (1956) de Karlheinz Stockausen (de quem há aqui mais peças sendo, de resto, o compositor mais representado entre os três discos), “Artikulation” (1958) de György Ligeti, o “Poème Electronique” (1958) de Edgard Varèse, “Diamorphoses” (1958) de Iannis Xenakis, “La Voile d’Orphee” (1953) de Pierre Henry, “Cartridge Music Aria (Fontana Mix)” (1958) de John Cage ou, entre outras mais, “Le Marteau Sans Maître” (1954) de Pierre Boulez”.

O retrato é representativo. Junta algumas das obras e compositores mais marcantes nesta etapa da história da música eletrónica e, salvo os casos de John Cage e Varèse (que era natural de França mas passou parte da sus vida no outro lado do Atlântico), mostra como a grande aventura da música eletrónica tem um berço mais vincado na Europa. De resto, fazem parte da sua história pólos de trabalho, discussão e transmissão de conhecimento como o foram as míticas aulas/palestras em Darmstadt (Alemanha) ou o IRCAM em Paris… Sim, depois veio a procura, por jovens bandas alemãs, da expressão de uma identidade distante dos eixos pop/rock anglo-americanos entre finais dos anos 60 e a aurora dos 70… Mas podemos olhar para este corpo de obras e nomes como a proto-história de espaços importantes na música popular atual (na qual os herdeiros dos blues, do gospel, da country, da soul, do rock, do funk ou do hip hop, têm, ao invés dos trilhos das eletrónicas, uma génese primordial entre o melting pot que é a cultura popular norte-americana).

“Adventures in Sound” é uma compilação que junta vários artistas num CD triplo com edição El/Cherry Red.



PS. Quem não entendeu o título do post escute então o disco de 1986 dos Kraftwerk…

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